4 de junho de 2026

O ano em que o Brasil rompeu com os Estados Unidos.

 

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O ano em que o Brasil rompeu com os Estados Unidos.

Darío Pignotti/ Página12

Foi o ano diplomático menos pensado. Em 31 de maio de 2013, quando o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, desembarcou em Brasília para definir os detalhes dos acordos a serem firmados durante a reunião entre Dilma Rousseff e Barack Obama, ninguém, possivelmente nem a presidenta, imaginava qual seria o grande desenlace dessa aproximação a Washington, sem precedentes nos onze anos de governo do Partido dos Trabalhadores.

Não existe obstáculo que não possa ser superado por nossos países… estamos ansiosos por recebe-la (a Dilma) em outubro em Washington”, assegurava Joe Biden ao deixar o Palácio do Planalto com seu sorriso invicto.

Não é usual que Dilma receba a vice-presidentes em seu despacho e se o faz é para cumprir algum protocolo rápido: ter concedido 90 minutos de seu tempo ao número dois da Casa Branca alimentou especulações fundamentadas sobre o tamanho dos pactos que se estavam gestando. Porta-vozes anônimos do governo, possivelmente alguma fonte militar interessada, deixaram transcender que logo depois da conversação com o emissário de Obama, a presidenta tinha resolvido comprar 36 cazas F-18 Super Hornet fabricados pela Boeing, uma das empresas que formam o complexo industrial militar norte-americano, cujo poderio gigantesco cresceu ainda mais desde a declaração de guerra ao terror anunciada em 2010 por Geroge Walker Bush, depois dos atentados contra as Torres Gêmeas nova-yorquinas.

O sonriso, agora vitorioso, de Joe Binden ao estreitar as mãos do sempre contido chanceler Antonio Patriota selava o momento mais regressivo da política externa brasileira desde 2003, com a virtual derrubada da posição “altiva” ante a Casa Branca mantida durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, secundado por seu ministro de Exteriores Celso Amorim e o assessor especial Marco Aurélio García, uma troika que se completava com Samuel Pinheiro Guimarães, o “enfant terrible” do Itamaraty, a quem coube a tarefa de revisar planos de estudo e sistemas de admissão na inexpugnável estrutura do Serviço Exterior.

Autor de livros seguidamente citados por Hugo Chaves, Pinheiro Guimarães tinha sido condenado ao ostracismo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nos anos 90, como “escarmiento” por ter denunciado a Área de Livre Comércio das Américas.

Dilma, conhecida por suas posições nacionalistas de esquerda, não parecia totalmente convencida com a aproximação abusiva aos Estados Unidos, tecida desde 2011 pelo seu chanceler Antonio Patriota. Afim de estabelecer comparações, poderíamos situar Patriota nas antípodas de Amorim e Pinheiro Guimarães: diplomata submisso aos poderes estabelecidos no Itamaraty, muito bem relacionado em Washington, onde se desempenhou como embaixador, e um dos brasileiros prediletos da ex-secretária de Estado Hillarty Clinton, que costuma nomea-lo como “meu amigo Antonio”. Afeto que é recíproco.

Roussef costuma pronunciar-se através de gestos e com frequência sua cara parecia o de uma mulher obrigada a calçar sapatos dois números menores que sua forma cada vez que aparecia em público junto a Patriota, isso especialmente logo da incompetência com que este atuou frente ao golpe que derrubou o ex-mandatário paraguaio Fernando Lugo, em junho de 2012.

Em rigor, Patriota foi algo assim como o chanceler de uma nota só, a de Washington, a despeito da agenda sul-americana, em que logo da gafe paraguaia de 2012 ocorreu o escândalo com a Bolívia em agosto de 2013, quando os responsáveis pela embaixada brasileira facilitaram a fuga de um dirigente opositor acusado de desestabilizar o presidente Evo Morales.

Essa assimetria diplomática a favor do Estados Unidos erra o desejado pelas facções do Palácio Itamaraty (Chanceleria) nostálgicas do mandato de Fernando Henrique Cardoso, que deveriam suportar com desgosto a heterodoxia e o latino-americanismo que imperaram durante os 8 anos de Lula-Amorim-García.

O certo é que em agosto de 2014, a política externa de Dilma, seguindo os postulados da velha-guarda do Itamaraty, era criticada por baixo no PT quando parecia encaminhar-se para um pacto de subordinação relativa com Washington, a ser referendado na visita de Estado à Casa Branca prevista para 23 de outubro.

Foi então, entre julho e setembro, que se conheceram centenas de documentos obtidos pelo ex-analista da NSA Edward Snowden, revelando que baixo pretexto de dar cassa a terroristas imaginários, essa agência instalou uma central de operações clandestinas em Brasília desde a qual foram violadas as comunicações de Dilma e roubados dados, provavelmente sensíveis, da petroleira estatal Petrobrás.

Ofendida pela violação da “soberania nacional” perpetrada pelos Estados Unidos, Roussef solicitou uma reunião urgente com Obama, na qual este não pode brindar as explicações exigidas enquanto admitia ser impotente frente ao poder da comunidade de informações, prima-irmã do complexo-industrial-militar.

A fracassada conversa com Obama e, em menor medida, a caída de Patriota, fatos ocorridos no tempo de um mês, certificaram a defunção da política externa inaugurada em 2011, e sinalizaram o reencontro com várias das tesis firmadas desde 2002.

A partir desse corte, inesperado e drástico, Dilma assumiu em setembro do ano passado o comando das relacões exteriores, executando uma bateria de movimentos convergentes. Suspendeu a visita de Estado a Washington, em que pese os esforços em contrário realizados pelo sorridente Joe Biden e o secretário de Estado John Kerry, também enviado a Brasília para reparar os danos causados pelo dossiê Snowden.

Propos e obteve o acordo dos países do Mercosul para elaborar uma estratégia conjunta contra a espionagem eletrônica, iniciativa que posteriormente formulou, com algumas modificações, ante a Assembléia das Nações Unidas, que no mês passado a aprovou com o apoio conjunto dos países emergentes e várias potências como Alemanha, apesar das reservas iniciais de Angela Merkel.

Pouco depois de assumir, o novo chanceler, Luiz Alberto Figueiredo, empreendeu em setembro um giro por vários países em que qualificou a espionagem norte-americana como “inaceitável” e “violatória dos direitos humanos”. Uma simples análise contrafactual autoriza supor que se Dilma tivesse realizado a tão anunciada visita a Washington, provavelmente as petroleiras norte-americanas teriam sido fortes candidatas no leilão do mega-poço Libra, com 15 bilhôes de barris, e os aviôes Super Hornet da Boeing poderiam ter sido escolhidos pela Força Aérea para modernizar sua frota de guerra.

Como se sabe, nenhuma petroleira estado-unidense se inscreveu para disputar Libra, na licitação ganha em outubro por um consórcio encabeçado pela Petrobrás associada a duas companhias chinesas, uma francesa e uma anglo-holandesa. E em dezembro, o agora ministro de Defesa, o diplomata de carreira Celso Amorim, seguindo instruções do Planalto, finalmente optou por comprar 36 caza-bombardeiros Gripen NG, de fabricação sueca, deixando de lado os norte-americanos F-18, que antes do data-gate pareciam imbatíveis.

Foram duas medidas de Estado que transcendem o conjuntural, nas quais se materializa um giro vantajoso para a autonomia nacional e antipático para grupos hegemônicos das indústrias petroleira e militar, o que gera ressonâncias nas grandes empresas mediáticas.

Quem repase a linha editorial da CNN, The Economist ou The Financial Times, advertirá como mudou o tratamento dado a Roussef. Deixou de ser aquela estadista de 2011 para tornar-se uma presidente “intervencionista e contrária ao livre jogo das forças de mercado”, um modelo inconveniente para os demais países latino-americanos, aos quais se recomenda, desde essas usinas de opinião global, descartar o exemplo do Brasil e seguir o aplicado no México pelo presidente Enrique Peña Nieto.

 

http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-237045-2014-01-05.html

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