4 de junho de 2026

Oswald de Andrade e Umberto Eco: paralelos literários

Em sua obra “Memórias Sentimentais de João Miramar” (1924), o escritor Oswald de Andrade usou uma quantidade imensa de recursos expressivos. Neste momento, entretanto, apenas um deles me interessa: o emprego de vocábulos e expressões de línguas estrangeiras.

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A obra de Oswald de Andrade registra também uma variante do português resultante da influência da migração árabe:-

“- Aqui nong teng acordo. Teng pagamento!” (Cap. 148)

Num determinado momento, Oswald de Andrade fez seu personagem falar todas as línguas e língua nenhuma:-

“…Os Estados Unidos é cotuba. All right. Knock Out! I and my sisters speak french. Moi et ma soer nos savons paletre bien le Français. Eu e a minha ermam sabemos falal o francês…” (Cap. 68)

Ao destruir e reconstruir diversas línguas em busca de novos significados e formas de expressão, Oswald de Andrade deve ter escandalizado seus contemporâneos. Ainda hoje a leitura de passagens como estas causam certo incomodo, apesar deste recurso estilístico ter sido popularizado por Umberto Eco.

“Penitenziagite! Vide quando draco venturus est a redearla tua alma! La mortz est super nos! Implora que venha o santo papa para nos libertar-nos a malo de todas las peccata!… Quando mais tarde soube de sua vida aventureira e dos vários lugares em que vivera, sem encontrar raízes em nenhum percebi que Salvatore falava todas as línguas, e nenhuma…” (Umberto Eco, O Nome da Rosa, Record, 1986)

O fragmento acima transcrito elucida como o personagem Salvatore fala uma língua que mistura latim, italiano, francês, espanhol, etc…, ou seja, fala todas as línguas e nenhuma exatamente como o personagem de Oswald de Andrade.  

É impossível dizer se Umberto Eco conhecia a obra de Oswald de Andrade quando escreveu seu livro. Certo é, contudo, que o escritor brasileiro o antecedeu em pelo menos 56 anos no uso do recurso estilístico mencionado. 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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