13 de junho de 2026

Autocracia made in USA, por José Manoel Ferreira Gonçalves

Gisele Agnelli publicou obra fundamental sobre o tema e traça diagnóstico contundente da sociedade americana numa encruzilhada.

Agentes federais mataram dois manifestantes desarmados em Minnesota durante protestos contra ocupação federal em 2026.
Desde 2025, governo Trump desmonta instituições democráticas e persegue opositores, aumentando repressão e intimidando dissidência.
Setenta e cinco mil mineiros fizeram greve geral contra o autoritarismo, enquanto o governo ameaça usar militares para conter protestos.

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Autocracia made in USA

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por José Manoel Ferreira Gonçalves

Quando a repressão chega mascarada

O inverno de 2026 desenhou cenários inimagináveis nas ruas de Minneapolis. Agentes federais armados até os dentes patrulhavam bairros residenciais enquanto o governo federal ameaçava invocar a Lei de Insurreição contra cidadãos que protestavam pacificamente. A cena repetia padrões que historiadores associam a regimes que abandonaram a democracia. A diferença é que este espetáculo ocorria no coração dos Estados Unidos.

A escalada autoritária não surpreendeu quem acompanhava os sinais. Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025, instituições democráticas enfrentaram desmonte sistemático. O Departamento de Justiça transformou-se em ferramenta de vingança pessoal. Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, virou alvo de investigação criminal após resistir a pressões políticas sobre juros. A mensagem era clara: independência institucional configura crime contra o poder.

A operação em Minnesota revelou a face violenta desta transformação.

Em janeiro, agentes do ICE mataram dois manifestantes desarmados. Renée Good, mãe de três filhos, morreu após deixar o filho na escola. Alex Pretti, enfermeiro de terapia intensiva, estava documentando abusos com o celular quando agentes federais o alvejaram. Ambos exerciam direitos constitucionais básicos. Ambos viraram estatísticas de uma política deliberada de intimidação.

A resposta popular surpreendeu pela magnitude.

Cerca de setenta e cinco mil mineiros abandonaram o trabalho em plena terça-feira de inverno, enfrentando temperaturas negativas para exigir o fim da ocupação federal. Igrejas transformaram-se em abrigos. Sindicatos articularam a maior greve geral do país em décadas. A resistência organizada mostrou que a sociedade civil mantém fôlego para enfrentar o avanço do autoritarismo.

O governo reagiu com discursos beligerantes. Trump ameaçou ativar a Lei de Insurreição, permitindo o uso de militares contra civis. A retórica apelava para velhos medos e culpava as vítimas pela violência estatal.

O índice de erosão democrática publicado pelo New York Times em outubro de 2025 mediu doze categorias de degradação institucional. A escala vai de zero, representando a democracia pré-Trump, até dez, equivalente a autocracias consolidadas como Rússia ou Irã. Em fevereiro de 2026, o jornal recalibrou a categoria “sufocamento do discurso e dissidência” para o nível quatro. O movimento reflete a realidade de mineiros mortos por exercerem liberdade de expressão.

Neste cenário, a cientista política Gisele Agnelli publicou obra fundamental sobre o tema. Em Autocracia made in USA, lançado pela Kotter Editorial, a autora traça diagnóstico contundente da sociedade americana numa encruzilhada. A pesquisadora, que reside há anos nos Estados Unidos, recupera fatos e dados para expor as estratégias do movimento ultraconservador na construção de uma nova estrutura de poder. O livro funciona como autópsia escrita enquanto o corpo da nação é asfixiado, alertando que a democracia é construção diária e frágil.

A perseguição estende-se além das ruas. O Departamento de Justiça abriu investigações contra adversários políticos sistemáticos. Membros do Congresso democrata enfrentam escrutínio legal por vídeos onde orientavam militares a desobedecerem ordens ilegais. O FBI revistou residências de jornalistas que expuseram falhas governamentais. A mensagem ecoa em cadeia: crítica ao poder gera punição.

Universidades viraram alvos preferenciais.

Corte de verbas em pesquisas científicas buscou domesticar centros de pensamento independente. Estudantes estrangeiros perderam vistos por posições políticas sobre conflitos internacionais. A administração tenta construir um vácuo informativo onde apenas a versão oficial circule sem contestação.

A construção do culto à personalidade avança em paralelo. O governo federal vende cartões dourados com o rosto presidencial por um milhão de dólares. O presidente reescreve normas eleitorais por decreto, tentando federalizar administrações estaduais.

Ainda não vivemos uma ditadura completa. Tribunais, embora pressionados, ainda invalidam algumas arbitrariedades. Mas cada protesto reprimido com violência, cada investigação política, cada mentira institucionalizada aproxima o país de um ponto de não retorno.

A democracia americana não morreu de repente. Ela enfraquece por cortes sucessivos, normalizando o excepcional até que a autocracia made in USA pareça alternativa razoável. O perigo mora exatamente nesta banalização gradual.

A resposta mineira oferece contraponto esperançoso. Quando setenta e cinco mil pessoas interrompem a rotina econômica em defesa de estrangeiros perseguidos, reafirmam valores fundamentais. A solidariedade operária desafia a lógica do medo.

A história mostra que democracias morrem quando sociedades aceitam violência estatal como preço da segurança. O segundo mandato de Trump testa estes limites diariamente. Agentes federais assassinam cidadãos sem consequências. O Departamento de Justiça persegue inimigos pessoais do presidente. As instituições de controle balançam perigosamente.

O que vemos em Minnesota é a produção em série mesmo de uma autocracia made in USA. O produto ainda não saiu totalmente da linha de montagem. Mas a fábrica opera em regime de urgência.

A questão que resta é se o povo americano aceitará este modelo importado de regimes decadentes. Ou se a resistência popular encontrará forças para desmontar a linha de produção antes que o produto acabado seja entregue.

José Manoel Ferreira Gonçalves – Engenheiro, advogado e jornalista

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Caroline

    9 de fevereiro de 2026 3:59 pm

    Concordo com todos os tópicos discutidos aqui e a pergunta que faço e ate quando daremos a atenção necessária as coisas importantes.

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