Baseio-me no título “É a democracia, estúpido!” e o conteúdo da brilhante análise de Lúcia Guimarães, na Folha, sobre o momento político atual – a partir dos Estados Unidos.
Há uma realidade nova, não percebida pelo campo progressista. Este está preso em uma armadilha e um paradoxo. Em baixa com a opinião pública, e sem discurso, esmera-se em atender às exigências do mercado (no sentido amplo), para não provocar turbulências na economia, que possam erodir mais ainda a sua base.
Amarram-se a esses compromissos, permitem a financeirização de toda atividade econômica, impede-se o gastos público, especialmente o gasto social, demoniza-se toda medida voltada ao bem estar da população. A renda vai ficando cada vez mais concentrada, o mal-estar alastra-se e a direita se vale para apontar os bodes expiatórios: imigrantes, gays, mulheres, artistas.
No seu diuscurso histórico, em Davos, o 1o Ministro do Candá, Mark Carney, foi certeiro:
“Essa lógica foi descrita com precisão por Václav Havel em O Poder dos Sem Poder. Havel mostrou como sistemas opressivos se sustentam menos pela força e mais pela participação cotidiana de pessoas que fingem acreditar em algo que sabem ser falso. Enquanto todos mantêm o cartaz na vitrine, a mentira se preserva. Quando alguém o retira, a estrutura começa a ruir”.
Depois, quando perde as eleições vem com essa bobagem de atribuir ao aumento do preço da comida ou quetais. JK saiu com o maior índice de popularidade da época, enfrentando uma inflação altíssima.
Diz ela:
“Dói notar como ainda predomina, no exercício do jornalismo “mainstream”, a pressuposição de normalidade. Não era preciso esperar a ascensão meteórica de Zohran Mamdani à Prefeitura de Nova York para cobrir o quanto o tema da acessibilidade –hoje repetido em todo o espectro político– é indissociável do exercício do poder político”.
Mamdami assumiu prometendo ônibus gratuitos, congelamento dos aluguéis e mercados públicos com preços controlados.
Lucia menciona o próprio Donald Trump. Na semana passada publicou um decreto proibindo firmas de Wall Setreet de comprarem casa e apartamento, “um investimento predatório que coloca famílias de classe média em concorrência com fundos bilionários”.
Por aqui, transformou-se o mercado de crédito, de direito social para a mais deslavada especulação e corrupção. Chegou-se ao cúmulo de permitir o uso do BPC (Benefício de Prestação Continuada) e do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) como colateral para crédito, com as mais altas taxas de juros do planeta.
Tratei desse tema no artigo “Quando o crédito deixa de servir ao país e passa a servir ao mercado”.
Tome-se o crédito imobiliário, um dos mais controlados.
No Brasil, a taxa média é de 10% a 12% ao ano. Um financiamento de R$ 800 mil por 120 meses de prazo, sairia por R$ 10.900 ao mês. Na França, o mesmo valor sairia por R$ 7.500 e na Itália por R$ 7.800. Sem levar em conta o poder aquisitivo em cada país.
O financiamento de um automóvel de R$ 100 mil, por 36 meses:
No Brasil, a prestação sairia por R$ 3.900 contra R$2.910 na França e R$ 3.060 na Itália.
No período, o brasileiro pagou R$ 40.400 de juros contra R$ 4.760 do francês e R$ 9.940 do italiano.
Comparativo direto
| País | Parcela mensal | Total pago | Juros |
|---|---|---|---|
| 🇧🇷 Brasil | R$ 3.900 | R$ 140.400 | R$ 40.400 |
| 🇫🇷 França | R$ 2.910 | R$ 104.760 | R$ 4.760 |
| 🇮🇹 Itália | R$ 3.040 | R$ 109.440 | R$ 9.440 |
O crédito direto ao consumidor, de um bem de R$ 5.000 em 24 meses
Comparativo direto
| País | Parcela mensal | Total pago | Juros |
| 🇧🇷 Brasil | R$ 363 | R$ 8.700 | R$ 3.700 |
| 🇫🇷 França | R$ 222 | R$ 5.330 | R$ 330 |
| 🇮🇹 Itália | R$ 235 | R$ 5.640 | R$ 640 |
O que faria um Donald Trump diante desses abusos? Tabelaria os juros. Por aqui, é visto como heresia. E nos países civilizados?
- França — limite legal para determinadas modalidades de crédito ao consumidor (ex.: taxas máximas de APR para cartão de crédito ou empréstimos pessoais).
- Itália — regras de teto para juros do crédito ao consumidor, com limites percentuais estabelecidos por lei/regulação.
- Portugal — taxa máxima para crédito ao consumo.
- Polônia — possui teto de juros para crédito ao consumidor.
- Finlândia, Suécia, Holanda — limites em diferentes produtos de crédito.
- Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas, Tailândia — em vários países asiáticos há regulamentação de tetos máximos de juros em crédito ao consumidor.
Um país que privilegiasse a política – ou a democracia, aquela que diz que todo poder emana do povo – criaria estoques reguladores, tabelaria o mercado financeiro (mais fácil de tabelar), criaria formas de tabelar monopólios e oligopólios, trabalharia o passe livre, imporia taxas de importação para commodities agrícolas, para impedir repasse de preços para o mercado interno, conteria a financeirização alucinada, que ataca até benefícios sociais.
Está bem, sonhar não custa nada. É evidente que não há condições políticas, no momento, para políticas dessa ordem. Mas, como bem alerta a brava Lúcia Guimarães, a realidade está mudando. Um dia qualquer, no futuro, aparecerá um Sir Galahad com o Santo Graal, que desvenderá o segredo da Esfinge econômica.
Dada a falta de coluna cervical nas instituições públicas, há o risco concreto de, em um ponto qualquer da história próxima, sir Galahad aparecer na forma de um déspota. A única esperança, se Deus for, de fato!, brasileiro, é que seja um déspota esclarecido – artigo mais raro no país do que partidos políticos modernos ou opinião pública esclarecida.
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emerson57
23 de janeiro de 2026 8:19 amÉ evidente que não há condições políticas, no momento.
Nunca haverá.
O único jeito é o governo preparar um pacotaço, conquistando a adesão do seu partido e ir atrás do apoio popular.
Vai se instalar um tiroteiro direto?
Vai.
Mas se isso não for feito o atual governo perde as eleições.
O próximo governo fará o pacote com sinal trocado, tirando a última gota de sangue do povo pobre.
E continuaremos governados pelo PIG, globo à frente.
LULA Já tem 80. Se ele não fizer agora levará quantos anos para ser forjado outro?
Até lá não restará nenhum BRASIL.
Aaron Schwartz
23 de janeiro de 2026 9:05 amArtigo muito PRECISO,aumentou a minha consciência e me fez evoluir,ai q está venho alertando sobre FINANCEIRIZACAO especulativa há anos,mas Haddad COMPENTETISSIMO em tudo q faz jura q não,q estão incentivando a economia produtiva,se dobram ao mercado e aos ladrões congressistas bolsonaristas reinantes pela governabilidade a troco de alguns benefícios sociais ao povo Nassif não é possível fazer mudanças estruturais no País sem ENFRENTAMENTO real,o sistema é bruto,FHC,Temer e Bolso tocaram o terror no Brasil beneficiando só os GRANDÕES segura a onda Nassifão Lula não tem condições de fazer muita coisa ainda mais q ele faz o jogo da desmobilização do povo em favor dos seus amigos políticos de várias vertentes ,se não houver problemas e miséria aqui pq políticos?É assim q pensam ai fica mais fácil administrar recursos públicos,aqui é a barbárie desde a época da escravidão dos negros !!!
+almeida
23 de janeiro de 2026 9:56 amBoa Nassif! Porém, fique atento e reforça seu escudo protetor, porque prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém. Não falo de temor, mas de estratégia antecipada para possível defesa contra os abutres gananciosos e sem pudor da especulação e da escandalosa e permissiva subtração das finanças públicas e privadas, que nadam a braços largos nos mares da ganância explícita, sob olhares impotentes e indiferentes do poder público.