“IG é uma droga”. A frase, extraída de mensagens internas da própria Meta, tornou-se símbolo do processo que começa nesta semana em um tribunal civil da Califórnia e que, pela primeira vez, coloca gigantes da tecnologia diante de um júri popular para responder por danos psicológicos causados a crianças e adolescentes.
O julgamento nos EUA envolve o Instagram e o YouTube, e é considerado um caso com potencial de estabelecer precedentes jurídicos capazes de influenciar mais de mil ações semelhantes em curso no país.
No centro da ação está o processo movido por Kaley G.M., hoje com 19 anos, que afirma ter desenvolvido depressão, ansiedade, automutilação e ideação suicida após anos de exposição às plataformas, iniciada ainda na infância, aos 6 anos no YouTube e aos 11 no Instagram.
Mais do que o conteúdo em si, o foco da acusação está no design das plataformas. Os advogados sustentam que recursos como scroll infinito, autoplay, sistemas de recomendação algorítmica e mecânicas de engajamento foram deliberadamente projetados para capturar atenção e induzir comportamentos compulsivos, especialmente em usuários vulneráveis.
Documentos internos incorporados ao processo expõem a lógica do modelo de negócio. Mensagens corporativas reconhecem o caráter viciante do Instagram, sintetizado na frase “IG é uma droga”, escrita por um funcionário da Meta. Há também registros de 2017 que estabelecem como prioridade estratégica a captura contínua da atenção de adolescentes, mesmo diante do reconhecimento interno dos danos causados.
Na abertura do julgamento, o advogado dos demandantes, Mark Lanier, disse ao júri que este caso “diz respeito a duas das corporações mais ricas da história que projetaram o vício nos cérebros das crianças”. A acusação sustenta que as empresas priorizaram crescimento e lucro enquanto minimizaram, internamente, os riscos à saúde mental de jovens usuários.
TikTok e Snapchat também eram rés no processo, mas optaram por acordos antes do início do julgamento. A Meta e o YouTube, por sua vez, decidiram enfrentar o tribunal. A defesa alega que os danos relatados não decorrem do design das plataformas, mas de fatores externos, como bullying escolar e ambiente familiar, e sustenta que a mãe da vítima deveria ter lido os termos de uso.
A juíza Carolyn B. Kuhl, no entanto, rejeitou os argumentos e reiterou que há indícios suficientes de que as acusações não se baseiam no conteúdo publicado, mas na arquitetura das plataformas.
Com informações do Ars Technica
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