Como entender a capilaridade do bolsonarismo, comentário de Alexandre

A elite já possui sua rede formada, é preciso ver que também se utiliza hoje dos mesmos mecanismos de ajuda, frequentam igrejas mais sofisticadas

Por Alexandre
comentário no post Xadrez de como Bolsonaro herdou a rede neopentecostal de Eduardo Cunha, por Luis Nassif

A complexa rede precisa ser compreendida por diversos fatores, um deles é apresentado no xadrez.

O xadrez ajuda a elucidar parte do fenômeno do bolsonarismo, ao cruzar dados entre diversos grupos chega a um ponto comum, algo que unifica o grupo, dando origem a algo novo, no caso chegamos ao bolsonarismo.

Porém, é preciso ir além, entender as fissuras possíveis em cada grupo, pequenas formas de resistências no interior destes grupos e avançar ali também, mas para isso é preciso compreender como se organizam, o que não é muito diferente de outros momentos e outras organizações, partindo de queixas comuns que são compartilhadas em diversos locais por membros dos grupos, não se fabrica isso, se agrupa aos poucos, levando pra um lado ou outro.
Outro ponto interessante é o cruzamento dos membros dos grupos, pois o mesmo sujeito que atira no clube de tiro frequenta a igreja x com o segurança privado que atua num conjunto de pequenos comércios como segurança armado e motorizado. Os membros das forças de segurança habitam residenciais populares na maior parte das cidades, rodeados de pequenas igrejas pentecostais e outras, seus vizinhos às frequentam, seus parentes e amigos do bairro também. Junto com isso temos pequenos comércios que atuam diretamente voltados para este público, negligenciado por muito tempo por grandes redes de varejo que não atendiam as demandas populares, uma rede complexa que une amizade, fidelidade, proteção e precisa de lealdade para que tudo funcione.

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Assim, se encontram na padaria da esquina, nos postos de saúde e upas espalhados pelos bairros, seus filhos frequentam as mesmas escolas do bairro, na porta da escola se encontram para buscar os filhos com medo do retorno e da questão da segurança, abrindo espaço para o debate do medo, da insegurança, da criminalidade, das drogas. Caso precisem de algo nas madrugadas frias, precisam recorrer ao vizinho mais próximo, ao pastor da igreja da esquina que sempre tem algo para oferecer, aos irmãos que se apoiam nas horas mais complexas, uma rede que mantém assim a fidelidade como única forma de sobrevivência.

A elite já possui sua rede formada, é preciso ver que também se utiliza hoje dos mesmos mecanismos de ajuda, frequentam igrejas mais sofisticadas, compram roupas para igreja em lojas modernas, se autoajudam na doença, é comum na maioria das cidades que se agrupem via rede social diversas categorias, que em caso de acidente ou qualquer fatalidade, cada membro da categoria deposita um valor xx, que permite ao infortunado passar pela crise financeira causada pelo acidente, o que nos remete as antigas sociedades mútuas da classe trabalhadora hoje reproduzida pela elite via rede social, e como se opor ao grupo que pode te auxiliar em caso de infortuno, uma rede complexa e quase secreta funciona entre muitas categorias, basta olhar para elas e ver como funcionam e porque o bolsonarismo conseguiu tanto sucesso no meio, mesmo muitos ali discordando de posições defendidas por outros membros, mas a fidelidade, a promessa de ajuda futura fala mais alto.

Ao estudar esta rede complexa, que um dia foi parte da classe trabalhadora, levando a construir tantos mecanismos de resistências no permite compreender como ocorre o fenômeno do bolsonarismo, é preciso compreender isso nas grandes e pequenas cidades. O xadrez lança uma pequena luz sobre tudo isso, mas completado com dados da base da pirâmide permite avançar ainda mais e entender a capilaridade do bolsonarismo. Existe como explica E.P.Thompson outra economia, a economia moral das multidões, é ali que temos que ler, é ali que precisamos compreender como se desenvolve o avanço do bolsonarismo, é um trabalho complexo, exige tempo, e tem sido feito por muita gente na universidade, mas precisa se feito também por nós, por gente de fora, que compreenda tudo isso, é preciso debater isso nos sindicatos, associações, e é preciso fazer como Nassif tem feito, tentar compreender o processo que esta em curso. Que venha outros e outros, o xadrez é essencial para avançar na compreensão.

5 comentários

  1. Ok. Mas esse “estruturalismo” também não explica tudo.
    Essas redes e suas células podem ter seus movimentos inflados ou reprimidos por grandes vetores de força.
    Imaginar que tais sociabilidades sejam a explicação dos movimentos reacionários permanentes inverte perigosamente aquilo que deve ser o foco da luta política.
    O medo, a solidariedade na precariedade são lubrificantes poderosos, mas o combustível dessa queims ainda é o interesse de classe, agora movido a algoritmos no pós capitalismo.

  2. Soma-se ao xadrez pq a adesão aos evangélicos permite o indulto a facções criminosas. qual conexão, acordo, financeiro, social, politica permite esta transição ?

  3. “Porém, é preciso ir além, entender as fissuras possíveis em cada grupo, pequenas formas de resistências no interior destes grupos”
    O extrato de texto destacado acima é muito interessante, pois além de fornecer pistas para deter o avanço deste tumor maligno denominado “bolsonarismo” é um agente capaz de impedir o surgimento de novos aventureiros.
    Afinal, fisicamente o fenômeno capilar poderá ser ascendente ou não, dependendo da resultante entre a Coesão (forca de atração entre as moléculas do líquido) e a Adesão do líquido à superfície do recipiente que o contém. Então, agir nas fissuras dos grupos diminuindo sua força de adesão com o bolsonarismo irá criar uma retração no processo.

    Contudo — sem receio de me tornar repetitivo pois já levantei esta oportunidade outras vezes aqui no blog — vou insistir que o primeiro passo para extirpar o tumor bolsonarista é recuperar naqueles que se abstiveram de votar no ultimo pleito o sentimento que são capazes de, através do voto, restabelecer todas as garantias constitucionais que estão sendo jogadas no esgoto.
    Lembremos que cabe ao Congresso a função legislativa, ou seja, a elaboração das leis que regulam o Estado, e que também é neste Poder se homologam as autoridades judiciárias no país.
    Se não elegemos o PGR e o STF elegemos o Congresso, que precisará ter compromisso com o povo, não com biblia ou bala ou bola, etc.

    “Bora” já começar a mudança nas eleições municipais?

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