O jogo da ciência: trovantis, por Gustavo Gollo

Pode uma pedra crescer? Pode uma pedra se reproduzir, ou de qualquer modo, se multiplicar? Pode uma pedra se mover autonomamente?

Formações como essa refutam a suposição de que os trovantis teriam sido gerados por terremotos e sugerem seu modo de reprodução.

O jogo da ciência: trovantis, por Gustavo Gollo

Tenho argumentado que a ciência pode e deve ser vista como um jogo de enigmas a ser jogado por todas as pessoas. Defendo que as pessoas comuns joguem ciência, solitariamente ou em grupo, inventando perguntas, buscando-as já prontas, ou reformulando as existentes, e tentando respondê-las. Quando bem jogado, esse jogo consiste em um entretenimento agradabilíssimo e extremamente absorvente que, ao contrário da maioria dos jogos possuidores desses mesmos dotes, não nos deixará com a sensação de termos perdido tempo, ao jogá-lo.

Nas linhas a seguir, descrevo um ente pouquíssimo conhecido e extravagante os trovantis, proponho umas perguntas sobre eles, critico umas respostas prévias e adianto outras.

Os trovantis são pedregulhos errantes que crescem, movem-se e multiplicam-se. Fenômenos meio extravagantes, como esse, propiciam jogos interessantes e de grau de dificuldade acessível a todos os que se interessem pelo tema.

O problema mais imediato com esse tipo de tema é seu grau de veracidade, de modo que uma das primeiras questões suscitadas ao se deparar com algo do gênero é: será que isso não passa de uma invencionice tola? A questão, naturalmente, deve ser considerada.

Tendo sido realizada tal investigação e estabelecido não ser mera invencionice, 3 perguntas se impõem de imediato:

Pode uma pedra crescer?

Pode uma pedra se reproduzir, ou de qualquer modo, se multiplicar?

Pode uma pedra se mover autonomamente?

As duas primeiras perguntas acima são respondidas afirmativamente se se considera a formação de cristais. Estruturas cristalinas tendem a repetir determinados padrões e podem crescer, em condições favoráveis. Fragmentos cristalinos desgarrados podem funcionar como esporos, ou sementes de novos cristais.

O crescimento das estalactites também atesta o crescimento de rochas, de modo que tanto o crescimento quanto a multiplicação de pedras podem ser deglutidos sem maiores estardalhaços.

A possibilidade de movimentação autônoma de uma pedra, no entanto, tende a causar estupefação. Descrenças preconcebidas, inabaláveis e frequentemente errôneas sobre fenômenos surpreendentes são extremamente comuns entre cientistas que, imbuídos da defesa de uma concepção disparatada de ciência, recusam-se a considerar a realidade de fenômenos que abalam suas noções de normalidade. Tomados pela ânsia imensa de expurgar superstições irracionais, agem como inquisidores medievais que condenassem mulheres incapazes de negar acusações de bruxaria imputadas a elas – tente provar que você não é uma bruxa (os condenados por bruxaria eram normalmente mulheres, em proporção equivalente à de seus acusadores). Lembre-se que aos olhos de quem já se decidiu, a aparência de homem, por exemplo, pode corresponder ao disfarce de uma bruxa.

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Em 1915, tendo acumulado inúmeras evidências, de diversos tipos, Alfred Wegener publicou um livro em defesa da teoria de que os continentes se movem. Embora fortissimamente apoiada por vasta quantidade e diversidade de evidências, a estranheza causada pela hipótese de que os continentes se movessem impediu, por várias décadas, que a ideia fosse aceita, fato que teria ocorrido, segundo a Wikipedia, nos anos 50s. Creio que a estimativa para o período de aceitação dessa ideia sugerido pela Wikipedia constitua uma tentativa de atenuar esse que foi um dos episódios mais patéticos na história da ciência, e que só nos 80s a deriva continental se impôs, calando finalmente os risos, chistes e acusações obtusas lançados tão frequentemente pelos conservadores aos defensores de ideias novas. Penso que a longa duração desse episódio burlesco protagonizado pelos conservadores durante todo esse tempo não deveria ser esquecida nem atenuada, mas que deveria, ao contrário, ser bastante ressaltada, lembrando aos conservadores que o ridículo que eles tentam tão frequentemente lançar sobre quem quer que ouse tentar superar suas concepções tacanhas desaba, não raramente, sobre eles próprios.

Thomas Khun, provavelmente o mais popular dentre todos os teóricos da ciência, descreve vários casos similares, considerando normal e abonando eventos similares, manifestações irracionais contrárias às inovações, perpetradas pela comunidade científica – muitas dessas atitudes irracionais nefastas, cometidas supostamente em defesa da racionalidade. Penso que a condescendência para com os conservadores seja exagerada, minimizando a nocividade da irracionalidade sempre que utilizada em defesa do conservadorismo e da imutabilidade das visões de mundo.

Espero que tal manifestação anticonservadora (com a ajuda da TV, os conservadores brasileiros parece terem conseguido se apropriar do rótulo de “liberais”) tenha espargido simpatia e nos induza a uma atitude mais liberal e tolerante. Mesmo assim, o inusitado da pergunta deverá obrigar a maioria de nós a, no mínimo, “olhar torto” para a questão:

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Poderia uma pedra se mover, por si?

Não seria a crença na movimentação das pedras uma superstição estúpida e absurdamente ilógica, dado que pedras, obviamente, não podem se mover? (Não será surpreendente que conservadores intolerantes se recusem a passar desse ponto, comportando-se de maneira dogmática e desconsiderando qualquer argumentação em defesa da possibilidade de algo encarado por eles quase que como uma afronta a seus dogmas. Oposta a essa, a atitude racional consiste, simplesmente, em ponderar argumentos favoráveis e contrários a qualquer afirmação).

Consideremos que os trovantis tenham a capacidade de absorver água e que se dilatem quando isso ocorre, retraindo-se após o ressecamento subsequente – consideração aceitável no caso de uma pedra porosa. A argumentação abaixo se baseará em tal admissão.

Penso que a aceitação de tal possibilidade imponha a possibilidade de movimentação por parte da pedra, conforme demonstra a figura.

Seja um objeto com o formato abaixo e capaz de se dilatar e contrair, conforme mostrado. Dado seu formato, ao se dilatar, o objeto – que pode ser uma pedra –, recebe de seu substrato uma força F1, para a direita, horizontalmente maior que a força contrária F2 recebida por ele, fazendo o objeto se deslocar. Ao se contrair, o objeto recebe novamente uma força maior para a direita (F3) que sua antagonista (F4), o que amplia e consolida seu movimento (o desenho abaixo exagera a diferença entre as forças antagônicas). Idealizei um formato especialmente favorável ao movimento, que não será encontrado entre as pedras. Qualquer assimetria no desenho das pedras e na distribuição de seu peso, no entanto, propiciará efeito similar, ainda que reduzido.

A alternância de chuvas e estiagem produzirá esse efeito de dilatação e contração, em uma pedra porosa, ocasionando sua movimentação em função de seu formato.

Creio que essa simples argumentação seja suficiente para estabelecer a plausibilidade da inusitada motilidade dos trovantis.

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Exulto ao descobrir que um fenômeno similar ao que eu havia idealizado teoricamente ilustre o processo de surgimento da vida. A existência do fenômeno, na magnitude encontrada, sugere fortemente uma profusão de eventos similares em escala microscópica correspondente aos que eu imaginei como originadores da vida.

Mais estranho será a explicação dos “ovos” produzidos pelos trovantis, vistos na figura.

Moral da história

Várias conclusões podem ser tiradas das considerações acima.

“Fenômenos misteriosos” do tipo tendente a atiçar a ira dos defensores de certas purezas científicas tendem a propiciar bons jogos científicos, de um grau de facilidade muito superior ao esperado, dada a raridade de reflexões em torno de temas demonizados por tais puristas. (O conhecimento de lógica, essa disciplina tão importante quanto aviltada, propicia um esclarecimento sobre temas “misteriosos” que esses paladinos dogmáticos costumam não ter).

O esclarecimento proposto no texto acima expõe a precariedade da especialização excessiva que governou o século passado. Especialistas costumam ter dificuldades em tratar fenômenos novos, diferentes dos usuais em sua área..

Mesmo alegações muito simples podem lançar novas luzes até sobre questões recalcitrantes, como a da origem da vida. Conhecimentos de áreas diversas facilitam, enormemente o conhecimento, uma das outras. Espero que esse texto ilustre claramente, para muitos jovens inteligentes, a facilidade eventual do jogo da ciência e a possibilidade de participação e de obtenção de resultados significativos pelos bons jogadores, independente de qualquer permissão por parte de doutos senhores que se propugnem detentores do conhecimento de qualquer área. Exorto todos a desconsiderar sumariamente as pretensões arrogantes dos que se consideram donos da sabedoria. A conexão entre os trovantis e a origem da vida me parecem sugestivas e dignas de atenção.

Veja também:

https://jornalggn.com.br/opiniao/o-jogo-da-ciencia-ii/

https://jornalggn.com.br/ciencia/ciencia-em-um-mundo-aberto/

https://jornalggn.com.br/opiniao/sobre-a-estagnacao-cientifica-contemporanea/

Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta

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