5 de junho de 2026

O depoimento de Úrsula K. Le Guin sobre aborto em 1950 que sensibiliza a opinião pública

Se trata de um ensaio lido pela escritora Úrsula K. Le Guin antes de falecer para um documentário e agora lembrado pela Literature Hub
Úrsula K. Le Guin leu para um documentário o ensaio que publicou na década de 1980 a respeito do aborto ilegal que fez em 1950. Foto: Reprodução/ The Journey That Matters

Se a ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), e agora ex-ministra Rosa Weber, aposentada do tribunal no mês passado, enfrentou as bancadas conservadoras do Congresso Nacional colocando em pauta o tema do aborto, sendo favorável à descriminação da interrupção da gravidez nos três primeiros meses, seu substituto, o ministro Luís Roberto Barroso, afirmou que o tema “não está maduro” e paralisou a tramitação na Corte Suprema. Não há previsão de quando os demais ministros apresentem suas posições sobre a descriminação do aborto.  

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Entre o voto e a aposentadoria de Rosa Weber e a posse de Luís Roberto Barroso, e sua declaração de paralisação da votação a respeito do tema, um texto da autora Úrsula K. Le Guin (1929-2018), publicado no último mês de setembro pela Literature Hub, causou a mobilização da opinião pública nos Estados Unidos, além de certa comoção: a escritora, considerada um dos principais nomes da literatura de ficção científica do século XX, vencedora de prêmios como o Hugo, o principal para autores desse tipo de literatura, fala sobre seu aborto ilegal em 1950.

Ela declara: “Eu te imploro a ver que devemos salvar e não deixar que os intolerantes e misóginos tirem isso de nós novamente”. Úrsula revela a dor física e moral que sentiu, se mostra consciente de seu lugar de privilégio por conseguir realizar o procedimento, duplamente negado às mulheres pobres e, sobretudo, negras, e trata de algo no cerne da argumentação do fundamentalismo religioso: a questão do aborto não se trata de ser contra a vida, mas a favor dela em sua plenitude a partir do direito de escolha.

O artigo, na verdade, se trata de um ensaio que veio à tona a partir do The Journey That Matters, uma série de seis vídeos curtos de Arwen Curry, diretora e produtora de Worlds of Úrsula K. Le Guin, um documentário indicado ao Prêmio Hugo de 2018 sobre a autora icônica.

No primeiro da série, Elisabeth Le Guin e Caroline Le Guin refletem sobre “What It Was Like”, em que Ursula lê seu ensaio, na década de 1980, de mesmo nome sobre o aborto ilegal que fez enquanto estudava em Radcliffe. Conforme as filhas declaram no documentário, é difícil pensar na mãe fazendo um aborto, e ainda por cima ilegal. Para ambas, isso levou Úrsula a um lugar extremamente doloroso e vulnerável, e as filhas imaginam o que ela passou: a vergonha, a dor, a sensação de perda que Úrsula deve ter experimentado a dúvida persistente e corrosiva. Para além do ensaio, a reação das filhas ao escrito pela mãe sobre o episódio servem de reflexão sobre o tema e o quanto a permanência do aborto como saída criminosa afeta mulheres mundo afora. 

No ensaio, Úrsula mostra que ser mãe era tão essencial quanto ser escritora. Eram duas correntes fundamentais do seu ser, totalmente distintas, mas também bastante inseparáveis. “Chamá-los de aspectos gêmeos de sua “criatividade” seria usar uma palavra que ela não gostava, pela maneira como ela omite a complexidade do trabalho humano”, escrevem as filhas ao Lit Hub. No entanto, a complexidade certamente existia na tensão profunda e perpétua entre as suas duas vocações, mesmo que elas se alimentassem uma à outra. 

Úrsula, porém, é clara sobre os primeiros acontecimentos que tornaram possível a sua luta apaixonada ao longo da vida com essa tensão: “nem nós, os seus amados filhos, nem o seu extraordinário conjunto de trabalho imaginativo, amado por tantos, existiriam se ela tivesse sido forçada prematuramente à maternidade – forçada a se tornar “outra mulher inútil”, escrevem Elisabeth e Caroline.

Aborto ilegal

Para ambas, é difícil novamente abordar este ensaio sabendo que hoje, depois daquele adiamento de “meia vida”, o aborto é novamente ilegal nos Estados Unidos. “A idade das trevas está de volta: no Texas, Idaho, Dakota do Norte, Tennessee e em mais de uma dúzia de outros estados, a gravidez pode agora significar enfrentar a perspectiva de ser forçada a ter filhos contra a vontade – tendo-os para o povo antiaborto, que não terá nada a ver com ajudar a cuidar dessas crianças”, escrevem. 

“Aqueles que têm o privilégio e os meios, como fez a nossa mãe há mais de 70 anos, podem fazer a escolha ética de infringir a lei, de ter ou não filhos; eles podem ter familiares amorosos e encontrar profissionais médicos dispostos a correr o risco de serem criminalizados ao apoiá-los. A maioria não tem essa escolha, entretanto. Em algum lugar no Missouri ou em Idaho, um jovem com a capacidade de imaginar as realidades mais amplas de que tanto precisamos, com o potencial ardente para se tornar um contador de histórias transformador, está sendo envergonhado e empurrado para o silêncio da maternidade forçada”, diz outro trecho do texto de Elisabeth e Caroline.

Tanto o documentário, quanto as palavras de Úrsula e o comentário de suas filhas parecem ter o efeito de não deixar a sociedade esquecer como foi e o que está em jogo para todas as mulheres. “Como suas filhas, as nossas palavras aqui, as nossas vozes, os nossos próprios corpos não existiriam se a nossa mãe não tivesse tido o apoio e a coragem para defender o seu próprio corpo, mente e coração, e pelas possibilidades dos nossos. Nossa existência incorpora o legado de seu amor feroz e de sua resistência bela e ardente”, encerram Elisabeth e Caroline.

Quem foi Úrsula K. Le Guin

Úrsula K. Le Guin foi uma renomada autora norte-americana de ficção científica e fantasia. Ela nasceu em 1929 e faleceu em 2018. Le Guin é amplamente reconhecida por suas contribuições significativas para a literatura, sendo conhecida por sua escrita inovadora e socialmente consciente. 

Alguns de seus trabalhos mais famosos incluem o Ciclo de Hainish, conjunto de romances e contos que compartilham um universo comum, onde Le Guin explorou temas de antropologia, política e sociedade. Um dos livros mais notáveis deste ciclo é “A Mão Esquerda da Escuridão,” que recebeu vários prêmios, incluindo o Prêmio Hugo e o Prêmio Nebula.

O Ciclo de Terramar é uma série de fantasia que inclui livros como “O Feiticeiro de Terramar” e “As Tumbas de Atuan”. Os romances de Terramar são conhecidos por sua exploração de temas como equilíbrio e poder, temas presentes na obra de Le Guin.

No entanto, “Os Despossuídos” é um de seus livros mais conhecidos e celebrados. Trata-se de uma ficção científica distópica que explora os conceitos de anarquismo e comunismo. Ganhou os prêmios Hugo e Nebula, bem como o Prêmio John W. Campbell Memorial.

Úrsula K. Le Guin tem uma abordagem ética e literária da ficção especulativa. Sua escrita frequentemente desafiou convenções e explorou questões sociais e políticas complexas. Le Guin deixou um legado duradouro na literatura de ficção científica e fantasia e continua sendo uma figura influente no gênero.

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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