O fascismo e as torcidas organizadas, por Andre Motta Araujo

O elemento psicológico, o machismo, o culta da violência, o punho cerrado, o grito de guerra são os efeitos do gestual fascista assemelhados ao das torcidas organizadas

Faixa antissemita exibida na torcida da Lazio: "Auschwitz vossa Pátria, os fornos vossas casas"
O fascismo italiano completa 100 anos este ano. O maior historiador do fascismo foi Renzo de Felice, falecido em 1996, com uma obra de grande porte, BREVE STORIA DEL FASCISMO. Dos vivos, Emilio Gentile é hoje o maior historiador do fascismo. Ele traça uma linha interessante entre o fascismo e o futebol, vendo estreita relação entre a ideologia da ultra-direita e as torcidas organizadas.
Gentile assinala que o LAZIO de Roma tem a torcida mais fascista entre todas, seguida pelo INTER de Milão e por dois times de 2ª divisão, o VERONA e o VARESE. O elemento psicológico, o machismo, o culta da violência, o punho cerrado, o grito de guerra são os efeitos do gestual fascista assemelhados ao das torcidas organizadas que se transportam para a America Latina, em torcidas violentas que lembram os grupos de “camisas negras” nas ruas de Roma dos anos 20 e 30, tipologias gêmeas.
A APROPRIAÇÃO DO CONCEITO FASCISTA
Gentile também se reporta ao uso inapropriado do termo “fascista” para qualquer movimento de direita e assinala que essa visão é errônea e leva a análises imperfeitas. O FASCISMO é um movimento específico delineado por eventos históricos de época como foi na Itália onde o movimento nasceu em 1919.
A Itália sai da Grande Guerra de 1914 se sentindo lesada porque não lhe foram devolvidos territórios que eram historicamente italianos.
É bom lembrar que a Itália trocou de lado na Grande Guerra ( e também na Segunda Guerra Mundial) perdendo com isso capital de manobra diplomática.
Mas o lastro social maior do FASCISMO foi a crise econômica e social do pós Guerra, com altíssimo desemprego e fome, sem que os governos democráticos de então tivessem algum tipo de solução ou projeto para sair da crise, e nesse ponto Gentile vê raízes que explicam movimentos populistas de direita e que também poderiam ser de esquerda, ambos em busca de uma saída mágica para uma crise insuperável.
Os “fascismos” nunca são iguais, assinala Gentile, embora o instrumental seja parecido. O nazismo alemão era muito diferente do fascismo italiano e em um certo sentido, muito mais anti-civilizatório, o fascismo mussoliniano não era anti-cultural e nem anti-religioso, fez um histórico reconhecimento do Vaticano como poder, mas outros movimentos equiparados ao fascismo, como o franquismo espanhol e o salazarismo português, tinham características próprias, assim como as derivações sul-americanas, como o Estado Novo brasileiro, diretamente inspirado no fascismo italiano, e o peronismo argentino e seu alicerce sindical fascista.
O fascismo italiano poderia ser tudo mas não era caótico, era um movimento organizado e dentro de seu objetivo razoavelmente eficiente especialmente na economia e na proteção  social, por isso, era popular até o momento do grande erro de Mussolini, a aliança com o Terceiro Reich – lembrando que até 1935, Winston Churchill era um admirador de Mussolini, o ponto de inflexão foi a invasão da Abissinia que atingiu o coração do imperialismo britânico na África, e levou Mussolini ao caminho da fatídica aliança com Hitler, sua perdição e tragédia do regime e da saga mussoliniana.
No Brasil, poucos se lembram da profunda aliança de Vargas com a Itália fascista, especialmente entre 1933 e 1938, quando Mussolini enviou sua filha e colaboradora, a Condessa Edda Ciano, ao Brasil para uma viagem longa, de 80 dias. Edda Mussolini percorreu todo o Brasil sendo homenageada com todas as honras pelo regime varguista e pelas colonias italianas.
A ligação do Brasil com o fascismo se projetou na legislação trabalhista, uma cópia da “Carta del Lavoro” de Mussolini, especialmente na estrutura sindical gêmea de patrões e empregados, que perdura até hoje. No pós guerra de 1945, boa parte da elite fascista emigrou para o Brasil, entre os quais um dos fundadores principais do movimento, o Conde Dino Grandi, que morou em São Paulo de 1945 a 1951, e as filhas da Condessa Ciano e netas de Mussolini, Raimonda e Zenaida, que viveram em São Paulo até seu falecimento.
A assustadora revivescência de movimentos proto-fascistas na Itália, onde há desde os anos 80 um partido politico fascista, o MSI (Movimento Social Italiano) e outros movimentos de ultra direita na Itália, Áustria, Polônia, Hungria, França, cada qual com diferenças mas  com mecanismos parecidos e hoje também  no Brasil, traz de volta a necessidade de leituras reveladoras de Renzo de Felice e Emilio Gentile, cientistas que explicam a gênese do fascismo e que trazem a conclusão histórica definida, o fascismo como ideia e movimento sempre acaba mal, a transitoriedade é sua marca histórica.
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13 comentários

    • Curiosamente o jornal VALOR deve ter tambem forçado a mão, usei como gancho um artigo desse jornal tecnicamente respeitavel especifico sobre o tema de torcidas organizadas onde a base teorica da analise é um texto de Emilio Gentile, a informação sobre o Lazio e o Inter de Milão é de Gentile,
      que é citado em todo o artigo. Qualquer artigo sobre fascismo é complicado, a analise do fascismo
      tem largo espectro de subjetivismo, há pouca concordancia academica sobre o tema.

  1. André, como você avalia as afirmações de que o Bolsonarismo é um movimento NEOfacista? Aqui mesmo no GGN foram postadas vários artigos com características do facismo e do Bolsonarismo e quase todas as características bateram, exceto o nacionalismo.

    • Curiosamente o jornal VALOR deve ter tambem forçado a mão, usei como gancho um artigo desse jornal tecnicamente respeitavel especifico sobre o tema de torcidas organizadas onde a base teorica da analise é um texto de Emilio Gentile, a informação sobre o Lazio e o Inter de Milão é de Gentile,
      que é citado em todo o artigo. Qualquer artigo sobre fascismo é complicado, a analise do fascismo
      tem largo espectro de subjetivismo, há pouca concordancia academica sobre o tema.

    • O bolsonarismo tem varios ingredientes do fascismo, o apelo a violencia, o combate as minorias, o
      apelo as soluções faceis, a negação de direitos humanos e especialmente a agitação permanente,
      a necessidade de criar conflitos e não gostar da estabilidade. Vou escrever um artigo especifico
      sobre o bolsonarismo como uma categoria do neofascismo.

  2. O texto não toca no essencial do título da postagem. Até mesmo pelo fato de que cairia num beco sem saída, como explicar a origem na classe trabalhadora de clubes (não falo do St. Pauli, o ápice do marketing esperto) ou mesmo verificar a composição de cada clube, de cada torcida.
    Além disso, tem que colocar na conta que muitos clubes – sobretudo os grandes – optaram por determinadas escolhas econômicas e deixaram seus torcedores tradicionais de lado, a começar pelo preço dos ingressos. O futebol, ironicamente, volta às suas origens, como um esporte de elite.
    O Umberto Eco tem um texto muito bom sobre o fascismo eterno e a sua opinião coloca uma relação entre futebol e fascismo.

    • O ambiente do futebol, a cupula dos clubes, as federações e confederações, a FIFA, boa parte
      da midia do futebol, tem um forte odor de fascismo, como atitudes, machismo, certo pendor para a
      violencia, a discriminação de classe, racismo, muitos ingredientes do fascismo estão no futebol.

      • Em nenhum momento eu nego estes fatos. Simplesmente o artigo não cumpre o que “promete”. Fazer um apanhado histórico do fascismo para, daí, não esmiuçar a relação entre futebol e preferência políticas foi um malabarismo.
        Pessoalmente, sou mais da atitude da torcida de um Rayo Vallencano do que de um St. Pauli (deve ser pq não tenho dinheiro pra comprar uma camisa das que vejo por aí na molecada esperta), embora aparentemente gravitem em torno das mesmas vertentes políticas. Mas como eu disse, é pessoal.
        Torcedores do Bremen brigam com torcedores do Bremen? Por qual motivo? Ultras de direita e de esquerda, torcendo para o mesmo clube.
        Enfim, o “entretenimento de massas” é um assunto complicado…

  3. Aproveitando o gancho do título do post, gostaria de falar um pouco sobre o Palmeiras. O Palestra Itália de São Paulo nasceu num contexto MUITO diferente do atual. A comunidade italiana em SP era composta de uns poucos “condes” abastados e muitos imigrantes pobres fugidos da fome em seu país. O Palestra era popular, e ser popular foi determinante para que se firmasse como rival do Corinthians, dominando o futebol paulista num sistema de 2 grandes, igual hoje em BH e Porto Alegre. Com o passar do tempo, o povão paulistano deixou de ser de origem italiana para ser de origem nordestina. A comunidade italiana ascendeu socialmente e, quem diria!, a torcida palestrina hoje é mais elitizada do que a do São Paulo, que em sua fundação abrigou órfãos do fechamento do departamento de futebol do CA Paulistano e abastados entusiastas “quatrocentões” do futebol. A rivalidade Palmeiras x São Paulo, apesar de não ser a maior da cidade, merece um bom livro e explica através do futebol as mudanças sociais da capital de São Paulo.

  4. Andre Motta Araujo,
    Não li o livro de Emilio Gentile, Breve História da Vida. Nessa quadra da vida só tenho de tantos livros que deixarei de ler. Sobre o fascismo italiano, eu frequentemente fazia a distinção entre o fascismo italiano que eu chamava de fascismo intelectual italiano, e as demais formas de fascismo.
    Quando da morte de Umberto Eco, 19/02/2016, houve bons posts sobre o que ele disse sobre o fascismo, sendo que alguns reproduzindo o texto dele sobre o que ele chamou de fascismo eterno. O interessante é que em um dos textos, Umberto Eco negava qualquer quinta essência no fascismo. É o que se pode ver junto ao post “As lições de Umberto Eco para identificar o neofascismo” de sábado, 27/02/2016 às 11:04, por sugestão de Sergio T. no seguinte endereço:
    https://jornalggn.com.br/noticia/as-licoes-de-umberto-eco-para-identificar-o-neofascismo
    Eu então passei a não mais me referir ao Fascismo Intelectual Italiano. Eu usava essa expressão pela admiração de Ezra Pound pelo fascismo italiano e por causa de uma frase que teria sido dita por Mussolini: “eu sou mais um poeta e um poeta muito louco”.
    Um tanto para o fim do ano de 2016, houve outro bom post, embora repetido, e com o texto de Umberto Eco sobre o fascismo. Trata-se do post “Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno” de sábado, 29/10/2016, com chamada de Lourdes Nassif. O texto Ur-Fascismo fora produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995. Está bastante atual. O endereço do post “Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno” é:
    https://jornalggn.com.br/entenda/umberto-eco-14-licoes-para-identificar-o-neofascismo-e-o-fascismo-eterno/
    Bem, o que eu queria indicar mais são alguns links que eu deixei junto a dois comentário que fiz para Diogo Costa junto ao post dele “O Grande Mal Estar, por Diogo Costa” de quarta-feira, 25/10/2010, no blog de Luis Nassif e de autoria de Diogo Costa que pode ser visto no seguinte endereço:
    https://jornalggn.com.br/opiniao/o-grande-mal-estar/
    Além do texto de Diogo Costa que mostra a relação entre a crise econômica dos anos 30 e o crescimento da direita radical, eu fiz dois comentários com muitas indicações de posts ou artigos que mostram a relação entre o crescimento da direita e as crises econômicas.
    Entre as minhas indicações há dois levantamentos estatísticos de que deveriam ser mais lidos. Um é de autoria de pelos seus autores, Markus Brückner e Hans Peter Grüner e cujo título é o seguinte “Economic growth and the rise of political extremism: theory and evidence” e pode ser visto no seguinte endereço em pdf:
    https://www.uni-kassel.de/fb07/fileadmin/datas/fb07/5-Institute/IVWL/Forschungskolloquium/WS10/growth-extremism.pdf
    O segundo ainda como levantamento estatístico é o artigo “The political aftermath of financial crises: Going to extremes” de autoria de Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch, e publicado em 21/11/2015, no site do VOX – CEPR’s Policy Portal e que pode ser visto no seguinte endereço:
    http://voxeu.org/article/political-aftermath-financial-crises-going-extremes
    Outro texto muito bom pode ser visto no post “Será preciso Galeanizar o mundo de Trump, por Fábio de Oliveira Ribeiro” de sexta-feira, 11/11/2016, às 06:50, no blog de Luis Nassif e de autoria de Fábio de Oliveira Ribeiro, em que ele reproduz de modo muito oportuno texto de Eduardo Galeano que mostra o fascismo como uma reação ao medo. O endereço do post “Será preciso Galeanizar o mundo de Trump, por Fábio de Oliveira Ribeiro” é:
    https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/sera-preciso-galeanizar-o-mundo-de-trump-por-fabio-de-oliveira-ribeiro
    Um texto maior mas muito bom é um artigo de Edward Luttwak que eu só vim a conhecerhá un três anos na quarta-feira, 09/11/2016, sapeando no blog de Brad de Long. Trata-se do artigo “Why Fascism is the Wave of the Future” que pode ser visto no seguinte endereço:
    http://www.lrb.co.uk/v16/n07/edward-luttwak/why-fascism-is-the-wave-of-the-future
    Creio que quase imperativo que se faça referência ao posts ou artigos que eu indiquei quando se está estudando a questão do fascismo.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 16/12/2019

    • Meu caro Clever, o tema do fascismo é realmente complexo e se projeta para nossos dias, temos hoje no mundo regimes inspirados no fascismo e porisso e necessario conhecer sua genese. De Felice e Gentile mas tambem Ecco são referenciais basicos na analise do fascismo. Se é verdade que cada
      fascismo tem muitas diferenças há todavia um elo comum a todos que é o apelo à violencia, ao
      racismo, ao desprezo dos valores do humanismo e da cultura. Como dizia um general franquista
      “quando ouço a palavra cultura, puxo o revolver”, é uma boa sintese do fascismo atemporal.
      Agradeço seu como sempre sólido comentario sobre um tema complexo.

      • Andre Araujo (terça-feira, 17/12/2019 às 10:04),
        Obrigado pelo retorno e desculpe-me alguns erros. A primeira e segunda frase deveria ser a seguinte: “Não li o livro de Emilio Gentile, Breve Storia del Fascismo. Nessa quadra da vida só tenho tempo para lembrar de tantos livros que deixarei de ler.
        Também seria preciso corrigir o trecho em que eu faço referência ao artigo “Economic growth and the rise of political extremism: theory and evidence”. Assim, corrigindo o texto ele fica assim: “Um é de autoria de Markus Brückner e Hans Peter Grüner e cujo título é o seguinte “Economic growth and the rise of political extremism: theory and evidence”.
        Não são erros que impedem o entendimento do que eu queria dizer principalmente pelos links que deixei e que considero que deveria ser mais acessados.
        Clever Mendes de Oliveira
        BH, 17/12/2019

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