A Todo Volume – Três Rebeldes na Guitarra

Por André Nigri
fins da década de 1950, o adolescente inglês Jimmy Page já tocava guitarra, mas não aguentava mais ouvir o som dos jovens de sua geração — o skiffle, um parente do rockabilly com influência de jazz, blues e country. Ele queria algo novo. Nos anos 80, David Howell, também inglês, mas radicado em Dublin, Irlanda, andava inconformado com a violência cometida pelos terroristas e pela polícia em seu país. Ele queria denunciar tudo aquilo. Já em Detroit, nos Estados Unidos, nos anos 90, o garoto Jack White morava em um bairro de negros e latinos onde só se tocavam hip hop e música eletrônica. Ele queria ouvir outra coisa.
No ano passado, o diretor Davis Guggenheim (ganhador de um Oscar em 2007 com o filme Uma Verdade Inconveniente, filmagem das palestras sobre aquecimento global feitas pelo ex-vice-presidente americano Al Gore) reuniu em um estúdio os três inconformados. Jimmy Page, um sessentão, foi o revolucionário guitarrista do Led Zeppelin. David Howell se tornou conhecido pelo apelido The Edge e emprestou sua pegada tecnológica ao grupo U2. O som radical de Jack White pode ser ouvido em diversas bandas, das quais a mais famosa é o White Stripes. O resultado poderá ser visto a partir deste mês em A Todo Volume, um documentário sobre o encontro histórico, focado principalmente na relação apaixonada dos músicos com seu instrumento.
No início do filme, White mostra como é possível fazer uma guitarra com um pedaço de madeira, alguns pregos e uma garrafa de vidro. Pula-se para outra cena, na qual Page compara o instrumento ao corpo de uma mulher, um clichê dispensável. Mas ao longo da obra entra-se na natureza e sentimentos dos três com muita sutileza. Com vários depoimentos e dezenas de cenas históricas magníficas, fica-se sabendo como a guitarra colou-se àquelas vidas como segunda pele. O filme também mapeia as inovações de cada um. Page, por exemplo, conta como criou a lendária guitarra de dois braços para acomodar, ao mesmo tempo, a melodia e o acompanhamento no clássico Stairway to Haven. The Edge também foi revolucionário à sua maneira. Não pelo virtuosismo do domínio do instrumento, mas por sua obsessão por processadores de som digital e o uso de uma vasta parafernália eletrônica para alcançar o “som perfeito”.
O melhor momento, no entanto, é quando os três se juntam e revisitam as próprias composições. São cenas antológicas que ajudam a fazer de A Todo Volume uma raridade. Documentários sobre música são em geral frios e aborrecidos. Este, ao contrário, informa e empolga.
O FILMEA Todo Volume, de Davis Guggenheim. Com Jimmy Page, The Edge e Jack White. Estreia prevista para este mês.
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