Luis Nassif
Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
Maria Carvalho
17 de maio de 2014 3:12 amO volume morto e o dinheiro vivo.
Saul Leblon – postado em: 16/05/2014
http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/O-volume-morto-e-o-dinheiro-vivo/30942
A família mais rica do Brasil – os Marinho e seu oceânico pecúlio de US$ 22,8 bilhões, conforme noticia a revista Forbes – é também a proprietária do maior conglomerado midiático do país.
A supremacia das Organizações Globo é conhecida.
Mas o fato de que essa casamata dispare diuturnamente contra qualquer variável que afronte a lógica argentária, da qual seus donos são os maiores expoentes e beneficiários, presta-se a algumas considerações.
Olhada dessa ótica, a fortuna dos Marinhos figura como uma questão política, talvez uma das mais sensíveis da política brasileira.
Ou será que quando interesses marmorizados em uma riqueza da ordem de R$ 50 bilhões –seis vezes o custo dos estádios da Copa– se entrelaçam ao poder de fogo de um dos maiores impérios midiáticos do mundo, seu poder de vigiar e punir em causa própria não assume proporções de uma ameaça à democracia?
O conjunto remete à metáfora de uma sociedade panóptica.
Nela a presença de um poder ubíquo exerce sobre os cidadãos uma vigilância equivalente à do sentinela da torre no controle diuturno dos encarcerados.
A onipresença asfixiante do vigia que tudo enxerga e avalia deu ao francês Michel Foucault (1926-1984), autor de “Vigiar e Punir”, a inspiradora metáfora para abordar a exasperação do controle social no século XX.
A torre do panóptico não assegura apenas a disciplina do sistema.
Sua perversidade consiste em aprisionar a subjetividade social tornando-a carcereira de suas próprias vontades.
Parece devaneio?
Quantas agendas o sistema político brasileiro não rebaixou ou protelou e protela (caso da regulação da mídia), para não se indispor com o poder de fogo da oceânica fortuna armada de irrespondível dispositivo emissor?
Essa invasiva capacidade de inocular agendas e interditar debates lubrificou, entre outras coisas, a imposição da cosmologia neoliberal no imaginário brasileiro nos anos 80/90.
Como não intuir o peso dos US$ 22,8 bilhões, por exemplo, na esférica oposição das Organizações Globo a uma reforma fiscal que taxe adicionalmente as grandes fortunas?
Ou na peroração incansável dos seus editoriais, a desafiar o Estado brasileiro ‘a fazer mais com menos’ – evocação à austeridade emitida do alto de uma montanha de dólares equivalente a 10% do PIB de Portugal?
Ou duas vezes o orçamento total do Bolsa Família que beneficia 50 milhões de brasileiros pobres.
Ainda: como elidir o interesse argentário da maratona vitoriosa dos seus veículos e disciplinados colunistas contra o imposto do cheque, em 2007?
A CPMF, recorde-se, de baixíssima alíquota, funcionava como um incômodo sensor de movimentações financeiras graúdas, nem sempre alinhadas à legalidade.
Foi decepada do orçamento brasileiro em 2007.
Um comparativo da OMS mostra o quanto há de perversidade na fotografia que imortalizou aquele ato, cometido na madrugada de 13 de dezembro, depois de encorajadora campanha sistemática das Organizações Globo & assemelhados.
A imagem estampada no jornal dos Marinhos no dia seguinte ao sacrifício, mostra a nata do retrocesso político, em festa obscena pela subtração de R$ 40 bilhões por ano à saúde pública.
A indecência, se panfletada nas filas do SUS, ainda guarda um teor de nitroglicerina para sublevar o país.
Mais com menos?
Segundo a OMS, o gasto público mundial per capita com a saúde chegou a US$ 571 por ano em 2010. Inclua-se nessa média os US$ 6 mil da Noruega e os US$ 4 per capita do Congo.
O valor brasileiro é de US$ 466/ano ( US$ 107 per capita ao final do governo FHC).
O deserto real é ainda mais árido: apenas 42% daquilo que o país gasta com saúde tem origem e destino público. Sai do governo e chega na fila do SUS, que atende mais de 75% da população.
Outros 58% só circulam entre os 25% que tem plano de saúde.
Os mesmos que gargalhavam na madrugada de 13 de dezembro de 2007 fuzilariam o ‘Mais Médicos’ seis anos depois, com igual despudor e patrocínio da mesma emissora & veículos da família mais rica do país.
É só uma ilustração do ardil que encurrala a sociedade em um labirinto de impasses e protelações angustiantes (veja o ensaio fotográfico de Roberto Brilhante sobre a ocupação ‘Copa do Povo’, em Itaquera, SP; nesta pág).
Cinicamente, o desespero é acolhidos pelo dispositivo dos Marinhos & assemelhados como uma evidência do malogro progressista na condução do desenvolvimento brasileiro.
Seria apenas um escárnio.
Não fosse, sobretudo, a moldura de uma campanha sucessória.
Através dela pretende-se incensar candidatos e agendas que preconizam adicionar ao desespero uma renúncia disfarçada de audácia.
Em nome de desobstruir canais que impedem o crescimento, preconiza-se recuar ainda mais o papel coordenador do Estado sobre a economia.
Um exemplo da ardilosa cicuta oferecida em favos de mel.
É sabido que o portfólio de investimentos dos Marinhos inclui uma bilionária carteira de ações da Petrobrás.
A república dos acionistas tem nos donos da Globo o porta-voz incansável de um sonho reprimido.
Qual?
‘Realizar’ depressa o valor potencial das maiores reservas de petróleo descobertas no planeta nos últimos 30 anos: o pré-sal, que Lula regulamentou e fundiu ao destino da sociedade pelo regime da partilha.
O nome do atalho cobiçado é petroleiras internacionais.
O método: remeter in bruto o óleo, sem refino.
E gerar caixa.
Uma dinheirama como nunca o mercado viu, nem verá.
A república dos dividendos saliva.
Ganharia duplamente se a Petrobrás deixasse de gastar como investidora universal da exploração, com pelo menos 30% em cada poço, como manda a lei.
A economia numa ponta engordaria as carteiras dos acionistas na outra.
A pilha de US$ 22,8 bilhões dos Marinhos subiria mais depressa.
Incharia, ademais, se o petróleo fosse bombeado direto para fora do país.
Sem alimentar impulsos industrializantes, sem investir em quatro refinarias ao mesmo tempo; sem expandir polos tecnológicos; sem engatar cadeias de equipamentos com elevados índices de nacionalização e prazos mais largos de exploração.
Tudo isso, afinal, que só gera corrupção e desperdício…
Nove em cada dez referências das Organizações Globo à Petrobrás são desse teor, muito embora a etatal tenha dado um lucro de R$ 23 bilhões em 2013.
Eles querem mais .
A república dos acionistas gostaria de ficar com o equivalente projetado para o fundo soberano, formado de royalties do pré-sal, que permitirá elevar a 10% do PIB o orçamento da educação pública, ademais de suprir lacunas da saúde brasileira.
Transitamos, como se vê, no campo da injeção de interesses direto na veia do noticiário.
A Sabesp, em São Paulo, conforme mostra reportagens do Viomundo e de Carta Maior, fez exatamente o que os Marinhos preconizam para a Petrobrás e para o Brasil.
Afastou o interesse público do comando estratégico da gestão.
Em vez de investir, tucanos distribuíram nos últimos anos cerca de R$ 500 milhões, em média, aos acionistas da empresa.
Sobrou para a sociedade o volume morto da Cantareira.
A partir deste domingo, as torneiras de milhões de residências estarão gotejando neoliberalismo líquido.
A sociedade que emergiu das conquistas sociais e econômicas acumuladas a partir de 2002 não cabe nos limites estreitos que essa lógica oferece.
Dito de outra forma.
A coexistência de um Brasil urgente, disposto a comandar seu próprio destino, é imiscível com a estrutura de riqueza e comunicação simbolicamente condensada no caricato papel que a família Marinho e seus negócios protagonizam no país.
Seu poder desmedido para manipular conflitos , desqualificar projetos e usufruir privilégios distorce e constrange as vozes que precisam ser ouvidas nesse Rubicão da nossa história.
A travessia só se completará de forma emancipadora se o campo progressista souber erguer linhas de passagem feitas de reformas, prazos e metas críveis aos olhos da população.
Trata-se de estender o horizonte da sociedade para além do volume morto, ao qual os campeões da Forbes gostariam de circunscrevê-la.
E começar por dizê-lo, claramente, nesta campanha eleitoral.
Avelino de Oliveira
17 de maio de 2014 6:28 amCaro Nassif e demais
Análise
Caro Nassif e demais
Análise marxista com linguajar de Rui Barbosa.
Fantástica.
Saudações
Jurandir Paulo
17 de maio de 2014 4:40 amOtan e Ucrânia: do oba! oba! ao epa! epa!
Ótimo texto do professor João Quartim de Moraes, nome de peso no pensamento marxista brasileiro, autor e organizador de vários livros, aqui fala sobre a crise na Ucrania. Texto publicado na lista Eskuerra.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/4958262500691607
Otan e Ucrânia: do oba!oba! ao epa!epa!
Oba! oba!
Nos últimos dias de 1989, antes mesmo de que assentasse a poeira do muro de Berlim e que a “perestroika” de Gorbachov acabasse de apodrecer, quando reacionários e liberais do mundo inteiro comemoravam, eufóricos, o desmantelamento do bloco soviético e a ruptura, em favor do bloco capitalista, do equilíbrio estratégico US/URSS, tropas de choque aerotransportadas do Pentágono invadiram o Panamá para derrubar e prender o presidente Noriega. Operação com pelo menos dois objetivos sórdidos: “queimar arquivo” (Noriega conhecia a fundo as torpezas da CIA, com a qual havia colaborado em fase anterior de sua carreira) e quebrar a espinha dorsal do Exército panamenho, ainda impregnado do espírito anti-imperialista que lhe legara o coronel Torrijos. Os invasores mataram alguns milhares de panamenhos e ocuparam o país até colocar no governo um de seus fâmulos locais. Noticiado com a habitual “compreensão” pela imprensa a serviço do capital, o estupro colonial foi facilmente deglutido pelos meios políticos liberais, “esquecidos” da missão “defensiva” em nome da qual a Otan tinha sido criada no início da guerra fria.
Durante os anos seguintes, sobretudo quando a dupla de celerados G. W. Bush e T. Blair pontificou em seu comando, o cartel industrial-militar imperialista assumiu a função de exército colonial multinacional, despejando suas armas de destruição maciça, sob os pretextos mais hipócritas, num número crescente de países periféricos: Iraque, Sérvia, Afeganistão e Líbia. Foram muitas as semelhanças entre a invasão da Líbia em 2011 e a do Iraque em 2003. Ambos eram governados por um regime laico, oriundo da luta anti-imperialista das nações árabes; ambos tinham forte produção de petróleo de muito boa qualidade e mantinham, dentro dos limites das fortes pressões impostas pelo imperialismo, uma política externa independente. Ambos, enfim enfrentavam uma oposição heterogênea, em que pontificavam provocadores diretamente a soldo dos “serviços especiais” (Cia e sucursais europeias), liberais de direita pro-imperialistas e fundamentalistas islâmicos de extrema-direita.
A novidade na invasão e saqueio da Líbia foi a participação predominante da França na “zona de exclusão aérea”, seguida pelos “bombardeios humanitários” que decidiram o confronto. O assassinato de Khadafi pelos esbirros locais da Otan foi uma queima de arquivo e de credor: o presidente Sarkozy devia muito dinheiro ao governante líbio.
Epa! epa!
Estão terminando, se é que já não terminaram, os anos de euforia dos liberal-imperialistas, dos fascistas e dos social-democratas perante o desmantelamento da URSS. Foi-se o tempo em que os sabujos do plantel mediático extasiavam-se constatando que “a OTAN é dona do mundo”. Reconstruindo o Estado russo, prostituído pelo ladrão Yeltsin (cuja viúva adquiriu um dos mais caros e suntuosos palácios da Côte d’Azur), reaproximando-se da China e levando adiante uma política anti hegemônica, Putin tirou seu país da miserável situação em que o deixara o ébrio comandante da contra revolução de 1991 e mudou a relação de forças no planeta.
A primeira invertida que a Otan levou ocorreu na Síria. A política externa independente mantida pelo governo de Bachar Al Assad, concretizada em alianças com a Rússia e o Irã e em firme apoio ao movimento patriótico Hezbollah, vanguarda da luta contra o facho-sionismo, tornava-o um alvo muito importante para a ofensiva neocolonial da Otan. A tolerância religiosa e o combate à opressão das mulheres valeu-lhe, ademais o ódio obscurantista dos sheiks feudais da Arábia Saudita e dos Emirados petroleiros. Como na Líbia, o romântico clichê mediático “primavera árabe” serviu de embalagem ideológica para a desestabilização da Síria. Vagas sucessivas de mercenários e de fanáticos do chamado Exército sírio livre, sigla que abriga terroristas profissionais financiados pelos sheiks da Arábia Saudita e dos Emirados petroleiros, apoiados pela Turquia e pela Otan, semearam o terror no país, num interminável cortejo de destruições, execuções punitivas e outros atos da pior barbárie (como o registrado no horrível vídeo que os próprios fanáticos divulgaram, comendo as entranhas de um prisioneiro).
Após quatorze meses de operações mortíferas que dizimaram a população e estraçalharam boa parte do país (a começar dos centros urbanos mais importantes), a agressão neocolonial se intensificou em meados de julho 2012, quando a Otan lançou a operação «Vulcão de Damasco e terremoto da Síria». Uma nova vaga de invasores, composta de algumas dezenas de milhares de mercenários e de fanáticos sunitas ligados à tenebrosa al-Qaeda (agindo de mãos dadas com a CIA, como já o tinham feito três décadas antes na guerra santa contra os soviéticos no Afeganistão), entraram na Síria via Jordânia, após liquidaram grupos isolados de policiais e de militares e se apoderarem de vários postos de fronteira. O objetivo era tomar Damasco de assalto. Na manhã do dia 18, eles destruíram a sede do Conselho de Segurança Nacional e mataram três generais: Daud Rajha, ministro da Defesa, Assef Chawkat, ministro adjunto, e Hassan Turkmani, secretário da presidência da República. Em apoio à ofensiva terrorista, o governo estadunidense e seus satélites usaram a sempre maleável ONU para ameaçar neutralizar com “bombardeios humanitários” a superioridade aérea do governo sírio. Mas chocaram-se com um firme veto da Rússia, secundada pela China. A ofensiva foi contida. A guerra continuou e já entra em seu quarto ano. Mas pela primeira vez, desde 1990, a ofensiva imperialista e as sedições por ela apoiadas foram detidas.
Ao ajudar o golpe fascista e pro-imperialista de 21 de fevereiro de 2014, na Ucrânia, que depôs o presidente Viktor Yanukovych porque ele se recusou a assinar um pacto de vassalagem com a União Europeia, os chefes da Otan pensaram dar uma lição à Rússia e reafirmar sua hegemonia planetária, que tinha sido contida pelo veto na ONU aos “bombardeios humanitários” sobre a Síria. Logo ao assumir o governo, a direita golpista revogou a lei que reconhecia o russo como língua oficial em regiões onde ele predominava. No Parlamento ucraniano, deputados contrários ao golpe foram espancados. De todo o Ocidente cristão e plutocrático, do “king of drones” Obama ao social-colonialista Hollande, vieram aplausos aos golpistas de Kiev.
Mas o coro do oba!oba! não durou muito. Na Crimeia e no leste da Ucrânia, a grande maioria do povo, politicamente antifascista e culturalmente ligada à Rússia, mobilizou-se pela autonomia. Em 16 de março, os cidadãos da Crimeia aprovaram em referendum, por 96,8% dos votos, separar-se da Ucrânia e unir-se à Federação Russa. A ofensiva neocolonial da Otan foi de novo detida. Furibundos, os “media ”liberal-imperialistas, competindo para ver quem melhor diaboliza o país que um dia foi dos Soviets, só se referem à “anexação” da Crimeia, modo torpemente mentiroso de descrever os fatos.
Os sabujos da periferia, rosnando à voz do dono (“his master’s voice”), também destilaram sua quota de veneno antirusso. O Estado de São Paulo de 10-5-2014 classificou de “provocação” a presença de Putin em Sebastopol na comemoração do 69º aniversário da vitória final sobre o nazismo. Para não perder muito tempo com porcaria ideológica, seria fácil constatar a indecente duplicidade do jornal do clã Mesquita: ele ataca o governo russo por ter apoiado, sem derramar uma gota de sangue, a autodeterminação da Crimeia, mas justifica até os mais mortíferos ataques imperialistas. Em 22-12-1989, aquele jornal, num editorial intitulado “Em defesa de um modo de vida” (p. 3) não somente defende a covarde e sangrenta agressão das tropas estadunidenses ao Panamá, mas com desenvoltura que surpreende mesmo quem conhece sua veneração pelo Pentágono, Casa Branca, Wall Street, Tio Sam etc. critica a OEA porque esta condenou a invasão. Se tivessem um mínimo de honestidade intelectual, antes de vociferar contra os governos que enfrentam a Otan, lembrariam do que disse o editorialista hipócrita sobre a invasão do Panamá: “A legalidade da ação ordenada pelo presidente Bush funda-se na própria existência do Estado”, que “tem o dever de defender a vida de seus súditos no exterior […]. A vida de cidadãos norte-americanos[…] estava em risco no Panamá de Noriega”. Não se tem notícia de que algum gringo tenha sido molestado por Noriega; só está confirmado que milhares de panamenhos foram massacrados pelas bombas do Tio Sam. Ao passo que na Ucrânia a perseguição aos russos levou ao pavoroso massacre do dia 2 de maio em Odessa. Se estivesse buscando pretextos para resolver pela força o confronto com os golpistas ucranianos, o governo russo não teria deixado passar esta ocasião.
JQM
Cyro
17 de maio de 2014 9:09 amEnergia nuclear: debate necessário
http://www.apn.org.br/w3/index.php/opiniao/6415-energia-nuclear-debate-necessario
Energia nuclear: debate necessário
Quinta, 15 Maio 2014
Artigo de Paulo Metri, importante ator da Campanha do Petróleo, sobre energia nuclear
Existir ou não a geração elétrica a partir de fonte nuclear no nosso país é um debate importante que deve ser realizado. No entanto, neste instante, sugiro que esta divergência seja colocada de lado, porque há uma emergência maior, sobre a qual os adeptos e os críticos da energia nuclear devem opinar.
O deputado federal Alfredo Kaefer, do PSDB do Paraná, apresentou em 2007 a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no 122, que visa modificar os artigos 21 e 177 da nossa Constituição para excluir do monopólio da União a construção e operação de reatores nucleares para fins de geração de energia elétrica. Hoje, só a empresa estatal Eletronuclear constrói e opera no setor. Salvo engano, esta proposta será submetida brevemente à votação do plenário, o que pode não significar grande debate, se for aprovada por acordo de lideranças. Aliás, o capital tem o timing perfeito, pois este é o momento ideal para quem tem dinheiro passar as suas propostas no Congresso. Com a proximidade das eleições, todos os partidos estão precisando de dinheiro para as campanhas, pois infelizmente nosso povo é pouco politizado e, assim, uma campanha é, em grande parte, definida pela disponibilidade de recursos financeiros.
Uma observação inicial é que se está falando da permissão de entrada de empresas estrangeiras na geração nucleoelétrica no país. Não existe a possibilidade de uma empresa privada genuinamente nacional vir a ter esta atividade, por causa do porte e experiência requeridos. Podem até camuflar a entrada das empresas estrangeiras no setor, colocando empresas privadas nacionais genuínas na fachada, mas estas serão somente testas-de-ferro. É preciso diferenciar a assistência técnica externa dada a empresa brasileira, como é o caso da Areva, que assiste a Eletronuclear, do uso de uma empresa brasileira sem competência no setor como testa-de-ferro. Então, na prática, o modelo do setor proposto nesta PEC é o do convívio de subsidiárias das empresas nucleares externas com a única brasileira de porte e tradição, a Eletronuclear, que já possui Angra I, II e III.
Advogo a tese de que, se a sociedade brasileira determinar que deva existir geração nucleoelétrica no país, só o Estado poderia possuir, construir, manter e operar as usinas nucleares, que é basicamente o que está na Constituição, hoje. Passo a explicar as razões que apoiam esta tese.
As empresas estrangeiras não irão querer ter no Brasil todas as atividades de projeto, construção, fabricação de equipamentos e montagem das usinas. Seguramente, vão trazer o projeto e os equipamentos do exterior. A construção e a montagem podem vir a ser contratadas com empresas brasileiras, mas elas poderão também forçar para que construtoras e montadoras estrangeiras entrem aqui. Quanto ao ciclo, a proposta do deputado não menciona nada, mas elas irão importar, certamente, elementos combustíveis, o que maximizará a operação de suas unidades industriais no exterior. Não se pode esquecer que, além da obrigação de oferecer energia elétrica, a mais segura e barata possível, para a sociedade, outros objetivos do Estado são o de maximizar a geração de emprego e renda no Brasil. Assim, este critério é muito melhor satisfeito pela Eletronuclear.
Há um mercado de produtos e serviços nucleares no mundo, permitido pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e com a introdução do novo modelo o Brasil ficará impedido de participar. As subsidiárias estrangeiras aqui sediadas não irão participar de concorrências em outros países, por falta de interesse das matrizes de usar suas subsidiárias, além do lucro de uma eventual exportação não ficar no país. O Brasil poderia tentar entrar, no futuro, com o consórcio Eletronuclear, Nuclep e INB, assistido pela Areva. Esta possibilidade futura está sendo negada com a introdução, hoje, do novo modelo.
O total das remessas de lucros e valores de assistência técnica para o exterior é superior no caso da adoção do modelo alienígena. A diferença entre os valores do modelo estatal e nacional e o modelo estrangeiro representa o montante que não será remetido para o exterior e será reinvestido no país.
A geopolítica da energia nuclear, sobre a qual muitos não se posicionam por incluir a questão da bomba, existe. As autoridades do país, os políticos e a sociedade como um todo não aprovam que o Brasil pesquise para ter uma bomba nuclear. Assim, o Brasil assinou acordos internacionais abrindo mão desta pesquisa e se submete às exigências razoáveis de fiscalização da AIEA. Porém, o Brasil não precisa e não deve abrir mão da posse da tecnologia nuclear para fins pacíficos e, ao absorver o modelo exógeno em pauta, está recusando irracionalmente a posse destas tecnologias. Também, como consequência, a produção da tecnologia da propulsão do submarino nuclear poderá ser dificultada por não se concentrar a geração nucleoelétrica no país nas mãos do Estado.
Resta dizer que a construção e a operação privada de uma usina nuclear traz à tona o célebre conflito entre lucratividade e segurança. Sabe-se que, com o acréscimo de medidas de segurança, mais caras ficam a obra e a operação da usina. A iniciativa privada visa ter o máximo lucro, dentro de uma atuação segura da sua atividade. Contudo, é omitido que existem diferentes graus de segurança para qualquer empreendimento e, a cada aumento da segurança, existe um custo adicional, que aumenta o custo total. Também a escolha do grau de segurança a ser adotado em um empreendimento é uma decisão que leva em conta o impacto na lucratividade, e ninguém pode dizer, com certeza, qual é o grau mínimo de segurança suficiente. Desta forma, pode-se dizer que a construção e a operação de usinas nucleares diretamente pelo Estado podem resultar em usinas mais seguras, à medida que o Estado não procura a maximização do lucro.
Neste ponto da discussão, invariavelmente, surge o contra-argumento de que Chernobyl era do Estado, que não soube operar a usina nuclear. Este contra-argumento traz consigo um desconhecimento de história, pois, na data do acidente, já existia, há mais de 40 anos, a competição ideológica, econômica e militar de duas grandes potências mundiais, os Estados Unidos e a União Soviética. Esta última vinha perdendo a batalha econômica, o que levou o seu governo a adotar medidas imprevidentes, como a de trocar elementos combustíveis do reator de Chernobyl com ele em funcionamento, para não se perder nenhum instante da geração elétrica. Para os céticos do setor estatal, é bom perguntar se a fusão parcial do núcleo do reator de Three Mile Island não teria ocorrido, dentre outras causas, devido ao corte de custos, que afetou a manutenção e a qualidade de materiais usados.
Outro contra-argumento, sempre utilizado, é que, existindo o ente do Estado fiscalizador da segurança nuclear, atualmente a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a segurança estará garantida. Entretanto, algumas das maiores agências reguladoras do país, a ANP, a ANEEL e a ANATEL, que fiscalizam setores abertos ao capital externo, são exemplos de agências dominadas pelas próprias empresas reguladas.
A ANP já colocou mais de 1.000 blocos do território nacional em leilão para a busca de petróleo, atividade esta de pouco valor para a sociedade e de grande valor para as empresas. A ANEEL deixou as concessionárias cobrarem a mais dos consumidores por cerca de 10 anos. A ANATEL deixa o Brasil ter uma das maiores tarifas de telefonia do mundo, em flagrante ação de cartel das operadoras.
Se a PEC do deputado Kaefer passar, conto com a direção e o corpo técnico da CNEN, ou da Agência que venha a ser criada, para oferecer resistência aos assédios de cooptação do setor privado, que com certeza irão existir, uma vez que virão junto com esta “modernidade”.
Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania
Assis Ribeiro
17 de maio de 2014 9:29 am“Não faremos oposição
“Não faremos oposição frontal”, diz Pimentel
O PT vai evitar críticas mais duras ao PSDB na campanha deste ano ao governo de Minas Gerais. É o que afirma o pré-candidato petista, Fernando Pimentel, que pela primeira vez põe seu partido num cenário em que aparece com chances reais de vitória no Estado.
Minas é governada por tucanos desde 2003 e é a base eleitoral do senador Aécio Neves (PSDB), principal candidato de oposição na disputa presidencial. Aécio foi eleito e reeleito governador do Estado e fez seu sucessor, Antonio Anastasia (PSDB). Em abril, Anastasia renunciou para poder se candidatar ao Senado. Desde então, o PP, aliado no Estado ao grupo de Aécio, comanda Minas.
“Não vamos fazer críticas, entrar chutando o balde”, disse Pimentel em entrevista ao Valor PRO em um restaurante de Belo Horizonte na tarde da terça-feira. “Não é preciso fazer uma campanha de oposição frontal.”
O petista diz que tentará trazer para seu lado eleitores que hoje aprovam o governo construído pelo PSDB. E diz que não quer passar a imagem de que um eventual governo petista representará uma guinada.
“Não estou preocupado em marcar diferença com ninguém. E não vamos interromper qualquer experiência que tenha sido adotada e que tenha se mostrado vitoriosa, benéfica para o Estado”, disse ele ao ser perguntado se planeja uma inflexão.
É um discurso que deixa o eleitor no Estado à vontade para repetir um comportamento que adotou nas eleições de 2002, 2006 e 2010. Nas duas primeiras, a maioria dos mineiros votou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para presidente e em Aécio para governador; depois a maioria votou em Dilma Rousseff, que tenta a reeleição este ano, e em Anastasia. As combinações ganharam apelidos de chapas “Lulécio” e “Dilmasia”.
Quais as chances de uma chapa “Aementel” ou “Pimentelcio” este ano? Pimentel ri e sinaliza que vê esse cenário como plausível.
“Tem gente que fala isso de vez em quando. Mas isso, se surgir, surgirá do eleitor. Da nossa parte não vai surgir, tampouco da parte dos tucanos. Ninguém vai fazer campanha nessa direção”, diz. Sua tese é que o mineiro é um eleitor arguto. “Ele não abraça a análise que o partido A, B ou C faz para ele. Ele faz a análise dele e isso pode reservar alguma surpresa desse tipo.”
No PT mineiro, críticos mais contundentes do PSDB, chamam Pimentel de o mais tucano dos petistas. Em 2008, ele – então prefeito de Belo Horizonte – e Aécio – então governador de Minas – se alinharam para lançar Marcio Lacerda (PSB) à prefeitura. Lacerda venceu. Em 2012, nas eleições municipais, Pimentel insistiu, contra uma ala numerosa do PT, que o partido devia abrir mão de candidatura e apoiar, ao lado dos tucanos, a candidatura de Lacerda. O PT acabou lançando Patrus Ananias; Pimentel ficou mal visto entre correligionários e Lacerda foi reeleito de mãos dadas com Aécio.
Mas agora Pimentel tem o partido unido em torno de sua campanha. Ele é o favorito segundo todas as pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora em Minas. A última, da MDA, divulgada em outubro, dava a ele de 39,7% a 42,2% (sem considerar o cenário que incluía Lacerda, que, no mês passado, disse que não disputaria o governo). Pesquisas internas continuam mostrando, segundo o PT, resultados bastante positivos.
Pimentel caminha para ter em sua chapa dois peemedebistas: o ex-ministro da Agricultura Antonio Andrade, como vice, e como candidato ao Senado, o empresário Josué Gomes da Silva, da Coteminas, e filho de José Alencar (morto em 2012), que foi vice de Lula. Ontem, Pimentel e Andrade e Josué estiveram num encontro do PCdoB em Belo Horizonte. O PT conta que formará aliança com PMDB, PRB, PCdoB Pros.
O candidato que rivalizará com o petista é Pimenta da Veiga, do PSDB, que, nas pesquisas de outubro, oscilava, dependendo dos cenários, de 11,4% a 12,7%. Os tucanos põem fé que a campanha de Aécio puxe votos para Pimenta. Pimentel relativiza e diz que se o candidato a presidente exercesse mesmo essa influência nos Estados, o PT teria eleito governadores em Minas nas últimas três eleições.
Veiga foi ministro das Comunicações do governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002) e desde então estava fora da vida partidária.
Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior de Dilma até o início do ano, Pimentel já fez 12 viagens por Minas desde que deixou a Esplanada para, segundo diz, ouvir demandas e sugestões que o ajudarão o programa de governo. Ele afirma já ter pronta a ideia central de sua estratégia de campanha. “Vamos trazer os mineiros para a reflexão com um programa de governo fruto de audiências, caravanas”, diz “A campanha vai ter esse condão: eu não quero que mude nada em Minas Gerais ou será que não está tão bom assim?”
O ex-ministro sobe no muro quando perguntado se o fato de ter sido ministro de Dilma – cuja aprovação está em queda – é vantagem ou desvantagem para ele na disputa em Minas. “Não acho que seja nem uma coisa nem outra. É um dado. Para os que já rejeitam o PT, esse é mais um elemento contra sua campanha. E vice-versa”, diz. E acrescenta: “Mas eu acho não existe essa indução. Não acho que isso pese tanto não.”
http://www.valor.com.br/politica/3550148/nao-faremos-oposicao-frontal-diz-pimentel
Assis Ribeiro
17 de maio de 2014 9:33 amNacionalista hindu celebra
Nacionalista hindu celebra ‘vitória esmagadora’ na Índia
Resultados parciais das eleições gerais na Índia divulgados nesta sexta-feira indicam que o partido nacionalista hindu BJP sairá vitorioso com uma ampla margem sobre seus rivais, levando à maior vitória eleitoral nos últimos 30 anos no país.
O Partido do Congresso já admitiu derrota.
O líder do BJP, Narendra Modi, que deverá se tornar o novo premiê do país, disse pelo Twitter: “A Índia venceu. Bons tempos no futuro”.
Falando a simpatizantes, Modi afirmou que o pleito foi “um marco” na história indiana.
Se todos os resultados forem confirmados, significarão um duro golpe no Partido do Congresso, da família Gandhi e do atual premiê Manmohan Singh.
Eficiência e nacionalismo
Governador do Estado de Gujarat desde 2001, Modi é visto como um líder firme e proativo, com agenda desenvolvimentista e fortemente nacionalista. Sua principal promessa de campanha foi reanimar a economia indiana. Em seu tempo à frente de Gujarat, a região tornou-se uma potência econômica.
Mas os feitos econômicos não aplacam a desconfiança de parte do eleitorado. Modi é acusado de fazer pouco para deter os conflitos religiosos que deixaram mais de mil mortos em seu Estado em 2002. A maioria das vítimas eram membros da minoria muçulmana. Modi, no entanto, nega qualquer envolvimento no massacre.
Excelente orador, ele é frequentemente chamado de estrela mais brilhante do BJP, e seus membros já o apoiavam para primeiro-ministro muito antes de seu partido ter superado profundas divergências internas em torno do seu nome.
Modi é popular. Nos comícios, simpatizantes usam máscaras com o rosto de Modi. Em tempos de eleições, barracas de chá em toda a Índia oferecem a bebida em copos de papel com fotos de Modi.
Muitos indianos, no entanto, dizem que não podem aceitar Modi como primeiro-ministro por causa de seu suposto papel nos confrontos de 2002.
Modi nunca expressou qualquer remorso ou ofereceu qualquer pedido de desculpas pelos conflitos. Desde então, muitos muçulmanos foram deslocados pela violência, buscando abrigo em guetos nos arredores de Ahmedabad, a maior cidade e a capital de Gujarat.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140516_india_eleicoes_dg.shtml
Assis Ribeiro
17 de maio de 2014 9:36 amSuíça vota proposta de
Suíça vota proposta de salário mínimo de R$ 10 mil
Caso seja aprovado, será o salário mínimo mais alto do mundo
Um salário mínimo de R$ 9.970 será votado neste final de semana na Suíça – o valor equivale a US$ 24,70 por hora de trabalho. Se aprovado, será o salário mínimo mais alto do mundo.
Atualmente, o ranking é liderado por Luxemburgo, onde a hora de trabalho é de US$ 10,65, seguido pela França (US$ 10,63) e Austrália (US$ 10,21). No Brasil, o salário mínimo é de R$ 724, ou US$ 1,48 por hora de trabalho. Os dados são da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2013.
O economista brasileiro Guilherme Suedekum afirmou à BBC que o problema na Suíça é o alto custo de vida. “Estima-se que o mínimo rendimento para uma vida decente no país seja de 3,8 mil francos suíços”, conta.
Dados do governo mostra que somente 9% da população economicamente ativa recebe salário inferior a 4 mil francos.
O referendo sobre o valor do salário mínimo foi proposto pela União Sindical Suíça (USS). A proposta encontra oposição de alguns, que consideram que o salário mais alto pode gerar aumento da inflação e do desemprego. A Associação Suíça dos Empresários afirmou que a medida, se aprovada, será “socialmente e economicamente fatal”.
Dos 28 países da União Europeia, só sete não têm salário mínimo fixado nacionalmente – Dinamarca, Itália, Áustria, Finlândia, Chipre, Suécia e Alemanha. Este último país, no entanto, passará a ter um mínimo de 8,50 euros por hora (US$ 11,65) a partir de 2015.
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/suica-vota-proposta-de-salario-minimo-de-r-10-mil/?cHash=75a98e968f41c6750ea512a0689bd976
Assis Ribeiro
17 de maio de 2014 9:45 amMal-estar social e uma
Mal-estar social e uma herança de desigualdades.
Desafios a serem superados “O tamanho da melhora não é suficiente para o tamanho das dificuldades que temos de enfrentar”, avalia a economista Tânia Bacelar.
“O governo, quando entra na economia, não gera renda; ele apropria a renda que a economia gera. Quando dizemos que o governo paga, alguém está pagando pelo governo, e geralmente são os que têm menos poder de pressão no governo que pagam”. A ponderação é da economista Tânia Bacelar de Araújo, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, na última quinta-feira, quando esteve na Unisinos, participando do XV Simpósio Internacional IHU. Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
Interferências como essa, acompanhadas de complicadores externos e internos, geraram a “espiral em que estamos há duas décadas”, com uma elevada dívida pública, pontua. A solução para resolver essa questão, contudo, não consiste na manutenção de um estado mínimo, mas, sim, em “reequilibrar a conta do governo. E isso deve ser feito a médio prazo, porque não dá para fazer isso no curto prazo”, assegura. Apesar de a resposta parecer simples, “esse é um grande problema”, diz Tânia Bacelar de Araújo, na entrevista a seguir.
Na avaliação da economista, os impactos da dívida pública são sentidos em todas as áreas sociais, “porque o governo fecha no vermelho e precisa se financiar. Para isso, ele emite títulos para quem tem dinheiro financiá-lo e paga uma taxa de juros muito alta a essas pessoas”. Por isso, acentua, há cortes na saúde, na educação, nos investimentos, “porque não dá para cortar a parte do investidor, já que o governo depende dele para continuar se financiando”.
Apesar das conquistas sociais dos últimos anos, Tânia também identifica um mal-estar na sociedade brasileira, o qual emergiu nas manifestações de junho do ano passado. Essa insatisfação está relacionada com a “herança de desigualdades” do país e com o fato de o Brasil não ter superado esse passado. “Quando as pessoas melhoram de condição de vida, elas querem mais. É uma condição da natureza humana querer melhorar. E como se teve uma melhora, se viu que é possível melhorar, e isso estimula cobrar mais”, assinala.
Tânia Bacelar possui graduação em Ciências Sociais pela Faculdade Frassinetti do Recife, graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Católica de Pernambuco, diploma de Estudos Aprofundados – D.E.A. pela Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne e doutorado em Economia Pública, Planejamento e Organização do Espaço pela Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne. Exerceu vários cargos públicos e atualmente é professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco, sendo também sócia da Consultoria Econômica e Planejamento – CEPLAN.
Que momento o Brasil vive em relação à economia? Qual seu diagnóstico de como o governo Dilma tem conduzido a economia do país?
Tânia Bacelar de Araújo – O Brasil vive um momento de dificuldades. O contexto em que a presidente Dilma assumiu a presidência é diferente do contexto em que o presidente Lula governou. É o mesmo partido que domina o governo, é a mesma coligação política, mas o contexto em que eles assumiram é muito diferente. Foi muito mais favorável no governo Lula e menos favorável no governo Dilma. O elemento de definição disso é a crise de 2008, que foi se aprofundando e a partir de 2010 a economia brasileira sentiu mais os impactos da crise mundial. A presidente também cometeu alguns equívocos e estamos pagando um preço por isso.
Quais equívocos?
Tânia Bacelar – Por exemplo, ter baixado a taxa de juros, que é uma coisa que Lula não fez, mas ela fez. O caso é que ela fez sozinha.
Ela não teve apoio? Não deveria ter baixado a taxa de juros?
Tânia Bacelar de Araújo – Poderia, mas a conjuntura em que isso aconteceu era mais adversa e ela preparou pouco, politicamente, essa atitude para o tamanho da ousadia que iria patrocinar.
Aí ela teve de recuar e perdeu a batalha, tendo que voltar as taxas de juros a um patamar muito elevado, e esse é um dos problemas da economia brasileira. Como o governo brasileiro é deficitário, ele depende de financiamento, através da emissão de títulos, para poder fechar as suas contas. O tamanho da dívida pública brasileira é muito alto, e como a taxa de juro também é muito alta, quanto mais se eleva a taxa de juros, mais o governo paga de rendimentos a quem empresta dinheiro a ele. Então, é bom para quem tem excedente financeiro e péssimo para a maioria da população e para o país no seu conjunto. O Brasil não conseguiu sair dessa situação.
Nesse sentido, são mais os fatores externos ou internos que determinam a situação econômica do Brasil atualmente? À época do governo Lula havia bastante expectativa de crescimento no longo prazo por conta do crescimento do PIB de 7%, mas, por outro lado, havia algumas críticas no sentido de que esse crescimento era causado por conta da situação externa e não interna. Além da crise internacional e da dívida pública brasileira, quais são os outros fatores que fazem com que o Brasil se encontre nessa situação econômica?
Tânia Bacelar de Araújo – O contexto externo teve uma força grande, mas a presidente Dilma entrou no governo em 2011 com o “freio na mão”, pressionada por fazer o ajuste das contas públicas. Teve, portanto, nesse sentido, problemas internos, e não somente problemas externos.
Também tem a força de alguns setores dentro do país; não é só o governo. A força da indústria automobilística, por exemplo, tem um peso muito grande na economia, então, tanto Lula quanto Dilma deram subsídio para as pessoas comprarem mais carros. Essa medida é boa no curto prazo, porque gera emprego, mas é ruim no longo prazo, porque vai na contramão das tendências do século XXI e está criando um problema de mobilidade.
A senhora também identifica um cenário de desindustrialização?
Tânia Bacelar de Araújo – Identifico uma situação de crise, mas não diria que é desindustrialização. Há um problema de competitividade industrial brasileira, que foi onde o Estado fez a principal aposta no século XX, mas não localizo esse problema no período recente. Essa dificuldade se coloca com muita força na década de 1990, quando o governo Collor iniciou uma abertura comercial muito rápida. A indústria brasileira era protegida e ele quis desprotegê-la e fez isso muito depressa ao baixar as taxas de importação rapidamente. Isso gerou um choque interno negativo, porque várias das cadeias produtivas industriais brasileiras perderam a competição para outros países, ou seja, o Brasil perdeu mercado interno pelos competidores externos. Esse processo veio se aprofundando na década inicial do século XXI.
Trata-se, portanto, de um processo que já tem duas décadas. Hoje o Brasil perde espaço para a China, por exemplo, com muita força, em vários segmentos em que a indústria brasileira já ocupou esse mercado.
A renda melhorou, o consumo por bens industriais aumentou e o Brasil cedeu seu mercado à produção externa, perdendo imposto, emprego e mercado externo também. Então, o Brasil tem, sim, um problema a enfrentar na indústria. A discussão é como se enfrenta esse problema. Há um choque de produtividade que precisa ser dado. A indústria brasileira precisa investir mais em inovação, porque os mercados que estão ganhando do mercado brasileiro fizeram isso.
Então, o baixo índice de expressividade da indústria, indicado este ano, é consequência de políticas dos anos 1990?
Tânia Bacelar de Araújo – É o desdobramento do que vivemos nos anos 1990, mas com problemas adicionais: a crise reduziu o mercado mundial. E aí os competidores vieram para o Brasil, porque enquanto havia crise no exterior, o país estava crescendo. O Brasil se tornou atrativo para os países mais competidores que tinham como vir para cá; com isso nós perdemos espaço.
Em relação à política de crédito para movimentar o consumo interno brasileiro, o governo apostou demais nessa medida ou esteve atento à hora de reduzi-la?
Tânia Bacelar de Araújo – Não, porque o Brasil tem uma renda média muito baixa. O que Lula fez foi aumentá-la um pouquinho. Para ampliar o consumo, tem de juntar renda com crédito, e foi isso que Lula fez. Os limites de endividamento não são tão altos no Brasil e, portanto, ainda há limite de endividamento. A taxa de inadimplência também não é absurda, o que significa que as pessoas tiveram juízo e não comprometeram totalmente a sua renda. A ampliação do crédito em tão curto prazo deu chance para as pessoas adquirirem bens aos quais elas não teriam acesso se não fosse o sistema de crédito. Isso melhorou as condições de vida de muita gente. Nós que somos mulheres sabemos qual é a diferença entre ter e não ter uma máquina de lavar roupa.
Em que áreas é possível sentir as implicações da dívida pública?
Tânia Bacelar de Araújo – Em todas as áreas, porque o governo fecha no vermelho e precisa se financiar. Para isso, ele emite títulos para quem tem dinheiro financiá-lo e paga uma taxa de juros muito alta a essas pessoas. Então, isso gera uma renda adicional para os que são superavitários e podem emprestar ao governo. Essa situação, hoje — e desde os anos 1980 —, leva à maior parte do gasto do governo. Aí, o que o governo faz? Corta na outra parte.Então, cada vez que o pessoal que aplica cobra ajuste do governo, está cobrando que ele corte gastos na saúde, na educação, nos investimentos, porque não dá para cortar a parte do investidor, já que o governo depende dele para continuar se financiando.Todos os segmentos sofrem com isso, porque a sociedade carrega essa dívida. O governo é um ente que, quando entra na economia, não gera renda; ele apropria a renda que a economia gera. Quando dizemos que o governo paga, alguém está pagando pelo governo, e geralmente são os que têm menos poder de pressão no governo que pagam.
A alternativa é Estado mínimo na economia, como propõem os neoliberais? Ou o Estado deve atuar de que forma?
Tânia Bacelar de Araújo – Não. Proponho reequilibrar as contas do governo. E isso deve ser feito a médio prazo, pois não dá para fazer isso no curto prazo. Esse é um grande problema, porque, por exemplo, em relação à dívida externa, os mais radicais propõem moratória, mas quando se faz moratória da dívida externa, estoura lá fora. Quando se propõe moratória da dívida interna, estoura na nossa “cabeça”. Então, nenhuma solução radical pode ser dada.
Tem de ter uma solução construída ao longo do tempo. E uma peça chave nesse processo é a taxa de juro mais baixa, porque a taxa de juro muito alta recria a dívida só para pagar os juros, e ficamos nessa espiral em que estamos há duas décadas. Isso precisa ter um escalonamento no tempo. Já melhorou, porque a dívida já foi muito mais alta do que é hoje, mas ainda é muito pesada. Tanto que, quando olhamos o orçamento da União, percebemos que o seu principal gasto continua sendo de despesas com o pagamento da dívida pública. Aí o país precisa de recursos para investir na agricultura familiar, na educação, na saúde, e esse dinheiro disputa com o outro, porque é o mesmo caixa.
E como a senhora vê, diante desse quadro, a nova estratégia do governo Dilma, de liberar a entrada de mais capital financeiro no país com a justificativa de investir no desenvolvimento?
Tânia Bacelar de Araújo – O dinheiro externo não resolve isso, porque ele se alimenta desses títulos. Então, além de pagar os ricos do Brasil, ainda pagamos os ricos do exterior, e transfere-se mais renda para o exterior. Há dois tipos de dinheiro externo que entram no Brasil: o de curto prazo, que vai para os títulos do governo, e os que entram para investir na economia e ficar no país. O Brasil tem atraído bastante capital externo, mas isso não resolve o problema dele no sentido das contas a serem pagas pelo governo. Resolve no sentido de ampliar e melhorar a economia, gerando emprego, mas, também, por outro lado, desnacionalizando as empresas, que é outro problema.
É possível conciliar desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e sustentabilidade? Como avalia, nesse sentido, as ações do governo brasileiro, levando em conta essas três questões?
Tânia Bacelar de Araújo – É mais fácil trabalhar só com um lado da questão e dizer, por exemplo, que se a economia cresce, se resolve o problema social. O Brasil já foi um exemplo de economia crescendo muito, com cada vez mais agravamento do problema social. Com isso, aprendemos que essa proposta não era viável, que deveríamos cuidar também da questão social e ter políticas públicas para investir também no social. Essa medida ajudou a melhorar o quadro social brasileiro. Por outro lado, combinar a economia com o ambiental é uma tarefa importante, porque precisamos utilizar a natureza, mas depende da forma como a utilizamos.
Como a sociedade precisa sanar as suas necessidades, ela precisa utilizar a natureza, mas a questão é como se utiliza a natureza. Uma variável estratégica é o padrão tecnológico. Então, pode-se precisar explorar uma floresta e passar uma motosserra embaixo e cortar todas as árvores de uma vez só: as maduras e as que estão ainda se desenvolvendo. Mas pode-se aproveitar a mesma floresta com corte seletivo, identificando quais são as árvores maduras, tendo mais trabalho para cortar somente essas.
Mas na visão de médio e longo prazo há um ganho com isso, porque não se destruíram as árvores que estavam nascendo, as quais serão usadas quando estiverem maduras. Então, a tecnologia do corte seletivo resolveu o seu problema.
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Mal-estar-social-e-uma-heranca-de-desigualdades-Desafios-a-serem-superados/7/30902
Cyro
17 de maio de 2014 11:00 amÉ isso o que a classe média tem que entender
Roger reclama que o povo é deseducado, por não ter escolas de qualidade e culpa o PT. Diz que o povo não precisaria do bolsa família se não fosse inculto. Não vou discutir a obviedade da afirmação. Ney Matogrosso reclama da miséria geral e da alta carga exercida pelos impostos. Ora, vejam bem; muita coisa foi feita de certo e de errado neste país, mas nada tão errado como o desgoverno do PSDB e o retrocesso imposto pelo Fernando Henrique Cardoso. Depois da segunda guerra mundial o país parecia o jardim do éden para as turmas da zona Sul e dos Jardins, com crescimento na indústria, segurança e educação de qualidade – professor era senhor e doutor. E a população mais rural do que urbana ia tocando a vida; haveria tristeza em acordar cedo e tirar o leite para botar no café junto com o queijo e a farinha de milho? O país se contruía, nossos avós suavam para criar. As dívidas eram pequenininhas. Com o passar do tempo constroem-se grandes usinas, grandes mineradoras, siderúrgicas, sistemas de comunicação, satélites, Petrobrás, indústrias químicas, ferrovias, rodovias, reservatórios, sistemas de saneamento, asfaltamento, urbanização, tudo isso, é claro, gerando alguma dívida (e sempre com os seus 15% da maldita corrupção). Digo alguma dívida porque até então esta era administrável. Aí demos o azar tremendo de eleger o tal do FHC. Quase tudo o que tinha sido construído ao longo de décadas e pago com o imposto do suado labor dos brasileros foi entregue por valores irrisórios à iniciativa privada, com o governo assumindo as dívidas para sanear as empresas antes da entrega. A dívida pública sob o desgoverno do Fernando Henrique Cardoso deu um salto incrível, aumentou enormemente, cresceu de forma espantosa e não há adjetivos suficientes para ilustrar o crescimento da mesma, e hoje dos altíssimos impostos enfiados goela abaixo dos brasileiros, quarenta e dois por cento (42%) são destinados ao pagamento dos juros da dívida monstruosa; somente rolagem da dívida, não se consegue pagar o principal. Entendeu? De todo o imposto que você paga vão 42% para rolagem da dívida. Depois da previdência social e das transferências para estados e municípios sabe o que sobra? Dos dois trilhões e trezentos milhões? 3,44 por cento para a educação, 3,91 por cento para a saúde e as ridículas, para não chorar, 0,08 por cento para energia, 0,07 por cento para comunicações e 0,15 por cento para saneamento, dentre outras maiores e menores fatias. Fazer o que?
Antonio Carlos Silva - RJ
17 de maio de 2014 10:12 amSujeito sangue bom !! Ótimo cineasta, excelente brasileiro !!
Furtado rebate críticas de artistas ao país: “mal informados”
Diretor gaúcho Jorge Furtado usou seu blog pessoal para rebater as manifestações de artistas brasileiros que criticaram a atual situação social, política e econômica do Brasil; “Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos”, disse; ele questiona: “Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual sua fonte de informação?”
16 de Maio de 2014 às 20:39
247 – O diretor gaúcho Jorge Furtado usou seu blog pessoal para rebater as manifestações de artistas brasileiros que criticaram a atual situação social, política e econômica do Brasil. O texto foi publicado um dia após as declarações de Wagner Moura para jornal O Estado de S. Paulo, em que o ator se diz satisfeito em deixar o país por dois anos.
Moura reclamou do preconceito e do conservadorismo do país. Ele criticou o PT – “O PT não inventou o toma lá, dá cá, mas o institucionalizou” – e o governo de Eduardo Paes (PMDB) no Rio de Janeiro: “Eduardo Paes governa com a iniciativa privada”.
Em seu blog, Furtado escreveu: “Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados. (…) Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos (…)”, escreveu o diretor em seu blog no site da Casa de Cinema de Porto Alegre. No texto, ele questiona: “Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual sua fonte de informação?”
Jorge Furtado encerra o texto dizendo “o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?”. Outros artistas brasileiros também se manifestaram sobre o tema, gerando grande repercussão: o cantor Ney Matogrosso deu entrevista para o canal de TV português RTP fazendo duras críticas ao governo, dizendo que “hoje em dia, a saúde pública no Brasil é uma vergonha” e “está piorando”, “a educação no país é vergonhosa” e “o transporte público é horroroso”.
Na semana passada, o vocalista Roger, do Ultraje a Rigor, rebateu declarações de que ele seria incoerente por tocar em um evento financiado pelo governo – que ele critica. Roger aproveitou para criticar planos como o Bolsa Família: “Tenho certeza que, se fôssemos bem educados, ninguém precisaria de esmola do governo, assim como eu próprio nunca precisei”.
Leia o texto de Jorge Furtado na íntegra:
“Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.
Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.
Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?
Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa “voltar ao ‘normal ‘”, como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se “normal” fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?
A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.
A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?”
Heitor de Assis
17 de maio de 2014 12:47 pmMais cristalino do que a água do volume morto da Cantareira…
Há muito tempo eu não encontrava texto tão esclarecedor sobre esta ferida aberta no seio da democracia brasileira, chamada Organizações Globo, família Marinho e seus periféricos.
Marco St.
17 de maio de 2014 2:04 pmVeja a NSA instalando grampos
Veja a NSA instalando grampos em dispositivos após interceptá-los
Gizmodo
Nós sabemos há meses que a NSA intercepta computadores comprados nos EUA para instalar grampos. Agora temos imagens que mostram como é esse processo.
Uma nova coleção de documentos foi lançada junto ao novo livro Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald. Eles mostram o que a NSA faz quando põe as mãos em produtos de nomes como Western Digital, Seagate, Maxtor, Samsung, Juniper Networks, Cisco e Huawei.
Segundo o Ars Technica, o documento explica o que acontece dentro da unidade TAO (Operações de Acesso sob Medida):
Funciona assim: os dispositivos de rede (servidores, roteadores etc.) em rota para nossos alvos em todo o mundo são interceptados. Em seguida, eles são redirecionados para um local secreto, onde funcionários do TAO/AO-S326 – com o apoio do Centro de Operações Remotas (S321) – permitem a instalação de grampos diretamente nos dispositivos eletrônicos dos nossos alvos. Estes dispositivos são, em seguida, reempacotados e colocados de volta em rota para o destino original. Tudo isso acontece com o apoio de parceiros da Comunidade de Inteligência e dos assistentes técnicos no TAO.
Tão simples! O documento, de junho de 2010, estava em um boletim distribuído internamente pelo chefe do departamento para Desenvolvimento de Acesso e Alvos da NSA.
O boletim está entre os documentos recém-revelados por Glenn Greenwald em seu novo livro, onde ele conta mais detalhes sobre como conheceu Edward Snowden, e sobre o funcionamento da NSA. Você pode ler o primeiro capítulo aqui; e mais trechos aqui.
Para divulgar o livro, Greenwald também deu entrevista a um especial “United States of Secrets“, que investiga a obsessão do governo americano por espionagem; e apareceu no Programa do Jô, da Rede Globo, onde disse: “não há limites legais sobre como a NSA pode invadir a comunicação dos estrangeiros”.
Greenwald é um ex-advogado que atua no jornalismo desde 2005. Ele é o autor de diversas reportagens sobre o esquema de espionagem da NSA e também da agência de espionagem britânica GCHQ – o trabalho levou o prêmio Pulitzer por serviço público no ano passado.
Seu livro será adaptado para o cinema: a Sony Pictures Entertainment comprou os direitos de Sem lugar para se esconder, e a história de Snowden será contada pelos produtores da franquia James Bond. O filme ainda não tem data para ser lançado; o livro, publicado no Brasil pela editora Sextante, está em pré-venda, com lançamento previsto para 20/05. [
Marco St.
17 de maio de 2014 2:07 pmOs EUA sendo EUA.
A proposta que pode acabar com a neutralidade de rede nos EUA foi aprovada
Enquanto o nosso Marco Civil da Internet foi aprovado e sancionado garantindo o conceito da neutralidade da rede, o que é visto como uma grande conquista por defensores de internet livre pelo mundo, as coisas caminham para o lado oposto nos EUA. A FCC, espécie de Anatel deles, aprovou uma proposta que coloca em risco a isonomia do tráfego.
A imprensa dos EUA já afirma que a proposta vai arruinar a internet. O que ela diz: provedores de internet podem sim dar privilégios a empresas que paguem para isso. É o que foi apelidado de “via rápida da internet”, algo como uma faixa exclusiva de tráfego para serviços que fecham acordos com operadoras.
Há algum tempo a Netflix fechou acordo com Comcast e AT&T, duas das grandes operadoras dos EUA, para dar acesso direto aos seus serviços para os clientes desses provedores. Na prática, significa que, nas redes dessas operadoras, o acesso aos serviços da Netflix é mais rápido do que em outras. Pela proposta da FCC, isso é permitido, e outras empresas podem fazer o mesmo com as operadoras. As operadoras não poderão diminuir a velocidade de acesso a algum serviço que não tenha fechado acordo com elas, apenas oferecer privilégios para aqueles que pagam mais. E aqui não estamos falando de usuários que pagam mais para ter velocidade maior – o que acontece em todos os lugares do mundo – e sim empresas que paguem para isso. O risco está aí.
Sufocando os pequenos
O temor nos EUA é que essa proposta de alguma forma sufoque pequenos serviços e impeça o surgimento de novas ferramentas. É fácil entender como isso pode acontecer.
Vamos dizer que uma pequena startup queira oferecer um serviço novo, um concorrente para gigantes já estabelecidos no mercado. Haverá uma grande desvantagem nessa competição, que não será nem um pouco sadia: os gigantes estabelecidos possuem dinheiro, podem fechar acordo para ter prioridade em velocidade nas redes das operadoras. Logo, o pequeno sofre para crescer, já que não tem como pagar para a “via rápida”, e é sufocado. Sem ter com quem competir, a tendência é que os gigantes cobrem o quanto quiser – afinal, não estão ameaçados por novos nomes que podem vir a surgir.
Lembre-se que mesmo gigantes de hoje na internet começaram como pequenas startups: seja no caso dos estudantes de Stanford que criaram um poderoso motor de busca, ou aquele outro estudante de Harvard que criou um site para outros alunos da universidade. Com a proposta da FCC, o Google provavelmente enfrentaria muito mais dificuldade para se tornar o que é hoje, assim como o Facebook. São gigantes que cresceram no ambiente de tráfego isonômico na internet. Colocar o poder econômico como um fator que pode influenciar no tráfego da internet é perigoso e pode destruir esse ambiente livre.
Vale ressaltar que a proposta da via rápida da internet ainda é apenas uma proposta. Ela foi aprovada por 3 votos a favor e 2 contrários pelo conselho da agência, e agora passará por um período de 60 dias de audiência pública – nos próximos meses, uma grande batalha pela neutralidade da rede oorrerá nos EUA. [Business Insider, The Verge]
Marco St.
17 de maio de 2014 2:27 pmFunciona mesmo!
Um truque simples aumenta drasticamente a vida útil das lâminas do seu barbeador
Por: Daven Hiskey – TodayIFoundOut.com

Hoje eu descobri como aumentar drasticamente a vida útil de lâminas de barbear, seja de marcas como Gillette ou Bic. Este truque é incrivelmente simples e bastante eficaz. Ele também vai lhe poupar algum dinheiro ao longo do tempo.
Por exemplo, um conjunto de 4 cartuchos para Gillette Mach 3 custa uns R$ 30, e cada um deles promete durar um mês. Mas com o método abaixo, eu uso o mesmo cartucho há oito meses, e as lâminas continuam bem afiadas.
Não tenho ideia de quanto tempo isso vai durar, mas agora aquele pacote de cartuchos pode durar quase quatro anos, em vez de quatro meses. Ou seja, no total é uma economia de até R$ 330, dependendo de quanto tempo as lâminas permaneçam afiadas com o método abaixo.
Materiais necessários:
calça jeans – pode ser velha ou nova, mas uma das pernas da calça precisa estar intacta;barbeador não-elétrico, tal como Gillette ou Bic, descartável ou não.
Como fazer:
antes ou depois de fazer a barba – eu prefiro antes, porque as lâminas estão secas – coloque seu jeans em uma superfície plana e dura;deslize rapidamente o barbeador de baixo para cima na perna da calça, repetindo isso umas 10 a 15 vezes;depois, vire o barbeador e repita o movimento mais 10-15 vezes, empurrando-o de cima para baixo.
Isto é importante: não é para “barbear” a calça! O movimento é sempre de empurrar o barbeador, nunca de puxar: as lâminas precisam deslizar sobre a superfície do jeans sem cortá-lo. Você não precisa apertar muito forte a lâmina na calça, mas é necessário um pouco de pressão.
Por que é preciso deslizar o barbeador nos dois sentidos da calça? É que os fios do jeans ficam em diagonal, então esta técnica permite afiar a borda da lâmina de uma forma mais eficaz.
Os fios do jeans não só corrigem eventuais dobras nas lâminas, como afiam o cartucho do seu barbeador. Caso sua lâmina já esteja cega, você pode deslizá-la 50 a 100 vezes nas duas direções para deixá-la quase nova; para mantê-la afiada depois, bastam 10 a 15 vezes. Claro, o método não faz milagres, já que ele só afia um dos lados da lâmina – mas não custa tentar.
Uma dica: ao invés de sempre pegar um jeans para fazer isso, corte uma parte de uma calça velha e guarde-a na mesma gaveta do seu barbeador. Nos últimos oito meses, consegui afiar um barbeador Gillette com o mesmo pedaço de jeans.
hugo1
17 de maio de 2014 6:23 pmÁgua diminui, represa
Água diminui, represa sobe
Fernando Reinach – O Estado de S. Paulo
Para não ficar cantando durante o banho, verifico antes como anda o Cantareira. Na quinta-feira, 15, restavam 8,2% do volume útil. Suspiro e banho rápido.
Nesta sexta-feira, 16, repeti minha rotina. Levei um susto. O Sistema Cantareira estava com 26,7%. Como o volume de água no reservatório poderia ter aumentado 18% em uma noite? Curioso, entrei no Diário do Sistema Cantareira, no site da Sabesp. Informava que havia começado o bombeamento do “volume morto” (quantidade de água que fica no fundo da represa) do Sistema Cantareira. O texto dizia: “Com isso, o nível do Sistema Cantareira será acrescido de 182,5 bilhões de litros de água, o que fará com que o nível suba 18,5% a partir desta sexta-feira”.
Se não estivesse acompanhado essa enorme crise ambiental que assola São Paulo, teria tomado um banho longo e despreocupado, afinal o Cantareira estava salvo! Mas não se engane: os 26,7% são uma ilusão retórica.
O que aconteceu foi que, com o começo do funcionamento das bombas, a quantidade de água disponível para ser vendida em São Paulo realmente aumentou. Estamos sugando o fundo da represa, o chamado “volume morto” ou, como prefere a Sabesp, a “reserva técnica”. Na lógica do marketing, se esse volume passou a ficar disponível, porque não somá-lo ao nível da represa? Parece simples. Talvez seja purismo, mas, na minha opinião, essa soma é uma forma de desonestidade intelectual que prejudica a compreensão da crise que estamos vivendo.
O discurso honesto seria dizer que o Sistema Cantareira está no limite de sua capacidade e que sua maior represa, responsável por 83% do volume, está com somente 1,7% de sua capacidade útil. Quando a capacidade útil chega a zero, o sistema deixa de ser capaz de fornecer água para São Paulo.
O Sistema Cantareira abastece de água quase 9 milhões de pessoas. Se ele deixar de levar água para São Paulo, boa parte dessas pessoas não terá água em suas casas. Felizmente, parte dessas residências pode ser abastecida por outras represas, mas metade delas não pode ser abastecida de outra maneira e teria de receber água de caminhão-pipa ou ser desocupada.
Dada a seriedade do problema foi decidido instalar uma série de bombas capazes de coletar parte do “volume morto”. Esse é o volume de água que garante a recuperação da represa e sua sobrevivência no longo prazo. Essa decisão foi inevitável e vai garantir o abastecimento por alguns meses, talvez até o inicio do próximo período de chuva. Mas é importante dizer que essa decisão envolve riscos. Se gastarmos a maior parte do “volume morto” durante este ano e não chover no final do ano, talvez não exista sequer água para organizar um racionamento em 2015. Além disso, a retirada dessa água vai dificultar, atrasar ou mesmo impedir a recuperação do Sistema Cantareira.
Mas discurso honesto é difícil.
Para entender o problema, é preciso saber que quando uma represa é projetada, é praxe não colocar o túnel que capta a água no ponto mais profundo da represa. Isso garante a existência de um volume que nunca é retirado, o que permite a recuperação do reservatório. É o “volume morto”. Além disso, os engenheiros definem um mínimo operacional, abaixo do qual é recomendável reduzir drasticamente a retirada de água de modo que o reservatório possa cumprir sua função por mais tempo. Quando o Sistema Cantareira foi construído, o nível mínimo operacional foi definido em 829 metros (é o número de metros acima do nível do mar em que se encontra a superfície da água) e o “volume morto” começava aos 820,8 metros.
Como eu descrevi no artigo da semana passada, durante a seca de 2004, o reservatório ficou abaixo de 829 metros, e os governos estadual e federal decidiram redefinir o nível do volume mínimo, que passou a ser igual ao início do volume morto (820,8 metros). Naquela época foi usado o mesmo truque retórico. Da noite para o dia, o volume do Sistema Cantareira “cresceu” quase 20%. O equivalente aos 8 metros entre 829 e 820,8. Foi a primeira vez que o Cantareira “subiu” de nível sem que entrasse uma gota de água. Agora chegamos nos 820 metros, e foi necessário instalar as bombas. E, com elas, o “nível” cresceu novamente. A água diminui, mas a represa sobe.
Como disse Ésquilo: “A primeira vítima de uma guerra é a verdade”.
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,agua-diminui-represa-sobe,1167674,0.htm