O presidente em exercício da Espanha, Pedro Sánchez, defendeu nesta quarta-feira (15), em discurso no Congresso, a lei de anistia acordada com os independentistas catalães e apresentou-se como um muro de contenção contra a extrema direita, numa das sessões de investidura mais tensas da história recente de Espanha.
Com o término do debate entre todas as forças parlamentares, nesta quinta-feira (16) os deputados e deputadas votarão se são favoráveis à investidura e recondução de Sánchez à Presidência, na qual se espera, conforme a imprensa espanhola, um resultado de 179 votos a favor e 171 contra.
Se estes números se confirmarem, o candidato do Partido Socialista e Operário da Espanha (PSOE) conseguirá a maioria para formar o governo, algo tentado em setembro pelo vencedor das eleições de julho, o direitista Alberto Nunez Feijóo, do Partido Popular (PP), que teve a investidura negada pelo parlamento.
No seu discurso perante o Congresso, Sánchez, interrompido diversas vezes por protestos de deputados da oposição, o seu primeiro compromisso foi dirigido à situação na Faixa de Gaza. Sánchez exigiu um cessar-fogo de Israel e prometeu “trabalhar na Europa para reconhecer o Estado Palestino”.
Ricos pagarão mais
Em debate muito semelhante ao ocorrido no Brasil, para Sánchez, a respeito da política fiscal, “os ricos têm de pagar mais do que pagaram até agora. Na verdade, enquanto governarmos, eles pagarão mais do que o resto”.
Além disso, defendeu políticas feministas em contraste com as posições da extrema direita: “por cada euro que retirarem contra a luta de gênero, vamos dedicar 10”, disse.
O perigo da extrema direita
Quase metade do seu discurso centrou-se em alertar para o perigo representado pela ascensão das forças de extrema direita, enfatizando o risco de que certas “políticas acabem por minar a própria democracia”.
O presidente em exercício alertou para “as propostas reacionárias que se cristalizam em formações de extrema direita, que questionam a democracia e os direitos humanos” e que desqualificam “a ciência, negam as alterações climáticas, desprezam a cultura e os diferentes, e atacam a causa feminista”.
“Ideias reacionárias que acabam parasitando os partidos tradicionais de direita”, disse. Como exemplo, citou o Partido Republicano nos Estados Unidos (EUA) “colonizado pelo trumpismo”, o Partido Conservador britânico “arrastado pelo Brexit” ou a direita tradicional argentina “oprimida pelo discurso reacionário delirante de [Javier] Milei”.
Diante desta opção, Sánchez colocou as forças progressistas que “não estão dispostas a dar um passo atrás” e que estão comprometidas com “o avanço, a consolidação e a extensão e melhoria das grandes conquistas sociais”.
Destaque para o próprio governo
O candidato socialista destacou as virtudes dos seus cinco anos de governo, como a promoção de maior igualdade dos cidadãos com o aumento das bolsas, do Salário Mínimo Interprofissional (SMI), das pensões, entre outras medidas.
“Enquanto eu for presidente do governo, todas as forças do Estado serão dedicadas à defesa dos valores democráticos e dos direitos e liberdades dos cidadãos. Nem um único retrocesso, nem um passo atrás terá a aprovação do Governo de Espanha”, segurou.
Sánchez traçou as linhas do seu futuro governo de coligação, afirmando que promoverá a renovação, digitalização e inovação do tecido produtivo com a intenção de criar mais e melhores empregos e alcançar uma nova cultura de trabalho que priorize a conciliação.
Anunciou ainda diversas medidas: a prorrogação da redução de impostos na alimentação até junho, o aumento do limite de rendimento para as famílias beneficiadas por medidas de alívio hipotecário e a gratuidade dos transportes públicos para menores, jovens e desempregados.
Sistema de saúde pública
Anunciou ainda a sua intenção de reforçar o sistema de saúde pública para reduzir as listas de espera, reforçar os cuidados primários e expandir o portfólio de serviços, incluindo tratamentos orais e oftalmológicos para menores, bem como saúde mental.
Da mesma forma, falou sobre a implementação de melhorias na área educacional, como a redução das mensalidades universitárias ou a ampliação do auxílio ao refeitório; e nas políticas para os idosos, contemplou o aumento das pensões em linha com a inflação ou o aumento do financiamento à dependência.
Anistia como sistema de reconciliação
A questão mais espinhosa tem sido as negociações para chegar a acordos que lhe permitam revalidar a posição na votação desta quinta-feira (16), se não houver surpresas, e a lei de anistia aos separatistas com mais direitos às comunidades autônomas bascas.
“Optamos pelo caminho do diálogo, do perdão, da compreensão, colocamos a negociação antes da imposição, o reencontro em vez da vingança”, afirmou sobre a futura legislação.
O líder socialista defendeu a legalidade e constitucionalidade da norma que foi apresentada nesta segunda-feira (12) na Mesa do Congresso, lembrando que nos últimos anos vários países europeus aprovaram leis nesse sentido.
Com informações do El País e agência RT
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