4 de junho de 2026

Lista de Livros: Discurso do método – René Descartes

Lista de Livros: Discurso do método – René Descartes

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Editora: Martins Fontes

ISBN: 978-85-7827-145-9

Tradução: Maria E. A. P. Galvão (livro), André S. M. da Silva (notas), Homero Santiago (introdução e análise), Monica Stahel (revisão)

Introdução, análise e notas: Étienne Gilson

Opinião: regular

Páginas: 172

     “Assim, a sabedoria diferirá profundamente da erudição, pelo fato de esta última estar inteiramente voltada para as coisas, ao passo que a primeira reside apenas no pensamento. Ora, para que um pensamento seja capaz de tirar unicamente de seu próprio fundo todos os conhecimentos úteis ao homem, é preciso estar de posse dos primeiros princípios donde esses conhecimentos derivam-se, saber que todas as ciências humanas são rigorosamente encadeadas e ser capaz de efetuar-lhes a dedução. A unidade do corpo das ciências é evidente, porquanto as ciências, todas em conjunto, são constituídas apenas pelo próprio espírito humano; aparentemente múltiplas quando nos colocamos no ponto de vista dos objetos diferentes que estudam, elas são unas quando nos colocamos no ponto de vista do sujeito pensante, porquanto permanece ele sempre idêntico a si mesmo, seja qual for o objeto que considere. A única dificuldade para dar ao espírito a posse dos verdadeiros princípios e torná-lo capaz de daí deduzir à vontade todas as ciências é fornecer-lhe um método. Chama-se de método a ordem que o pensamento deve seguir para alcançar a sabedoria e conforme à qual ele pensa em certo momento que a alcançou.” (Étienne Gilson)

 

     “O princípio fundamental em que sua conduta deve inspirar-se é o seguinte: cada um de nós é uma pessoa separada dos outros, e cujos interesses são por conseguinte distintos daqueles do restante do universo, entretanto, como essa pessoa separada não conseguiria subsistir sozinha, ela deve sempre subordinar seus interesses aos interesses legítimos do todo de que ela faz parte.” (Étienne Gilson)

 

     “A paz da alma, isto é, a própria felicidade, é a recompensa de uma vida que se regra segundo as exigências da razão.” (Étienne Gilson)

 

     “O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: pois cada um pensa estar tão bem provido dele, que mesmo aqueles mais difíceis de se satisfazerem com qualquer outra coisa não costumam desejar mais bom senso do que têm. Assim, não é verossímil que todos se enganem; mas, pelo contrário, isso demonstra que o poder de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina bom senso ou razão, é por natureza igual em todos os homens; e portanto que a diversidade de nossas opiniões não decorre de uns serem mais razoáveis que os outros, mas somente de que conduzimos nossos pensamentos por diversas vias, e não consideramos as mesmas coisas.”

 

     “A multiplicidade de leis frequentemente fornece desculpas aos vícios, de modo que um Estado é muito mais bem regrado quando, tendo pouquíssimas leis, elas são rigorosamente observadas; assim, em vez desse grande número de preceitos de que a lógica é composta, acreditei que me bastariam os quatro seguintes, contanto que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma única vez de observá-los.

     O primeiro era de nunca aceitar coisa alguma como verdadeira sem que a conhecesse evidentemente como tal; ou seja, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e não incluir em meus juízos nada além daquilo que se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

     O segundo, dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e necessário para melhor resolvê-las.

     O terceiro, conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos; e supondo certa ordem mesmo entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros.

     E, o último, fazer em tudo enumerações tão completas, e revisões tão gerais, que eu tivesse certeza de nada omitir.”

 

     “Como nossa vontade é propensa por natureza a só desejar as coisas que nosso entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens que estão fora de nós como igualmente afastados de nosso poder, não lastimaremos mais a falta daqueles que parecem ser devidos a nosso nascimento, quando deles formos privados sem nossa culpa, do que lastimamos não possuir os reinos da China ou do México; e que, fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos mais estar sãos, estando doentes, ser livres, estando presos, do que desejamos agora ter corpos de uma matéria tão pouco corruptível como os diamantes, ou asas para voar como os pássaros. Mas confesso que é necessário um longo exercício e uma meditação muitas vezes reiterada para se acostumar a olhar desse ângulo todas as coisas; e creio que é precisamente nisso que consistia o segredo daqueles filósofos que outrora conseguiram subtrair-se do império da fortuna e, apesar das dores e da pobreza, rivalizar em felicidade com seus deuses. Pois, ocupando-se sem cessar em considerar os limites que lhes eram prescritos pela natureza, persuadiam-se tão perfeitamente de que nada estava em seu poder além de seus pensamentos, que só isso bastava para impedi-los de terem qualquer apego por outras coisas; e dispunham de seus pensamentos de modo tão absoluto que isso lhes era uma razão para se considerarem mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que qualquer dos outros homens que, não tendo essa filosofia, por mais favorecidos que sejam pela natureza e pela fortuna, nunca dispõem assim de tudo o que querem.”

 

     “Notando que esta verdade – penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de a abalar, julguei que podia admiti-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que buscava.

     Depois, examinando atentamente o que eu era e vendo que podia fingir que não tinha nenhum corpo e que não havia nenhum mundo, nem lugar algum onde eu existisse, mas que nem por isso podia fingir que não existia; e que, pelo contrário, pelo próprio fato de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, decorria muito evidentemente e muito certamente que eu existia; ao passo que, se apenas eu parasse de pensar, ainda que tudo o mais que imaginara fosse verdadeiro, não teria razão alguma de acreditar que eu existisse; por isso reconheci que eu era uma substância, cuja única essência ou natureza é pensar, e que, para existir, não necessita de nenhum lugar nem depende de coisa alguma material. De sorte que este eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, e até mais fácil de conhecer que ele e mesmo se o corpo não existisse, ela não deixaria de ser tudo o que é.”

 

     “Nunca observei que através das discussões que se praticam nas escolas se haja descoberto alguma verdade que antes se ignorasse; pois, enquanto cada um procura vencer, esforça-se muito mais em fazer valer a verossimilhança do que em pesar as razões de uma e de outra parte; e os que foram por muito tempo bons advogados nem por isso são depois melhores juízes.”

 

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