“Europa” (1991) – Lars Von Trier e a Alteridade Histórica

Kenny Kendy, do Cinema Cultura

 

Não é raro que Lars Von Trier nos presentei com filmes belos. Nada de novidade nisso. Porém, aqui, destaco em específico o “Europa”. Lançado em 1991, conta com um elenco de ponta: Barbara Sukowa, Jean-Marc, Eddie Constatine e outros (destaquei os meus preferidos).  A ambiência de “Europa” é no ano de 1945, na Alemanha supostamente salvaguardada pelos aliados. O cenário da história desenvolve-se na medida em que os trilhos são pisoteados pela rodas do trem “Zentropa”, e a trama é consolidada entre as idas e vindas de Munique à Frankfurt. O protagonista é o aspirante à condutor chefe, Leopold Kessler, recém chegado de Nova Iorque.

Antes de continuar, recomendo fortemente que assista ao filme, e só então, que prossiga com a leitura. Os spoilers estão presentes nesse texto.  Eis o filme: http://cinemacultura.com/?p=5551

O filme brinca com a  história do pós-guerra nazista, flertando livremente com a ficção. Será que esse tipo de filme possui alguma validade histórica? Será que contribui para algum entendimento da Alemanha recém derrotada? Como absorver o conteúdo histórico por meio dessa obra “lars-vontriana” ?

Para iniciar, ressalvo: a história, que alguns chamam de narração, ciência e até ficção, não é sucedida por fatos lógicos, teleológicos e previsíveis. A rainha do tempo é imprevisível, incalculável, transformista e por vezes nostálgica.  A grande desvantagem do entendimento de que fatos lógicos são igualmente correlacionados à história, é a perca da oportunidade de entender o dinamismo da realidade. Exemplo: “Ao final da guerra, os aliados livram a Alemanha do nazismo, libertam os judeus dos campos de concentração e restauram a ordem”. Essa afirmação é mentirosa? Não, porém,  reduz o passado. Esse conjunto de informação que descrevi são denominados dados históricos, que ao ser adotado como história, constroem  uma imagem minimalista. A função dos dados históricos é servir de sustento para narrações e análises de terceiros (tal como o filme faz, ao escolher como tema o fim da Segunda Guerra). Pois bem, o que é história, afinal? A resposta é simples. História é a prática da alteridade ao estudar outros seres humanos numa temporalidade diferente. A alteridade reina nas tentativas de se aproximar do passado respeitando seu ritmo de respiração. É, no caso da temática do filme, enxergar a miséria do pós-guerra nazista, entender os pequenos resquícios de resistência patriótica e as parcerias entre a elite alemã ferroviária e o governo norte-americano. Esses são os ares específicos do ano de 1945 construído pelo filme com base numa possível realidade histórica.

Entenda, a história deverá fugir das interpretações dicotômicas, e deverá ser enxergada no equilibro  das contradições, complexidades e flutuações do passado. A alteridade mora aqui, na tentativa exausta de entender o passado do outro dentro de seu contexto.

Leia também:  Crimes de ódio: Uma tipificação necessária para o Brasil, por Guilherme Nucci

O filme te ajudaria com isso? Certamente. Lançado na década de 90, “Europa” é conduzida por uma outra abordagem sobre a interferência dos americanos na Alemanha. É uma paisagem inversa da narrativa em que os Estados Unidos triunfa contra a tirania do nazismo e de imediato instante, restaura a paz. Lembre-se, Von Trier é dinamarquês, não haveria certa aversão sua em relação à narração simplista e gloriosa da interferência dos EUA na Europa?

Para ir além da dicotomia “Europa” precisou encontrar o equilíbrio entre a narrativa americana e a  narrativa dos vencidos. Porém, a ótica do filme escolhe iluminar as veias germânicas ainda em processo de sangria. O triunfo do filme histórico é esse: ampliar o entendimento do passado por meio de novas narrativas na medida em que foge das narrações minimalistas, e exatamente por isso, exala validade histórica. Esse tipo de trabalho artístico nos leva à indagar um passado conhecido por outra perspectiva.

Nosso papel como telespectador é aprender novas narrativas históricas e questionar até que ponto essas narrativas podem acertar sobre o passado. Toda manipulação da história poderá lhe entregar alguma lição, melhor é aquela que exercite sua alteridade.

Com a ideia de entender o passado pelo seu dinamismo, e não pela sequência lógica dos fatos, irei caminhar por algumas cenas do filme. Isso auxiliará você a se aproximar do ano de 1945 na Alemanha, só que, por outros ângulos.

A hipnose é fantástica. Na contagem até 10 você é transportado para a Europa na pele do recém chegado Kessler. Ao caminhar para o encontro de seu tio,  é saudado de forma fria. O primeiro retrato da Alemanha é esse: ambiente hostil e nada hospitaleiro.

 

Leia também:  Nova fase da Lava Jato mira Mantega sem explicar como ele recebeu suposta propina

 

Chove na maior parte das cenas, como também neva. As lágrimas dos germanos estão por todos os lados. Os escombros e destroços enfeitam a calçada como flores. A casa dos senhorios dos trilhos é esburacada. Cenário que desconvida, que expulsa lares, que te desabriga. Pense. Que retrato da Alemanha o filme tenta lhe mostrar?

As falas do “uncle” Kessler esbanja amargura. Na intimidade, bebe. Quer calar sua depressão por  afogamento alcoólico. Em uma de suas falas relata a sensação instável dentro do trem. Não se sabe se vai para frente ou para trás, se avança ou recua. A dúvida de todos: para onde o trem da história caminha? Qual caminho trilhar se em todo lado a miséria grita? A instabilidade gera a sensação de medo, incompreensão e expectativa do que virá a acontecer. Em momento de crise (tal como agora no Brasil)  é difícil enxergar o caminho da carroceria.

Os americanos misericordiosos! Interrompem enterros e conspiram politicamente com judeus e ex-nazistas. Ora, não é realmente possível que naquela situação houvesse negociatas entre o governo dos EUA e as elites que apoiaram os nazistas? Seria possível reconstruir a Alemanha sem essas figuras de poder? Será correto a parceria norte-americana com um senhor, cujo vagão transportava judeus para serem sufocados pelos gases? Você consegue sentir os emaranhados contraditórios que o passado pode carregar?

Existe a crise. A economia castiga ao implantar a fome na população. A dica da crise é dada na fala satírica de Kessler ao afirmar que “Para trabalhar, deve-se pagar”, ou nos últimos vagões com humanos cadavéricos , ou nas crianças pedintes, ou nas…

 

 

A guerra não cessa. Recorde da sorrateira tentativa do coronel Harris de usar Kessler para a captura da Sra. Hartmann, ou do assassinato do prefeito nomeado pelos aliados…ora, não tinha acabado a guerra? Quando encerra-se alguma guerra, será que a imediata paz brota no território? O detalhe das crianças como assassinas é a ilustração da desumanidade causada pelo conflito ainda vivo.

 

 

Leia também:  Fora de Pauta

Zentropa é a esperança germânica. A cena com cor denuncia o afeto e orgulho alemão! Até o amargurado tio solta uma lágrima. Muito simbólico são as pessoas puxando o trem pelas mãos. Haverá esperança, mesmo no destroço, e caberá ao povo carregar esse “fardo”.

 

 

Kessler é o condutor do trem e da história. Você é lançado para esse cenário cru, grosso, hostil, tal como Kessler é lançado para o jantar da família Hartmann. De surpresa, nos é servido as grossas contradições de um lugar supostamente salvo pelos aliados. Intrigas e interesses…tudo é confuso. Kessler tem seu momento de paz quando se casa e quando morre. No amor e no fim da vida.

Belo, belíssimo filme!

Por fim, a lição: o conteúdo histórico pode ser adquirido por qualquer material de ficção (cultura) quando em sua proposta de execução cria vazão para imaginar outras narrações sobre os dados históricos, e que, por consequência,  gera dúvidas sobre as versões “oficiais” dos acontecimentos históricos.

Lars orquestra seu filme perfeitamente: não há cores vívidas num ambiente cruel.

Sua narrativa é alimentada por um intuito antiamericano? Talvez sim. De qualquer forma, sua narração abre novas oportunidades de leitura do passado e nos atiça à pratica da alteridade.

Encerra-se a locomotiva sob o luar da Europa, a correnteza que carrega o cadáver anuncia nossa última estação. Ficará dessa viagem a imagem de um lugar sofrido, miserável, contraditório e conflituoso. Ganhamos uma outra perspectiva da história de igual semelhança do retrato europeu em pós-guerra: de tristeza.

 

http://cinemacultura.com/?p=15587

 

_

 

https://www.youtube.com/watch?v=rgaZPrzG_7o align:center

 

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome