A crise do futebol brasileiro extrapola os gramados. Mais do que uma sequência de resultados negativos, ela suscita uma reflexão sobre um país que perdeu a capacidade de ousar e evita enfrentar seus principais desafios políticos e institucionais.
A visão é do jurista Lênio Streck, em entrevista à TV GGN na quinta-feira [confira pelo link abaixo]. Para ele, a financeirização do futebol, o crescimento das apostas esportivas e o afastamento do torcedor dos estádios transformaram o jogo em um produto. “Hoje ninguém mais quer driblar. O jogador prefere não arriscar para não ser criticado por perder a bola”, afirmou, durante o programa TVGGN 20 Horas.
Essa mesma lógica se reproduz na política. Streck comparou o estilo de jogo baseado em passes laterais ao comportamento do governo atual diante de temas considerados sensíveis.
“O governo atrasa muito a bola para o goleiro. Prefere o passe para o lado e evita enfrentar questões como segurança pública e juros. Esse recuo permanente permite que o adversário dite o jogo”, disse.
Isso acontece porque o governo prioriza entregas concretas, como programas sociais, mas tem dificuldade de construir um projeto de longo prazo. “O Brasil perdeu a capacidade de imaginação. Falta construir um sonho coletivo, como aconteceu em outros momentos da história do país”, afirmou.

Ao discutir as raízes dessa paralisia, Streck recorreu à tragédia grega Antígona — sob a ótica de Sérgio Buarque de Holanda — para diagnosticar como o Brasil historicamente privilegia o quinhão individual em detrimento do bem comum. Na sua leitura, esse patrimonialismo cultural, que confunde o público e o privado, continua moldando as relações entre Estado, mercado e instituições, sabotando a construção de um projeto coletivo para a pólis.
Durante a conversa, o jurista também comentou episódios recentes, como a decisão do STF que, no fim de junho, liberou o pagamento dos penduricalhos do Judiciário, e o caso Master. Para o jurista, ambos evidenciam um modelo em que decisões institucionais são condicionadas por interesses particulares. “Somos um capitalismo dependente de subsídios. É liberalismo quando convém e Estado quando é preciso salvar interesses privados”, afirmou.
Streck também avaliou que o receio de crises institucionais limita a atuação do Executivo, lembrando de como o impeachment de Dilma Rousseff fortaleceu um “presidencialismo de ocasião”, no qual o governo depende permanentemente da negociação com o Centrão para sobreviver.
“O presidente prefere recuar porque sabe que depende do Congresso. Sem maioria, fica condicionado aos acordos políticos, e isso dificulta qualquer reforma estrutural. O presidente recebe a bola de frente para o ataque, mas devolve para o goleiro. E o goleiro dá um chutão”.
Assista à entrevista completa com o jurista Lenio Streck no canal da TV GGN no YouTube:
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