Entrevista: Histeria coletiva com a Lava Jato inspira novo romance de Marcelo Semer, desembargador do TJ-SP

Dolores Guerra
Dolores Guerra é formada em Letras pela USP, foi professora de idiomas e tradutora-intérprete entre Brasil e México por 10 anos, e atualmente transita de carreira, estudando Jornalismo em São Paulo. Colabora com veículos especializados em geopolítica, e é estagiária do Jornal GGN desde março de 2014.
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Semer aborda consequências políticas da Operação Lava Jato em seu novo livro, destacando os estragos e as lições; assista

Marcelo Semer revela as consequências políticas da Operação Lava Jato em seu romance, destacando os estragos e as lições

“O timing é o senhor da razão” é o que diz o professor Camilo, no romance judiciário de Marcelo Semer sobre  vendaval causado pela Operação Lava Jato. No entanto, o autor pondera que “o tempo que isso demorou para acontecer e o sofrimento que foi causado enquanto não acontecia, foi muito grande”. Ou seja, “foi necessário uma tempestade perfeita para que tudo sucumbisse mais ou menos ao mesmo tempo”

O desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Marcelo Semer, foi o convidado de Luis Nassif na última edição (7) do TV Justiça para apresentar seu livro “Duas Fotos”. Semer revelou que está “animado com a receptividade” do público, que estava acostumado com romances políticos, mas não com uma trama judiciária. “Essa aposta que eu fiz de levar para a literatura é legal, as pessoas estão gostando”, celebrou o autor. 

“Duas Fotos” acompanha os desdobramentos da história do Brasil durante os 10 anos da Operação Lava Jato, trazendo uma crítica à atuação do Judiciário e dos meios de comunicação naquele período, resultando na abertura do espaço para o crime organizado, avançando o autoritarismo e a ascensão bolsonarista. 

A trama acompanha a trajetória do professor e ativista de esquerda, Camilo, do promotor entusiasta da Lava Jato, Artur, e da jornalista Maria, inicialmente apoiadora do governo, mas que termina desiludida. Ao longo da história, o livro demonstra as consequências políticas e institucionais causadas pelo caráter destrutivo da Operação, fortalecido pela cobertura midiática majoritária, visibilizando mais um lado da história, o que favoreceu o atual contexto de polarização política. 

“A mídia tem responsabilidade social de escutar especialistas”, reforçou Semer, tomando o exemplo de sua personagem jornalista para demonstrar a mídia lavajatista que sobreviveu por tanto tempo. O desembargador e escritor defende que “não existem dois lados iguais” quando um deles prevê a destruição da política. “A lição que fica é não ter essa histeria coletiva”, afirma Semer, ainda que pouco seguro de que a lição tenha sido realmente aprendida. 

Nassif complementa o raciocínio do convidado, recordando que os profissionais dos grandes meios de comunicação oscilavam segundo o momento e que apenas com as revelações feitas com a Vaza Jato, muitos encontraram “seu álibi para lavar suas biografias”

Retomando o contexto histórico que inspirou a obra, Marcelo Semer relembra um artigo escrito por Sérgio Moro, ainda no início dos anos 2000, exaltando a Operação Mãos Limpas, que destruiu as instituições italiana e trouxe ao poder Silvio Berlusconni, chamando-a de “Cruzada judiciária mais exitosa”. Nesse sentido, o escritor afirma que, para Moro, “a quebra do sistema partidário era essencial, uma premissa” não apenas em seu sentido abstrato ou ideológico, culminando na vitória da antipolítica personificada por Jair Bolsonaro, até mesmo à destruição física, com a tentativa de golpe de Estado cometida em 8 de janeiro de 2023. 

“Não podemos ceder nas ideias, não podemos ceder ao populismo”, defende Semer, por compreender que “os líderes políticos existem para educar o povo, para escutar o povo”. Ele ainda alerta sobre a contradição em que consiste a incapacidade de despertar a mobilização de massas desde o governo. “Eu acho que isso enfraquece a democracia”, conclui. 

“A história do Brasil é mais de permanência do que de ruptura”, fato que, segundo Semer, nos deixou um “legado autoritário”. “Conseguimos avanços civilizatórios, mas tem um refluxo no conteúdo de mobilização, que de alguma forma terá que retomar”, aponta o escritor. 

“Duas Fotos”, da editora Amanuense, já foi lançado em São Paulo, no Rio de Janeiro, e terá lançamento em Brasília em 11 de junho. Tendo em vista a série “O Mecanismo”, Semer brinca: “quem sabe alguém não queira fazer uma série com as ‘Duas Fotos’?”.  

Assista a entrevista completa abaixo:

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