Como a elite paulista tratava os rolês em 1947

Sugerido por Florestan Fernandes Jr

(OESP – 16/ABRIL/1947 – p. 5)  NEGROS DO BRASIL – Paulo Duarte

Começa a surgir no Brasil, com todo horror que o caso encerra, um problema que, por não existir, era o capítulo mais humano talvez da nossa história social: o problema do negro. 0 curioso porém é que aparece agora não criado ou agravado pelo branco, mas por uma prevenção agressiva que se estabelece da parte do negro contra o branco. É mais um legítimo fruto podre entre tantos com que nos aquinhoou a ditadura.

De uma maneira geral, o negro no Brasil nunca chegou a receber sequer a instrução primária. Nas grandes  cidades, consoante observações e pesquisas já realizadas, embora muito defeituosas, a porcentagem maior, em  média, de analfabetos, encontra-se entre os negros. Por esse motivo e mais ainda pela vida miserável que  sempre levou, minado, como todas as classes desprotegidas, pelas endemias patológicas ou sociais, como o  alcool, a miséria e a fome, a sífilis e a tuberculose, o negro brasileiro nunca chegou a libertar completamente os  recalques da escravatura, comunicados, de geração em geração, não biologicamente, está claro, mas  sociologicamente, isto é, pela transmissão oral ou escrita robustecida por um ou outro caso isolado, como a  confirmar a legenda de ódio deixada através de unia tradição, em parte falsa, da crueldade dos feitores, dos  horrores da senzala e dos castigos aos escravos. Havia porém uma sanção social e esta nem só evitava a  explosão violenta desses recalques mas ainda contribuía para o esmorecimento das prevenções que se  atenuaram muitíssimo de 1889 para cá.

0 Estado Novo, porém, destruiu a disciplina social. A policia moral desapareceu ante a reincidência dos crimes  impunes, dos abusos de toda sorte, cujos exemplos mais repulsivos partiam exatamente das classes mais altas da  política e da administração das camadas que tinham o poder nas mãos. A policia administrativa abandonou os  métodos científicos de repressão ao crime e passou a especializar-se na tarefà miserável de perseguir, torturar e  até assassinar aqueles que pudessem, de qualquer forma, perturbar o sono dos dirigentes. 0 poder discricionário,  nas mãos dos insensatos, dos menos educados, dos menos preparados para dirigir ou mandar, fez o resto. Hoje o  espetáculo de desorganização e anarquia é completo, pois continuam a mandar e a dirigir os mesmos incapazes  do Estado Novo que, mercê de unia demagogia que os resíduos ditatoriais permitiram, foram elevados ao poder  por uma massa senão corrompida, moralmente, pela enfermidade social, pelo menos desorientada ao mais alto  grau, perdida a capacidade de raciocinar, num clima ande era proibido pensar, onde o analfabetismo continuou  na sua faina de obscurecimento e o rádio, principalmente, o rádio que é o jornal dos analfabetos, derramava  todos os dias o veneno tenebroso da baixa literatura política nos espíritos obscurecidos das massas brasileiras.

Postos ao chão os instrumentos da ditadura, esse tóxico não está e muito tempo levará ainda para ser eliminado.  Nessas condições o que, com o restabelecimento do regime legal, essas massas adquiriram não foi a liberdade,  foi a licença. Porque desapareceu a polícia política que reprimia a manifestação do pensamento, mas o atraso  perdura, sem a polícia administrativa, agora anulada ou desorganizada, para cobrir as manifestações da falta de  educação que aparece em tudo, para estancar o vício através do jogo clandestino, da pinga, das perversões de  toda espécie, para sofrear o crime animado das más condições econômicas e da impunidade que se adquire até  com um simples cartão onde se leia “víva Adhemar” ou viva quaisquer desses ademares espalhados pelo Brasil  inteiro e que consubstanciam ainda o espírito ditatorial na sua mais refinada expressão.

Ora, as consequências dessa situação de verdadeira delinquência social teriam que atingir evidentemente as  classes mais miseráveis. E, destas, a mais miserável entre nós, a mais desprotegida e abandonada mesmo pela  sua posição marginal, é aquela constituída pela gente de cor. A população da favela, do cortiço ou dos  mocambos do Brasil constitui-se de uma maioria esmagante de negros e mestiços. A tuberculose, o alcoolismo  e a sífilis fazem roça sobre ela. Nos bairros da miséria, as habitações mais sórdidas são as ocupadas por ela.  Para cultivar todas essas mazelas que o pai dos pobres viu apenas para agravá-las, há ainda os preconceitos de cor que, apesar dos teóricos otimistas, na realidade nunca desapareceram completamente do Brasil.  Preconceitos talvez peculiares ao nosso meio, mas reais, palpáveis e que aí perduram.

Não possuímos, evidentemente, o preconceito “social”, que inferniza a vida do negro dos Estados Unidos, mas  possuímos ainda, embora muito atenuado, o preconceito “pessoal” que inferniza a vida, senão de todos, mas de  muitos negros brasileiros, pelo menos do negro educado, que constitui entre nós uma minoria ínfima. 0  preconceito social norte-americano faz que, nos Estados Unidos, aquele tenha uma gota de sangue negro seja  considerado negro e relegado para os harlems, os bairros destinados exclusivamente aos negros, impedidos, a  grosso modo, de frequentar quaisquer estabelecimentos de branco, como hotéis, casas de diversões e até igrejas  e veículos de transporte coletivo. No Brasil, a inexistência. desse preconceito permite seja bastante possuir-se  uma gota de sangue branco para ser branco, e faculta ao negro a possibilidade a todo e qualquer lugar ou função  altos sejam eles. Qualquer posto, sem exceção, pode-se afirmar, com segurança, pois algumas restrições  existentes como o acesso a determinados títulos da Marinha ou da diplomacia, isso se justifica perfeitamente  pela existência do preconceito não no Brasil, mas nos países com os quais são obrigados a manter contato  assíduo ou onde tais funcionários exercem as suas funções.

Nos Estados Unidos, não há a repugnância fisiológica do branco em relação ao negro. Os mestiços são a grande  maioria senão a unanimidade da sua população de cor. 0 negro norteamericano não é mais negro puro, e isso se  nota pelos inúmeros caracteres raciais ou antropológicos, como a braquicefalia em muitos, a calvície, a cor da  pele, a forma dos cabelos, o prognatismo atenuado, etc. Quer dizer, de um modo geral, que o branco não repele  o negro nem para os seus mais íntimos contatos, não há o preconceito “individual” portanto. Mas ai do branco  que se casar com um preto! Pois não é este que passará para a classe daquele, mas o branco que ficará relegado  à condição do negro: o preconceito social, o mais rígido, o mais injusto, o mais desumano. Entre nós, a  sociedade, mais compreensiva, não repele de modo algum o negro que se casou com o branco, ao contrário,  recebe-o, acolhe-o, o negro se sente em casa. 0 que há é o preconceito “individual”: o branco em geral, quando  não quer casar-se com o negro não o faz coagido por uma prevenção que lhe tenha vindo de fatores sociais, de  educação, de mutação; fálo por uma repulsa individual exclusivamente. A sanção social para os que o fazem  não se manifesta, ou se se manifesta isso só em casos tão raros que se podem chamar excepcionais. Uma mulher  branca que se casou com um negro, muitas vezes rompe com a sua família mas a maioria das vezes não rompe  com o grupo a que pertence. Ora, esse preconceito é muito menos cruel do que o outro e é por isso que  chegamos sempre a afirmar, superficialmente embora, que no Brasil não existem preconceitos contra o negro.  Se, muitas vezes, num momento de raiva, o branco emprega pejorativamente os vocábulos “negro” ou “mulato”  (negro atôa, mulato safado), com frequência ainda maior, usa as mesmas palavras como expressão de carinho:  minha negra, mulatínha, etc. Até o folclore, que é a expressão mais estilizada da alma popular, nos oferece  exemplos numerosos disso.

Esse é ainda o sentimento dominante hoje, mas vai-se tomando unilateral pois ele só demonstra tendência de  permanecer da parte do branco em relação ao preto. Porque os homens de cor do Brasil, estes denunciam já o  pendor de construir uma muralha que o separe do branco e o pior é que é uma muralha de ódio. Essa inclinação,  nota-se há muito, mesmo antes da ditadura, mas isso que era apenas embrião de sentimento, há dez ou quinze  anos, tendência fácil de destruir-se, hoje, mercê da calamidade que se abateu sobre o Brasil, em 1937,  cristaliza-se rapidamente num verdadeiro e gravíssimo problema social.

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De fato, nos Estados Unidos, o negro faz tudo para que desapareçam as diferenças entre brancos e pretos. Os  negros dão tudo por misturar-se aos brancos, frequentar as mesmas escolas, andar nos mesmos veículos em  qualquer banco ou vagão, ir as mesmas igrejas e ter o direito de conseguir os mesmos empregos. Durante a  guerra, foi uma luta terrível para que os negros se conformassem com a separação nas organizações militares. Porque o soldado branco não podia admitir o soldado preto no mesmo pelotão ou na mesma companhia ou até  frequentando, nas horas de folga, os mesmos cassinos militares.

Essa repugnância nota-se até entre os moços universitários, que são em toda parte os núcleos humanos mais  generosos. Numa universidade norte-americana em que eu dava um curso, tive um aluno negro. Por sinal era  um dos melhores alunos, já como aplicação, já como inteligência. Só pôde permanecer na turma durante menos  de um mês. Nas universidades norteamericanas, em muitas delas, os garçãos [sic] do restaurante universitário,  os quarteiros dos dormitórios são cargos exercidos por estudantes pobres. A turma dos meus alunos tolerou má  cara esse colega negro, nas mesmas aulas, mas os quarteiros e os copeiros negaram-se a arranjar a cama ou a  servir o estudante negro e, como todos os estudantes viviam juntos, três ou quatro no mesmo quarto, nenhum  admitiu o negro por companheiro. E este teve que abandonar os estudos. Só nas universidades negras haveria  lugar para esse simpaticissinio e excelente estudante negro.

No Brasil está acontecendo o contrário: o negro aparenta o desejo de separar-se do branco. Já na revolução de  1932, fizeram eles questão de um batalhão negro; nas suas sociedades negras só excepcionalmente pode entrar  um branco e é comum a gente estar ouvindo organizações artificiais e sem a menor justificativa, como frentes  negras, legiões negras etc. E o curioso é que, ao contrário do que se vê nos Estados Unidos, o negro não gosta  de ser chamado negro. Até em fórmulas a serem preenchidas, onde se exigem certas declarações, aliás  estúpidas, como a de religião, de cor etc., muitas vezes mestiços escuros e mesmo negros ou preenchem esses  espaços com a palavra “branco” ou o deixam em branco.

Mas tudo isso foi tomando corpo, para hoje se transformar em quase repulsa do negro contra o branco. Nos  Estados Unidos são os brancos que lincham os negros, aqui o que se começa a ver é o negro agredir o branco,  sem o menor motivo, levado apenas pelo ódio de um preconceito que principia a criar raizes também negras.  Quer dizer que, sem os mesmos motivos existentes na república do norte, se cria entre nós a hostilidade contra o  branco que acabará provocando, por sua vez, como já vai acontecendo, a hostilidade do branco contra o negro,  estado de espírito que pela sua profundidade, foi o que mais me chocou nos anos em que vive naquele país.

Mas não só o desleixo criminoso e incompetente e a inconsciência da ditadura as causas do surgimento em  nosso país desse aspecto odioso da vida social que ai desaparecendo paulatinamente de nosso meio. Contribuiu  para isso também essa pequena sociologia do nordeste que procura impor como verdade científica, o  romantismo mestiço de que o tipo característico do brasileiro é o mulato.

Isso ficaria muito bem não na boca dos homens cultos, mas na cabeça dos ignorantes, ou no devaneio de alguns  poetas sentimentais ou doentios, ou na de observadores superficiais, mas despidos de qualquer tintura científica.  Houve um momento em que esses patriotas enternecidos quiseram dar ao Brasil as feições, a forma e a alma do  índio. Para isso inventaram um índio limpo, inteligente, dotado de todas as qualidades morais, altivo, corajoso e  generoso, um índio inexistente. Assim Peri ou Guaraicá ou Poti, vieram para as páginas dos poetas ou dos  sociólogos literários. Mas desapareceram logo na fumaça com que foram modelados.

Hoje, alguns romancistas que passaram a girar em tomo da sociologia do sr. Gilberto Freire, agradável pela  leveza, muitas vezes real, mas em muitos pontos colorida de fantasia, pretendem impor um tipo brasileiro negro  ou mulato como a único legítimo tipo brasileiro. Algumas das conclusões do sr. Gilberto Freire não puderam  vestir-se da imparcialidade absoluta, da objetividade a mais pura que deve presidir à estrutura de qualquer  conclusão sociológica. Foi quando com observações realizadas, conscienciosamente, embora, em uma  determinada parte do noite do Brasil, aquele ilustre sociólogo tirou uma conclusão para todo o Brasil. Assim, o  brilhante escritor obriga a sua doutrina a catar por todo o território nacional uma farta messe de gens africanos que foi ele encontrar nas suas observações verdadeiras bastante exatas, mas que só podem atribuir-se a uma  pequena parte do Brasil. 0 assunto estende-se ainda, voltaremos a ele amanhã.

(OESP – 17/ABRIL/1947 – p. 6)  NEGROS DO BRASIL – Paulo Duarte

Falavamos pois do equívoco de Gilberto Freire que, firmado em observações realizadas em documentos  sociológicos do Nordeste, tirava a conclusão de que o tipo, o verdadeiro e único tipo brasileiro era o mestiço, ou  melhor o mulato, uma mistura étnica enfim de cujo produto, pela cor da pele e outros característicos, se  denunciava logo a intervenção do elemento africano.

Discordavamos daquelas conclusões, salientando a sua influência no mal entendido, oriundo de muitas causas, e  que se acentua hoje entre brancos e negros do Brasil, mal entendido a traduzir-se numa hostilidade cada vez  mais acentuada do negro contra o branco. Discordando dessas conclusões, íamos a pique de negar mesmo a  possibilidade de estabelecer-se nos tempos atuais um tipo padrão que pudesse ser cientificamente aceito como o  mais representativo do homem do Brasil, em plena atividade da mais variada miscigenação.

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Quanto ao negro, macroscopicamente até, denunciava-se a pouca solidez da conclusão. Parcela étnica com  maior importância em alguns pontos do norte, vem diminuindo de intensidade para o sul, rareando  gradualmente, quanto mais se caminha nessa direção, até desaparecer por completo nos Estados meridionais do  Brasil. Os documentos confirmam cada vez mais a observação feita pela antropologia fisica. E se isso se dá com  o negro, diferenças semelhantes registram-se com outros componentes humanos da nossa formação étnica, a  partir do índio, para terminar com o italiano em São Paulo ou o alemão em Santa Catarina. E, no entanto, tanto  o nortista ou o nordestino, qualquer seja ele, como o mineiro ou o paulista, quaisquer sejam eles, filho de  italiano, ou filho de alemão, de sírio ou de espanhol, são brasileiros tão legítimos como o mulato minoritário,  seja ele do norte, do centro, ou mais do sul. Na realidade o tipo antropológico brasileiro não existe e, se se  quisesse impor algum como o único legítimo, esse não seria de forma alguma nem o mulato nem o curiboca,  seria o tipo moreno, o tipo ibérico, mais chegado ao Mediterrâneo europeu do que à Ásia ou à África. Na  realidade, porém, é bom repetir, esse tipo não existe hoje e muitos séculos decorrerão ainda antes de existir.  Porque o Brasil, como toda a América, continua ainda neste momento, o que era já há cerca de algumas dezenas  de mil anos: um continente de imigração. Essa única verdade científica está mesmo já gravada nos mapas de  todos os institutos onde se investigam, pesquisam e estudam as ciências do Homem.

Além disso, o tipo mulato, como o mais representativo brasileiro, não é verdadeiro nem para o nordeste. Apesar  da abundância maior do elemento negro para o norte – fenômeno muito natural que não tem nada de deprimente,  pois é a verdade histórica a confirmar o fato social: a abundante imigração negra iniciada para ali já no século  XVI,- o tipo nortista ou nordestino aproxima-se na verdade muito mais do índio do que do negro; a cor da pele,  a braquicefalia, a forma do cabelo, e dos olhos, saliência dos pornulos, lembram mais o asiático do que o  africano. E esse é um tipo tão ou mais comum ainda entre os caboclos ou a população em geral do nordeste do  que o verdadeiro mulato que é tipo de uma parte dos brasileiros como é de uma parte dos norte-americanos ou  de qualquer país onde a imigração negra se fez com mais ou menos intensidade. 0 que pode prevalecer para a  fantasia dos poetas e romancistas, não pode entretanto apresentar o menor valor sociológico. Aliás, no mundo  inteiro, quem hoje ousará definir o tipo de qualquer nação, fenômeno sociológico, quando estão todos os povos  do mundo absolutamente entrelaçados pelas mais diferentes raças, palavra que exprime um fenômeno no  zoológico? Um francês, como um alemão ou um inglês, ou um espanhol, os mais genuínos, tanto podem ser  loiros como morenos, braquicefalos ou dolicefalos, altos ou baixos. Um francês pode ter até estigmas amarelos,  pois alguns caracteres mongolóides são comuníssimos no centro da França, onde, no Paleolítico Superior, viveu  uma raça chamada pela prehistória de Laugerie-Chancelade. Da mesma forma, um japonês não significa tipo mongol, porque há japoneses de raça perfeitamente branca, como os ainós como há negros asiáticos, e por aí  além.

Ora, o Brasil tem capacidade para uma população talvez 10 vezes maior do que a atual e até lá as correntes  imigratórias virão modificar incessantemente o tipo do brasileiro que, se existir algum dia, perfeitamente  fixado, existirá daqui a alguns milhares de anos apenas. E um pouco prematuro pois procurar definir o tipo  brasileiro através não só de caracteres morais e culturais mas ainda e com menos razões, através de caracteres  fisicos, peculiares a uma parcela da população apenas, uns e outros, suscetíveis de modificações mais ou menos  profundas.

Uma coisa porém existe e existirá com absoluta nitidez: a deliberação marcada pelo consenso unânime dos  brasileiros lúcidos: o Brasil quer ser um país branco e não um país negro. Não vem aqui agora o estudo ou a  pesquisa destinada a saber se o negro é intelectual ou moralmente inferior ao branco, ou ao índio, se o branco  ou o índio são menos primitivos ou mais adiantados do que o negro. 0 que prevalece é a decisão brasileira de  ser um país branco e mais nada. E este propósito, sólido, inabalável, existe, é a realidade. Ora, assim sendo, há  duas maneiras, para os países brancos, que receberam um contingente grande de negros, de conservarem-se  brancos. Ou têm que adotar o método cruel e desumano, sociologicamente mais perigoso, da segregação  completa dos negros, meio escolhido pelos Estados Unidos ou o método, embora mais lento, preferido pelos  latinos, em geral, mais humano, mais inteligente, embora moralmente mais perigoso durante o período de  transição, isto é, a fase mais ou menos prolongada, da eliminação do elemento negro pela miscigenação.

Nos escolhemos o segundo, sem nunca, entretanto, perder de vista que queremos ser um país branco. A  intensificação imigratória de correntes brancas, de preferência a mediterrânea, fará que se chegue a esse  resultado, ora em adiantado processo. Os livros de Debret ou Rugendas e outros documentos iconográficos ou  apenas escritos mostram-nos que a Bahia e o Rio de Janeiro, há apenas um século eram cidades quase negras;  hoje são quase completamente brancas. Consequência da determinação, da orientação bem definida tomada,  conscientemente ou inconscientemente, pelo Brasil. O branco é que vai absorver o negro e não o negro, que, no  futuro, tenha que prevalecer sobre o branco. Não vai nisso nenhum desprezo pelo negro, nem desprezo coletivo  da parte da maioria branca, do povo brasileiro, nem pessoal do alínhavador destas linhas. É decisão expressa de  um país em pleno processo de evolução e desenvolvimento, propósito coletivo que a investigação e os  documentos sociológicos permitem hoje seja afirmado com certeza absoluta.

A sociologia nigro-romântica do Nordeste, entretanto, foi mais desvirtuada ainda nos seus pequenos  escorregões iniciais pelos que passaram a constituir o grupo dos sociólogos romancistas ou dos romancistas  sociólogos tidos como alunos do sr. Gilberto Freire; rapazes alguns de talento, sem possuir, no entanto, do  mestre nem a cultura nem a análise aguda deformada apenas pela sua irreprimível. imaginação tropical cheia de  brilho. Essa sociologia folheada de ouro pela languida fantasia mestiça persiste pois em pintar um tipo  brasileiro definitivo, como se pudesse haver tipo definitivo de aglomerados humanos, em pleno processo de  cruzamento. E o mais curioso, é que esse tipo escolhido foi justamente um dos que menos poderiam representar  o brasileiro atual. Basta correr uma galeria dos espécimes brasileiros mais típicos: a expressão normal do  caboclo não é mais mongolóide ou mediterrânea do que negróide; o homem do povo citadino, de Belém, de São  Luis, do Recife, da Bahia, de São Paulo, do Rio, do Belo Horizonte, de Florianópolis ou de Porto Alegre é  muito mais mongolóide ou europeu do que africano. Não há talvez nenhuma cidade do Brasil, onde a população  negra ou mulata seja superior à branca.

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Ora, aquele lirismo sociológico aliado à quebra de disciplina social permitindo a confusão e o fermento que se  nota hoje entre as classes menos esclarecidas, levou ao negro analfabeto a convicção de que ele é o verdadeiro  brasileiro, o “brasileiro legítimo”, para empregar uma expressão que vive na boca dessa pobre gente obscurecida mais pela ignorância do que pela cor da pele, provocando esse desequilíbrio social que hoje  notamos principalmente nas grandes cidades, para onde afluiu o negro atraído pelos salários altos da indústria,  durante a guerra ou centrifugados do interior pela miséria do operario rural que não foi alcançado pelas  benemerências protetoras do “trabalhismo” demagógico do Estado Novo.

Deposto o ditador, a palavra liberdade envolveu as massas como uma atmosfera dentro da qual tudo pudesse ser  feito, sem o menor freio ou restrição. Os recalques explodiram e, entre nós, temos assistido a essas repetidas  cenas deprimentes da concentração de negros agressivos contra o branco ou a agressão individual contra  pacatos transeuntes que não são negros. Há pouco tempo, em plena praça do Patriarca, um negro agrediu a  socos uma senhora sob o pretexto de que esta o olhava mais insistentemente. Vários incidentes em ônibus ou  em filas têm-se verificado também; em todos eles, os negros são os agressores e os brancos as vítimas.

Os comícios de todas as noites na praça do Patriarca e as concentrações também à noite de negros agressivos ou  embriagados na rua Direita e na praça da Sé, os botequins do centro onde os negros se embriagam, já estão  provocando protestos, justíssimos protestos, até pela imprensa, pois não é possível uma cidade como São Paulo  ficar à mercê de hordas grosseiras e malcriadas, prontas a se desencadearem contra qualquer branco, homem ou  mulher, desde que um gesto involuntário, um olhar mesmo, possa ser mal interpretado por esses grupos brutais  e violentos. Já as ~ias evitam passar depois das nove horas da noite por esses pontos que se acham, para  vergonha nossa na parte mais central da civilizada capital do Estado que se tem pelo mais culto do Brasil. Não é  difícil de prever as consequências. 0 alheiamento da polícia anima os desordeiros, os brancos vão fugindo do  local e, amanhã, ante a imutável indiferença do poder público, veremos, fatalmente, após um incidente mais  grave, a organização de grupos punitivos que em si levarão, como acontece todas as vezes em que se procura  fazer justiça pelas próprias mãos, as violências e as lamentáveis consequências de acontecimentos dessa  espécie. Foi assim que surgiu nos Estados Unidos essa sociedade que se chama Klu-Klux-Klan, que é hoje uma  vergonha para um país civilizado, mas nasceu e nasceu imposta pela necessidade dos brancos se defenderem  ante os excessos da população negra desenfreada logo após a vitória dos exércitos do norte, pondo termo à  guerra da Secessão. 0 resultado foi que, devido principalmente a esses abusos, não reprimidos, se redobrou a  prevenção contra o negro e esse até hoje continua a viver a vida de cachorro que tem nos Estados Unidos, de  uma maneira geral.

Que não prepare para o Brasil um futuro igual. Que não se percam os esforços de três séculos temperados pelos  sentimentos humanos que caracterizam os povos latinos, mercê dos quais; pudemos viver durante tanto tempo  sem o ambiente intolerável do ódio ou do desprezo do branco contra o preto. Devido a erros iguais ou maiores,  não podemos retrogradar agora, em meio de perigo pior que é a desorientação da população negra, que,  abandonada na sua miséria física e moral, começa a constituir uma ameaça para o branco, criando situação  inversa daquela que se podia esperar, isto é, o preconceito do negro contra o branco, absolutamente pacífico e  cordial em face de seu compatriota de cor.

A mudança que se tem operado entre nós é um indício terrível. Desapareceu, pelos menos das cidades, aquele  tipo tradicional de negro bom. Cada um de nós da geração de antes da primeira gerra, guarda na lembrança a  memória agradável das velhas empregadas negras tidas como pessoas da família e que, com o mesmo carinho, a  mesma amizade e dedicação, substituíram as mucamas, do tempo da escravatura que os nossos pais viram e nós  conhecemos. Hoje isso desapareceu. As empregadas de servir, em geral, e as de cor em particular, são ingratas,  descabidamente exigentes, vadias, pouco asseadas, grosseiras e agressivas. E quase sempre os negros são piores  do que os brancos. É verdade que a culpa de tudo isso não cabe ao negro, cabe ao branco, porque as classes  dirigentes se constituem exclusivamente de brancos. E essas classes dirigentes hoje se caracterizam pela  incapacidade, pela incompetência e pela falta de idoneidade. Elas não se pejam mesmo de explorar o negro para  as suas demagogias idiotas, como ainda se viu na última campanha eleitoral, onde negras analfabetas eram levadas aos microfones do rádio – esse rádio que com a sua primariedade, acabará por imbecilizar todo o Brasil,  e para cuja repressão ou regulamentação não há nem leis nem polícia nem energia – para aclamar o cabecilha  cínico que se apelidou a si mesmo de pai dos pobres, ou os pequenos aventureiros alguns dos quais mercê  mesmo do atraso dessa pobre gente, conseguiram abocanhar os postos mais altos da administração.

Oxalá não sejam as terríveis consequências das tragédias já desencadeadas os únicos argumentos capazes de  convencer o país da necessidade de uma ação enérgica e imediata. Por enquanto a solução do problema se reduz  apenas a um pouco de polícia, um pouco de compreensão e um pouco de educação. Dentro em breve, será o  irremediável e esse irremediável se manifestará da maneira pior que se podia prever. Manifestar-se-á pelo ódio  a separar completamente dois grupos de brasileiros e, pior ainda a separá-los pelas violências, crueldades e  castigos que recairão menos sobre os culpados verdadeiros que permitiram o advento de tal situação, do que  sobre esses negros desembestados, menos criminosos na realidade do que os primeiros, pela sua incompreensão  e inconsciência.

Muito mais agradável continuar-se a usar essa expressão natural: negros do Brasil do que quando a eles por  qualquer motivo alguém se referir ter à boca essa outra expressão que já vai ficando mais frequente do que  devia: a negrada.

   
 

 

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6 comentários

  1. Rolezinho, uma bola de

    Rolezinho, uma bola de neve.

    Os bárbaros chegaram?Como coopta-los?

    Pegou  a elite com calça na mão, teses, teses , para aqueles

    que sonhavam com o mesmo tipo de “coxo-manifestaçãoes de junho passado

    desestabilização e etc..a casa caiu, e agora? Balas de borracha? Classe média?

  2. Isso aí foi ontem à tarde

    1947? Isso foi ontem à tarde, em termos históricos. Para começo de conversa, apenas 14 anos antes de eu nascer. Essa linha de pensamento, digamos assim, está vivíssima, como vemos exemplos todos os dias, a começar por certos comentaristas deste blogue.

  3. Como a elite paulista tratava os rolês em 1947

    o negro brasileiro tem mais q ultrajar o branco, sim, para q este mantenha distância prudente, senão crescerá para cima do elemento “minoritário”, e, para além das necessárias e urgentes ações afirmativas, as minorias desse país devem dar esse chega pra lá nessas elites q nem sabem q continente habitam, pois este “cuspir o lixo d volta em cima d vocês” traz, acredito, uma maior disseminação da consciência d nossa latinidade q essas elites, detentoras das concessões midiáticas, insistem em negar para a manutenção d um poder arcaico, rançoso nesse nosso país d caráter quase insular.

  4. sério mesmo ….

    Em três ocasiões fiqyeu estarrecido, cito abaixo:

    Não há talvez nenhuma cidade do Brasil, onde a população  negra ou mulata seja superior à branca.

    Foi assim que surgiu nos Estados Unidos essa sociedade que se chama Klu-Klux-Klan, que é hoje uma  vergonha para um país civilizado, mas nasceu e nasceu imposta pela necessidade dos brancos se defenderem  ante os excessos da população negra desenfreada logo após a vitória dos exércitos do norte, pondo termo à  guerra da Secessão

    Desapareceu, pelos menos das cidades, aquele  tipo tradicional de negro bom. Cada um de nós da geração de antes da primeira gerra, guarda na lembrança a  memória agradável das velhas empregadas negras tidas como pessoas da família e que, com o mesmo carinho, a  mesma amizade e dedicação, substituíram as mucamas, do tempo da escravatura que os nossos pais viram e nós  conhecemos. Hoje isso desapareceu. As empregadas de servir, em geral, e as de cor em particular, são ingratas,  descabidamente exigentes, vadias, pouco asseadas, grosseiras e agressivas. E quase sempre os negros são piores  do que os brancos.

    Acredito na discussão de idéias, acredito que todos devam ter voz, mas acredito também que cada um seja julgado pelo ridículo que escreve.

    sem mais

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