Vaza Jato mostra como a Lava Jato tentava acessar provas por baixo dos panos

Diálogos de procuradores de Curitiba mostram tentativa aparentemente infrutífera de "quebrar" dois sistemas de pagamento de propina da Odebrecht

Jornal GGN – Era agosto de 2016. Um ano antes de a Odebrecht assinar o acordo de leniência e se dispor a compartilhar com procuradores o que ainda dispunha de acesso aos sistemas MyWebDay e Drousys, onde registrava os pagamentos de propina. Em um chat no Telegram, o procurador Paulo Roberto Galvão [foto] abre uma conversa sobre pedido informal de ajuda ao FBI para entrar nos dois sistemas. Até a contratação de um hacker indicado pelos norte-americanos foi cogitada.

As mensagens de Telegram divulgadas pela Agência Pública na noite de terça (30) mostram como os procuradores de Curitiba, e também os do Distrito Federal, sentiam-se confortáveis para pedir ajuda diretamente ao FBI ou via embaixadas, para acessar as provas da Odebrecht de maneira informal, e antes de assinar o acordo de colaboração da empresa.

Em uma das mensagens, o procurador Roberson Pozzobom diz expressamente que “dispositivos foram enviados até o FBI [antes do acordo de leniência oficial] para ver se seria possível acessar [os sistemas da Odebrecht] sem as senhas.”

No final dessa história, a Odebrecht foi processada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (sigla em inglês DOJ) e pagou uma empresa no valor de $ 2,6 bilhões dólares.

A iniciativa era de conhecimento do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que também teria travado conversas com adidos norte-americanos para obter a ajuda.

Pelos diálogos divulgados pela Agência Pública, a investida foi infrutífera. O acordo de leniência saiu em 2017 e a Odebrecht tampouco conseguiu oferecer acesso à integra dos arquivos nos sistemas MyWebDay e Drousys.

No curso da operação Lava Jato, alguns advogados chegaram a levantar a hipótese de manipulação dos dois sistemas para ajudar na narrativa que incrimina alguns réus. A força-tarefa sempre negou qualquer fraude, com a mesma veemência que nega que tenha feito cooperação internacional à margem da lei.

Leia também:  No Roda Viva, Mandetta diz que principal arma do Brasil na pandemia não foi usada por falta de EPI

Além de apelar para os Estados Unidos, Galvão também informou no chat dos procuradores que tinha esperança de que autoridades suíças conseguissem ajudar a entrar nos sistemas da Odebrecht.

A pré-disposição da Lava Jato em Curitiba em passar por cima da lei para ter colaboração do FBI também ficou escancarada em diálogo travado em 2016, quando Deltan Dallagnol admitiu que prisões no exterior eram antecipadas diretamente aos norte-americanos, antes mesmo de Sergio Moro decretá-las, e os procuradores da República, junto com  a Polícia Federal, achavam “conveniente” que o Ministério da Justiça sob Dilma Rousseff não ficasse sabendo de nada.

Pelo tratado de cooperação assinado por Brasil e EUA, o Ministério da Justiça é a autoridade central e deve acompanhar todos os trâmites de pedidos de colaboração entre os dois países.

Em 2019, o GGN lançou em primeira mão uma série inédita, de 5 capítulos no Youtube, sobre a influência dos Estados Unidos na Lava Jato. O projeto foi financiado coletivamente pelos leitores. Clique aqui para conferir a playlist no Youtube.

GGN PREPARA DOSSIÊ SOBRE SERGIO MORO.
SAIBA COMO AJUDAR NO PROJETO INDEPENDENTE AQUI

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. “Em uma das mensagens, o procurador Roberson Pozzobom diz expressamente que “dispositivos foram enviados até o FBI [antes do acordo de leniência oficial] para ver se seria possível acessar [os sistemas da Odebrecht] sem as senhas.””
    E se os norte-americanos conseguiram efetivamente acessar os sistemas, mas não compartilharam o resultado com os “espertos detetives” locais? É muita sabujice traidora, crime mesmo.

  2. Aguardando a frase histórica e canalha do advogado da Globo no STF, Barroso, sobre os novos vazamentos do intercept: “há mais fofocas do que fatos”.

  3. Relatórios financeiros, carteira de futuros clientes e, principalmente, a estratégia da empresa para o mercado global, tudo entregue de bandeja para os concorrentes americanos…
    fosse num país com instituições sérias ou autênticas, um STF, por exemplo, já teria concluído que os fdp do januário fizeram da traição a sua linha de ação

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome