Em sua obra “Memórias Sentimentais de João Miramar” (1924), o escritor Oswald de Andrade usou uma quantidade imensa de recursos expressivos. Neste momento, entretanto, apenas um deles me interessa: o emprego de vocábulos e expressões de línguas estrangeiras.
Inglês
dancing
It is very beautiful!
board-house
Albany Street
Francês
habitué
Mademoiselle
tour du monde
goudron-citron
Espanhol
encuentro de ustedes
Italiano
si sinhore
Latim
Res non verba!
A obra de Oswald de Andrade registra também uma variante do português resultante da influência da migração árabe:-
“- Aqui nong teng acordo. Teng pagamento!” (Cap. 148)
Num determinado momento, Oswald de Andrade fez seu personagem falar todas as línguas e língua nenhuma:-
“…Os Estados Unidos é cotuba. All right. Knock Out! I and my sisters speak french. Moi et ma soer nos savons paletre bien le Français. Eu e a minha ermam sabemos falal o francês…” (Cap. 68)
Ao destruir e reconstruir diversas línguas em busca de novos significados e formas de expressão, Oswald de Andrade deve ter escandalizado seus contemporâneos. Ainda hoje a leitura de passagens como estas causam certo incomodo, apesar deste recurso estilístico ter sido popularizado por Umberto Eco.
“Penitenziagite! Vide quando draco venturus est a redearla tua alma! La mortz est super nos! Implora que venha o santo papa para nos libertar-nos a malo de todas las peccata!… Quando mais tarde soube de sua vida aventureira e dos vários lugares em que vivera, sem encontrar raízes em nenhum percebi que Salvatore falava todas as línguas, e nenhuma…” (Umberto Eco, O Nome da Rosa, Record, 1986)
O fragmento acima transcrito elucida como o personagem Salvatore fala uma língua que mistura latim, italiano, francês, espanhol, etc…, ou seja, fala todas as línguas e nenhuma exatamente como o personagem de Oswald de Andrade.
É impossível dizer se Umberto Eco conhecia a obra de Oswald de Andrade quando escreveu seu livro. Certo é, contudo, que o escritor brasileiro o antecedeu em pelo menos 56 anos no uso do recurso estilístico mencionado.
Deixe um comentário