30 de julho de 2026

Lênio Streck: o futebol perdeu a ousadia, e o Brasil também

Jurista relaciona a crise da Seleção à política e afirma que o país evita enfrentar seus principais desafios institucionais

A crise do futebol brasileiro extrapola os gramados. Mais do que uma sequência de resultados negativos, ela suscita uma reflexão sobre um país que perdeu a capacidade de ousar e evita enfrentar seus principais desafios políticos e institucionais.

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A visão é do jurista Lênio Streck, em entrevista à TV GGN na quinta-feira [confira pelo link abaixo]. Para ele, a financeirização do futebol, o crescimento das apostas esportivas e o afastamento do torcedor dos estádios transformaram o jogo em um produto. “Hoje ninguém mais quer driblar. O jogador prefere não arriscar para não ser criticado por perder a bola”, afirmou, durante o programa TVGGN 20 Horas.

Essa mesma lógica se reproduz na política. Streck comparou o estilo de jogo baseado em passes laterais ao comportamento do governo atual diante de temas considerados sensíveis.

“O governo atrasa muito a bola para o goleiro. Prefere o passe para o lado e evita enfrentar questões como segurança pública e juros. Esse recuo permanente permite que o adversário dite o jogo”, disse.

Isso acontece porque o governo prioriza entregas concretas, como programas sociais, mas tem dificuldade de construir um projeto de longo prazo. “O Brasil perdeu a capacidade de imaginação. Falta construir um sonho coletivo, como aconteceu em outros momentos da história do país”, afirmou.

Ao discutir as raízes dessa paralisia, Streck recorreu à tragédia grega Antígona — sob a ótica de Sérgio Buarque de Holanda — para diagnosticar como o Brasil historicamente privilegia o quinhão individual em detrimento do bem comum. Na sua leitura, esse patrimonialismo cultural, que confunde o público e o privado, continua moldando as relações entre Estado, mercado e instituições, sabotando a construção de um projeto coletivo para a pólis.

Durante a conversa, o jurista também comentou episódios recentes, como a decisão do STF que, no fim de junho, liberou o pagamento dos penduricalhos do Judiciário, e o caso Master. Para o jurista, ambos evidenciam um modelo em que decisões institucionais são condicionadas por interesses particulares. “Somos um capitalismo dependente de subsídios. É liberalismo quando convém e Estado quando é preciso salvar interesses privados”, afirmou.

Streck também avaliou que o receio de crises institucionais limita a atuação do Executivo, lembrando de como o impeachment de Dilma Rousseff fortaleceu um “presidencialismo de ocasião”, no qual o governo depende permanentemente da negociação com o Centrão para sobreviver.

“O presidente prefere recuar porque sabe que depende do Congresso. Sem maioria, fica condicionado aos acordos políticos, e isso dificulta qualquer reforma estrutural. O presidente recebe a bola de frente para o ataque, mas devolve para o goleiro. E o goleiro dá um chutão”.

Assista à entrevista completa com o jurista Lenio Streck no canal da TV GGN no YouTube:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

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5 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    10 de julho de 2026 2:22 pm

    Streck fala da necessidade de ousadia, mas ele é apenas um hipocrita. Quando eu ousei furar a bolha de propaganda do ChatGPT no TSE para criar condições para o debate acerca do uso dessa tecnologia no sistema de justiça mediante processos administrativos no CNJ e no CNMP ele não me apoiou. Ao contrario, Lenio Streck comemorou a punição que me foi imposta. Nada do que ele fala sobre ousadia faz qualquer sentido, porque ele não é ousado nem tolera a ousadia alheia.

  2. GANGUE DO J PONTO

    10 de julho de 2026 4:04 pm

    O CAOS INSTITUCIONAL OCORRE QUANDO ACEITAM NATURALMENTE UM SUPOSTO JURISTA ATENTAR CONTRA A LEI DESCARADAMENTE CONTRA A DILMA E MAIS.RECENTE ELOGIAR UM BANDIDO DO MASTER,AFF,O BRASIL ESTÁ TOMADO POR GANGUES QUE ESCOAM RIOS DE DINHEIRO PÚBLICO SEJA FINANCEIRO SEJA MIDIÁTICO SEJA NAS ELITES DA POLÍCIA SEJA NAS ELITES DO CONGRESSO SEJA NAS ELITES MILITARES SEJA NAS ELITES MIDIÁTICAS SEJA NAS ELIT…ETC ETC ETC !!!

  3. Bernardo

    10 de julho de 2026 11:15 pm

    A relação entre o futebol e o governo fax sentido. Há um outro fator que influenciou a vida nacional nas últimas décadas incluindo as relações sociais, a vida cultural, a política, o esporte em.especial o futebol . Esse fator é poderoso e entranhado na sociedade. Trata-se do crescimento da teologia da prosperidade das igrejas evangélicas criadas há uns 30 anos que favorece o individualismo e impõe conceitos descontextualizados em nossa terra. Um jornalista inglês apresentou uma síntese desse fenômeno exemplificou com o futebol

  4. Luiz Fernando Juncal Gomes

    11 de julho de 2026 4:30 pm

    Na bola, na bala e na bolinha
    A “intervenção norte americana” na Copa 2026 provocou lembranças remotas. Colecionei a revista Placar, lançada em 20.03.1970, do número 1 até mais de 200 exemplares. Aguardava a chegada da revista em Bauru toda quarta-feira, sentado na calçada ao lado da banca.
    Placar tinha um time de jornalistas de primeiríssima qualidade, que se refletia no texto primoroso e reportagens inusitadas. E na página central, dupla, nada menos que a genialidade do Henfil. Os cartuns da Copa 70 foram antológicos.
    Uma reportagem em especial marcou na memória. Era sobre o União Bandeirantes Futebol Clube, de Bandeirantes (PR), time fundado em 1964 pelo folclórico e polêmico Serafim Meneghel (1932/2020), que também patrocinava o time através da sua usina de açúcar e álcool. E era o presidente do clube, claro. Mandava os jogos em casa no Estádio Comendador Luiz Meneghel, patriarca da família, onde raramente perdia um jogo. Ou seja, os Meneghel mandavam não só no clube, mas na cidade.
    A quase invencibilidade, segundo a reportagem, era o modus operandi do Serafim Meneghel, que ficava no gramado ao lado do bandeirinha que marcava o ataque do União Bandeirantes, nos dois tempos do jogo, andando junto, ao lado. Detalhe importante: na cintura, Meneghel ostentava um revólver no coldre.
    Mas não acabou, no intervalo o time era turbinado com um “estimulante” vigente na época, a “bolinha”, nome popular que se dava a anfetaminas tipo pervitin, muito em voga entre 1960/1980. Daí o título da reportagem em tom bem-humorado “Na bola, na bala e na bolinha”.
    Trump Meneghel deveria ter feito um estágio 6 meses antes da Copa em Bandeirantes (PR), para se inteirar junto à família Meneghel dos procedimentos de como ser invicto jogando em casa.
    Do Google, por ocasião da morte do Serafim Meneghel, em 2020:
    “Meneghel fundou o União Bandeirante em 1964. O time era patrocinado pela empresa de açúcar e álcool da família. Foram 42 anos de parceria e história. A equipe mostrava força em casa e foi vice-campeã paranaense por cinco vezes: 1966, 1969, 1971, 1989 e 1992.
    Como dirigente, Serafim Meneghel era polêmico e colecionou histórias – verídicas ou não. O fato é que ele várias vezes entrou no gramado para reclamar com a arbitragem. Uma vez teria feito o árbitro mudar um pênalti já marcado e dar impedimento para outro time.
    Entre as lendas, a mais famosa é que Meneghel um dia teria atirado na bola em um jogo para evitar que um pênalti fosse cobrado. Isso teria sido contado por um repórter na época com a intenção de promover as contratações da dupla Tião Abatiá e Paquito.”
    Trump Meneghel teria entrado com um tanque de guerra.

  5. Antônio André Alves

    12 de julho de 2026 11:16 am

    Acrescentaria também a educação. Vivemos o império de uma antipedagogia que esquece não haver educação sem disciplina, limite e respeito.
    Nossos jogadores de futebol estão inseridos nesse processo.

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