Os falsos catões são coisas nossas, comentário de Edgar Rocha

Quantos Florestan Fernandes ainda temos no país? Fazem falta, ou empatam a política? Quem quiser saber a resposta, verifique o sucesso de gente como Karnal entre a classe média. De esquerda e de direita.

Por Edgar Rocha
comentário no post Marcelo Adnet e a caricatura de Leandro Karnal, o profeta da ética

Acho que este negócio de ser o “falso catão” da moralidade tem mais a ver com uma questão de cultura de classe do que de postura individual. Quando falo isto me refiro a cultura da classe média, sobretudo. E não se trata apenas de uma prática disseminada. Ela é, sobretudo, tolerada. Tal tolerância, portanto, não pode ser atribuído a apenas um lado político.

O Lula ao menos, não se prestou ao mico de se levantar a bandeira da ética e vestir-se com ela como forma de se colocar acima dos demais. Neste ponto, sabendo que teria que lidar com gente bem pouco confiável, ao menos não penhorou sua sinceridade gritando aos quatro cantos que defenderia a ética a todo custo. Não dava pra ser assim. Não com um projeto conciliatório.

Ao contrário, pra defender a aprovação de projetos, teve de se prestar ao papel de exigir condescendência com ninguém menos que José Sarney e sua filha, quando o mundo lhes caiu sobre a cabeça. “Sarney tem um passado político que tem que ser respeitado”, foi o que ele disse. Pragmático, pouco sincero mas, determinante pra governabilidade. Podemos questionar se foi bonito ou se foi verdadeiramente ético ou até mesmo positivo pra nação. Mas, questionável ou não, nunca poderemos negar que ele assumiu entrar no jogo.

Já em torno de Lula e Dilma, não faltaram os tais “catões”. O maior deles, obviamente, foi o Palocci. Protegido pela causa, enfiou o pé na jaca, como o próprio Nassif já revelou e, por algum motivo, pouco se repercutiu o que ele fez com a máfia italiana. Vai ver tem catão demais com rabo preso do lado da esquerda.

Sei que muita gente não vai gostar deste comentário. Não estou sendo polemizador. Ao contrário, apenas faço um alerta. É que, enquanto não se admitir que malandragens deste tipo estão no seio da classe média brasileira como parte de sua identidade cultural (que a gente julga ser sempre do outro, nunca nossa), acho meio difícil que os anseios mais profundos dos mais pobres possam ser ouvidos. E pouco se avançará naquilo que tantos julgam necessário para a mudança do país: uma formação política e ideológica de qualidade. E isto não passa pelo abandono da ética e da moralidade.

Quanto a esta última afirmação, não posso deixar de mencionar a figura raríssima de um verdadeiro catão da moralidade, com sinceridade ideológica, prática inquestionável e história de vida exemplar. Quando José Dirceu participou de um documentário sobre Florestan Fernandes, revelou em seu depoimento o quanto a figura do professor incomodava a ele e aos que defendiam suas práticas. Dirceu reclamou da rigidez de caráter do acadêmico enquanto atuavam juntos como parlamentares: “Pô professor, me deixa ser um pouquinho pragmático!” Não adiantava fazer este tipo de muxoxo. Florestan era irredutível em seus princípios e botava o pé na porta sem dó.

Quantos Florestan Fernandes ainda temos no país? Fazem falta, ou empatam a política?

Quem quiser saber a resposta, verifique o sucesso de gente como Karnal entre a classe média. De esquerda e de direita.

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3 comentários

  1. “E pouco se avançará naquilo que tantos julgam necessário para a mudança do país: uma formação política e ideológica de qualidade”.

    Olha, meu caro, concordo com seu texto, no geral, mas acho que o buraco é mais embaixo; a questão é de fundamento mesmo: ou nos estabelecemos sob um novo ethos ou nada muda.

    Ethos, essa palavrinha grega, tão surrada, que expressa uma constância no agir contraposta ao impulso do desejo, deve contar com algumas centenas de milhares de páginas de discussão. Ou seja, a teoria abunda. A prática demanda fatores extras.

    Eu diria que um, especificamente: o colapso sistêmico decorrente da práxis – olha o grego surrado novamente aí – que nos mantém presos a uma forma de existência viciada, ineficiente e visivelmente ultrapassada.

    Em resumo: a casa precisa cair pra haver um reset social digno do termo. A viragem precisa, sobretudo, de força suficiente para quebrar paradigmas arraigados até quase o núcleo da terra.

    Chegamos a esse ponto? Na história humana muitas vezes chegou-se a ele pela guerra, por invasões bárbaras, por doenças, até pela soberba. E mesmo assim, depois de muita resistência.

    Enquanto a música tocar, o baile de máscaras continuará noite adentro.

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