21 de maio de 2026

A eleição de 2026 em perspectiva, por Paes de Sousa & Leitão

Na campanha, as ações do governo serão mais bem percebidas, de modo que o eleitorado poderá comparar e reconhecer a melhoria do seu bem-estar
Foto de Ricardo Stuckert - PR

Crescimento de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto anima setores conservadores e reforça polarização na eleição de 2026.
Governo Trump tenta interferir nas eleições brasileiras, mas Brasil resiste a pressões e rejeita visitas indesejadas.
Pesquisa mostra alta desaprovação do governo Lula, com apoio concentrado no Nordeste e rejeição entre evangélicos e jovens.

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Nem inferno astral nem céu de brigadeiro: a eleição de 2026 em perspectiva

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Rômulo Paes de Sousa e Carmem Leitão

Quem leu o noticiário político pelas lentes dos porta-vozes dos grandes jornais passou a crer que a semana que passou foi pródiga em notícias ruins para o Governo Lula, como se, a sete meses da eleição, o presidente houvesse entrado em seu inferno astral. O crescimento da intenção de voto do senador Flavio Bolsonaro, a explícita intervenção que o governo Trump pretendia impor ao governo brasileiro, o cerco contra o STF e a elevação do ministro André Mendonça como o grande legalista do momento, a tentativa de implicar o governo com as trapalhadas do banqueiro Vorcaro, as ameaças, que a guerra do Irã podem trazer para a exportação de commodities do Brasil. Muitos articulistas viram nesse cenário uma tempestade perfeita para a candidatura do presidente e reintroduziram o projeto de uma terceira via para a disputa presidencial.

É fato que o crescimento de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto tem entusiasmado setores conservadores no Brasil e nos EUA. A reiterada estratégia de apostar no tema da corrupção, tentando responsabilizar o governo pelo escândalo da vez. Alguns políticos, como o presidente do PSD, Gilberto Kassab, também tentam convencer que o ambiente polarizado seria favorável a um candidato de centro no segundo turno, devido à elevada taxa de rejeição de o presidente Lula e de o senador Flávio Bolsonaro. Contudo, a consolidação antecipada de dois nomes neste momento do ciclo eleitoral constitui cenário incomum em comparação com outras campanhas presidenciais. Trata-se da maturação de um confronto que está em desenvolvimento, desde 2017, quando o comando da banda direitista da nação brasileira foi capturado pela dinastia Bolsonaro.

Dessa maneira, o senador Bolsonaro parece já ter ocupado o estoque disponível da intenção de votos direitista no país. Suas iniciativas agora se voltariam para consolidar e ampliar presença sobre o diminuto grupo de eleitores que não estão comprometidos com as duas grandes forças que disputam os votos presidenciais no Brasil. O senador passou a implementar a estratégia já definida em fevereiro, como o uso da linguagem neutra, e mensagens endereçadas às comunidades LGBTQI+ e negras.

Esse crescimento nas intenções de voto pode ter estimulado que membros do staff do presidente Trump que apoiam a causa bolsonarista ganhassem liberdade de ação imediata. Porém, o Palácio do Planalto e o Itamaraty sempre tiveram em conta que o presidente Trump tentaria interferir nas eleições brasileiras. A trégua com o governo Lula estava vinculada ao esforço de diminuir as reações regionais à intervenção na Venezuela. Constrangimentos e humilhações fazem sempre parte do cardápio diplomático de Trump. As tentativas de classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, a solicitação de que o Brasil receba estrangeiros capturados nos EUA e a desastrada tentativa de visita de Darren Beattie, que é conselheiro sênior para política brasileira no Departamento de Estado dos EUA e próximo da família Bolsonaro, mostram que o governo norte-americano buscará ter relevância no processo eleitoral brasileiro. O que se desenhava era que os EUA desejam criar uma justificativa legal para atacar bases e embarcações atribuídas às organizações criminosas citadas e que a visita do assessor Beattie favoreceria a tese de que Bolsonaro seria um preso político e geraria constrangimento ao ministro Kassio Nunes Marquesao debater o sistema eleitoral brasileiro.

As dificuldades da guerra no Irã dificultaram que o governo norte-americano reagisse ao veto brasileiro à visita que se mostrou indesejada e à rejeição em converter o Brasil em extensão do sistema prisional americano. 

As pesquisas de opinião publicadas na última semana, nos dão algumas pistas sobre como tantos temas podem interferir no humor do eleitorado brasileiro. A economia, que marcou uma queda acelerada na desaprovação do governo em todos os segmentos entre o final de 2024 e o início de 2025, ressurge como um fator muito preocupante. É provável que a guerra no Irã esteja associada a esse prognóstico negativo.

As pesquisas do Datafolha, Ideia e Quaest de março convergem em demonstrar margem ainda alta de desaprovação do governo, entre 49% e 51%. Contudo, o governo Lula possui forte apoio no Nordeste, entre pessoas com menor escolaridade, idosos e católicos. A desaprovação se concentra nas demais regiões do país, entre homens, jovens, eleitores com maior escolaridade e evangélicos. Reconhecidas como segmento fundamental na eleição de 2022, as mulheres apresentam leve oscilação na aprovação ao longo do período com pequena predominância da desaprovação (48%) em março, de acordo com a pesquisa Quaest, indicando um cenário relativamente dividido entre as eleitoras.

Com esses dados, é possível delinear estratégias de manutenção e de ampliação do apoio, tanto por meio de ações governamentais concretas, quanto por meio de elementos comunicacionais relevantes para a disputa de narrativas. Nessa direção, o governo já está atento às questões das mulheres, particularmente no que se refere ao enfrentamento do feminicídio, que, apesar de ser um problema persistente, só agora começou a entrar na agenda pública. A questão dos evangélicos permanece como entrave importante. Com elevada penetração na população de baixa renda, segmento em que o presidente Lula recebe maior apoio, os evangélicos têm demonstrado ainda uma rejeição muito significativa. Quando a campanha for iniciada, as ações do governo serão mais bem percebidas, de modo que o eleitorado poderá comparar e reconhecer a melhoria do seu bem-estar, ocorrida nos últimos 3,5 anos, e passe a apostar na sua continuidade.

Os cálculos e as negociações sobre os arranjos necessários para dar início ao processo eleitoral ainda estão em curso. O cenário ainda continua indefinido em vários estados. Em Minas Gerais, estado sempre decisivo em campanhas presidenciais, as negociações ainda estão confusas. O PT ainda espera a decisão de Rodrigo Pacheco (PSD). Para o governo paulista, Fernando Haddad é novamente a aposta em uma campanha desafiadora para a esquerda. As relações entre Eduardo Paes e o PT estão pacificadas, no RJ. O Nordeste e o Norte têm exigido também atenção, especialmente quando considerados os novos arranjos estaduais, que inclemi coalizões de direita e extrema-direita em crescimento.

A rápida evolução de Flávio Bolsonaro é, basicamente, resultado da identificação ideológica de parte da população com a extrema-direita e do ímpeto de oposição ao Partido dos Trabalhadores (PT). Por enquanto, ele e o PL têm feito alguns esforços de articulação a nível nacional e local, tentando sinalizar simpatia para o centro e demonstrar capacidade de articulação para a definição dos arranjos políticos estaduais.

Em que pese as dificuldades de o governo ampliar a sua aprovação mediante o ambiente hostil e instável que está imerso, não se pode subestimar a capacidade de quem está no governo. A despeito do que sugerem os grandes jornais em seu projeto político-editorial, o presidente Lula é o candidato favorito a vencer em outubro por ter os instrumentos políticos que o mandato lhe confere, por o escândalo do Banco Master afetar em especial os políticos do centrão e bolsonaristas, pela baixa efetividade que o governo Trump tem demonstrado ao tentar interferir nas eleições de outros países, pela dificuldade de coesão dos direitistas nos palanques nacional e estaduais.  Porém, há uma eleição muito difícil pela frente. Não estamos, nem diante de um inferno astral, nem muito menos de um céu de brigadeiro.

Rômulo Paes de Sousa é coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Carmem Leitão é professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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