Osmar Terra para Prêmio Ignóbil 2020, por Luis Nassif

Há quatro teses centrais no pensamento de Osmar Terra, ambas baseadas em “conhecimento científico”, como ele mesmo diz, que justificariam sua premiação.

Um dos grandes complexos nacionais é nunca ter tido um vencedor do Prêmio Nobel, nem de seu antípoda, o Prêmio Ignóbil – destinado a premiar as teses mais inúteis e bizarras da ciência.

Por isso, lanço aqui a campanha para transformar o médico Osmar Terra no primeiro brasileiro a vencer o Prêmio Ignóbil. Além do reconhecimento da nova ciência da era Bolsonaro, corrigirá uma injustiça histórica cometida em 2012 contra o professor de Educação Física Josimar Jorge Ventura de Morais, da Universidade Federal de Pernambuco, por sua relevante tese “As regras do futebol e o uso das tecnologias de monitoramento”. Graças a ela, conseguiu 4 anos de bolsa do CNPQ  – de 2011 a 2014 – para estudar os efeitos da lei do impedimento no futebol inglês na temporada de 2005.

A tese investe contra o uso de tecnologia para corrigir erros do juiz>

Neste trabalho, procuramos analisar o debate no mundo futebolístico acerca do uso  ou não de tecnologias para dirimir dúvidas sobre lances considerados polêmicos tais  como: se a bola entrou ou não no gol, se foi pênalti ou não, se foi impedimento ou não etc.”

Baseado em uma premissa poeticamente maravilhosa:

“O argumento (contra) baseia-se na ideia de que o futebol reflete ou espelha a própria vida. E que neste, tal como na vida, ocorrem erros e que eles devem ser aceitos como parte da própria dinâmica e emoção proporcionada por este esporte”.

Segundo o trabalho, o esporte tem que refletir as imperfeições da vida. Por isso seria relevante

“a manutenção do  fator ‘erro humano’ como parte da vida e, portanto, a manutenção dos níveis de emoção inerentes à atividade esportiva, no caso, o futebol”.

Afinal, sem o erro humano, ficaríamos privados da maior celebração das torcidas uniformizadas: xingar a mãe do juiz.

Interessei-me pela obra, depois de ter sido taxado de “petralha” pelo professor. O que comprova que há uma mesma origem na explosão posterior da ciência bolsonarista.

Se premiado, o professor Jorge se ombrearia com outros pilares da ciência, como o Prêmio Ignóbil de Medicina 2018, os urologistas norte-americanos Marc Mitchell e David Wartinger, que defenderam a tese de que andar em montanha-russa era bom para expelir pedras dos rins. Os testes foram realizados na Big Thunder Mountain Railroad na Disney de Orlando, na Flórida. Nos testes, descobriram mais: viajar no banco da frente era mais eficaz para expelir pedras do que viajar nos bancos de trás.

Na Antropologia, os vencedores foram Tomar Persson, Gabriela-Alina Sauciuce e Elainie Madsen, com estudo provando que não são apenas os humanos que imitam os chipanzés, mas também os chipanzés que imitam os humanos. Passaram 52 horas no Zoológico de Furuvik Zoo, observando os animais.

Na Biologia, uma pesquisa científica que faria o regalo de Osmar Terra: os biólogos Paul Becher, Sebastien Lebreton, Erika Wallin, Erik Hedenstrom, Felipe Borrero-Echeverry, Marie Bengtsson, Volker Jorger e Peter Witzgall conseguiram provar que os enólogos, só pelo cheiro,  conseguiam identificar a presença de uma mosca nas taças de vinho.

Na Categoria de Química, os portugueses Paula Romão, Adilia Alarcão e César Viana mediram a eficácia da lambida para limpar superfícies sujas. O estudo comprovou que o cuspe ajuda a limpar sujeira em superfícies mais frágeis.

Mas certamente o prêmio que mais seduziria nosso candidato Osmar Terra seria o do japonês Akira Horiuchi que conseguiu revolucionar o estudo da colonoscopia, aplicando o teste em si mesmo, e gerando o memorável paper: “Colonoscoscopia Sentado: Lições Aprendidas a Partir da Auto-Colonoscopia”. Mais criterioso que Terra, ele recomendou que ninguém tentasse aplicar o teste em casa.

As credenciais de Osmar Terra

Há quatro teses centrais no pensamento de Osmar Terra baseadas em “conhecimento científico”, como ele mesmo diz, que justificariam sua premiação.

Primeira Tese – A maioria dos casos de infecção ocorre dentro de casa, logo o confinamento é inútil.

O pensamento convencional imaginaria que, se a morte ocorreu em casa, significa que alguém trouxe o vírus da rua. Mas, assim como o terraplanismo e o criacionismo, o grande Terra vai buscar no seu contemporâneo Jean Baptista van Helmont (1580-1644), médico e alquimista, a teoria da geração espontânea: o virus nasce em casa, e não se fala mais disso.

Em 1643, portanto um ano antes de sua morte, Von Helmont desenvolveu a teoria de que se colocasse uma camisa suja e sementes de trigo em um recipiente, 21 dias depois nasceriam espontaneamente murganhos, pequenos roedores.

Ao contrário de Terra, Helmont deixou contribuições relevantes em outros campos da ciência.

Segunda tese – Se há o isolamento e a curva aumenta, significa que o isolamento não funciona.

Equivale, mais ou menos, ao seguinte: se uma dose xis de antibiótico não foi suficiente para curar uma infecção, significa que antibióticos não curam infecções. Não é genial? Liquida com essa mania de pretender definir dosagem ideal ou insuficiente. E, se sem antibiótico, a infecção aumentar, tasque de primeira: com antibiótico, não seria diferente. E enfatize que sua afirmação tem por base conhecimento científico.

Todos os países que experimentaram explosão de coronavirus aderiram ao isolamento. E a taxa de contaminação diminuiu. Para Terra diminuiu porque, antes, houve a explosão de contaminação. Ou seja, o mérito é da explosão do coronavirus, não do seu combate. E nem se venha com argumentos de que, sem isolamento, a contaminação aumentaria.

Terceira tese – é só fazer como foi feito na dengue.

Na epidemia da dengue, em 2015, foram montadas barracas na praia para atendimento das vítimas. O tratamento, em questão, consistia em fornecer hidratação rigorosa ao paciente e aconselhar ao não uso de medicamentos, como ácido acetilsalicílico e outros salicilatos e anti-inflamatórios.

No caso do coronavirus, há a necessidade de UTIs, respiradores, tratamentos complexos.

Mas para o bravo Terra – segundo afirmou ontem no debate da Globonews – não há diferença entre panela e pinico, o que traz fundadas suspeitas de que a cozinha de sua casa deve ser uma confusão só.

Quarta tese – curva é curva, não importa seu tamanho.

Para comprovar que isolamento não resolve, Terra resolveu comparar a Alemanha com os Estados Unidos. Mostrou um gráfico do New York Times, em que eram iguais os formatos das curvas epidemiológicas de ambos. Deixou de lado o essencial: curva dos EUA era para 22.719 mortes, enquanto para a Alemanha era para 5.344 mortes.

Significa a seguinte descoberta científica: um local em que o número de infectados saltou de 1 para 2 teve a mesma curva de crescimento (100%) de outro em que o número saltou de 10.000 para 20.000.

Vai para o trono ou não vai?

PS – na foro do Twitter ele aparece com seu orientador científico, Jair Bolsonaro, ele mesmo.

As previsões de Osmar Terra

2009, sobre gripe suína  – “o risco é inferior ao da gripe comum. O fato de ter morrido uma pessoa no estado (do RS) é circunstância lotérica”. Naquele ano, morreram 2.098 pessoas no país.

15 de marçoem seu Twitter rebateu críticas sobre a falta de UTIs para enfrentar o coronavirus. “Teremos sim leitos de UTI necessários para atender demanda do coronavírus. Nossa rede de UTIs é grande e não estamos no inverno. Mas, se necessário, poderemos ampliar essa rede em poucos dias como fizemos na epidemia do H1N1″

18 de marçoo coronavirus matará menos pessoas do que a gripe suína.

31 de marçopreviu novamente que o coronavirus matará menos pessoas que a gripe suína e defendeu fim da quarentena. “Estou me baseando em dados científicos”.

8 de abril –  Vai morrer mais gente de gripe sazonal, no inverno, no Rio Grande do Sul (950 pessoas, em média), do que com o coronavirus em todo o Brasil. Três dias depois, esse número era ultrapassado pelo coronavirus.

13 de abril“Eu estou convencido que o pico é agora, e termina em maio”.

 

 

 

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