Carta para não morrer, por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Há um encontro, em - com – o - outro. Sempre haverá. Nos pátios, nas ruas, nas cartas e nos diálogos possíveis.

Por Cristiane Corrêa de Souza Hillal*

Em 1977, quando o professor Goffredo da Silva Telles Junior chamou os moços das Arcadas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco para ler a “carta aos brasileiros”, em que declarava fidelidade “indefectível e operante” aos princípios da democracia e à luta pelos direitos humanos contra toda forma de ditaduras, a moça, entre tantos moços, que foi sua aluna em 1946 e que se tornaria uma das maiores escritoras do Brasil, não era mais a destinatária de suas cartas de amor.  

Me leia. Não me deixe morrer” pediu a moça, Lygia Fagundes, que viveria até bem recentemente, para sempre incorporada ao Telles do seu professor.

A fé no poder das cartas não vem apenas de Goffredo e Lygia. Freud e Einstein trocaram algumas das cartas mais famosas da história do pensamento humano. Apesar de tanta genialidade, os dois homens não se bastaram em ciência e inconsciente. Diante do horror da morte, e sob os olhos ansiosos de toda a humanidade assombrada pelo crescimento do totalitarismo no mundo, os gênios se curvaram sobre cartas entre o período sangrento das duas grandes guerras para tentar responder, afinal, por que a guerra?

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Pensar, buscar de alguma forma explicar ou simbolizar o horror, escrever e ler cartas… a humanidade jamais desiste de sua imagem de humanidade. 

Em 1977, o casamento de Goffredo e Lygia já havia acabado, mas a vida e as palavras seguiam. Naquele ano, a ditadura civil-militar no Brasil já deixava inconteste, até para os mais desavisados, o rastro de dor, morte e sombra que até hoje nos acompanha. Em momentos cruciais, em que a sombra vai se agigantando, emerge a sede das palavras. Das cartas.  Ao que parece, as cartas eternizam diálogos que queremos fazer com outros, e com o Outro, quando nos desencontramos de nós mesmos.

O Brasil vive, desde 2016, um imenso desencontro. Para não nos perdermos de nós, o filósofo Francisco Bosco lançou, recentemente, um livro sobre diálogos, mas, realista, já sai no título da obra em alerta: é o “possível”. Em “O diálogo possível, uma reconstrução do debate público brasileiro”, o intelectual defende que dois dos nossos maiores sustentáculos imaginários, a cultura popular como unificadora de uma instância de reconhecimento de uma comunidade nacional e o pacto democrático que achávamos ter, foram abalados.

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Diz Chico Bosco: “a cultura popular foi perdendo poder à medida que foi se tornando cada vez mais aguda a consciência de que sua dimensão simbólica, com efeitos sociais e econômicos limitados, não poderia continuar servindo como álibi para o insuperável déficit de democratização do país. A obra revolucionária dos Racionais MC’s marca o momento em que essa consciência passa a emergir no interior da própria cultura popular, abrindo um fosso dentro dela (…) Sobrevivendo no inferno está para a MPB como O genocídio do negro brasileiro está para a Casa-grande & Senzala.”, conclui ele.

E prossegue: “Se a cultura popular era a instância fundamental da comunidade imaginada brasileira, o outro ponto de consenso das últimas décadas era o repúdio à ditadura militar e o pacto democrático”. Nesse sentido, a volta à cena do discurso de um imaginário social militarizado e armado, com o apoio de um governo eleito, traz o retorno do espelho que pensávamos ter ultrapassado.  

“À volta dos que não foram, o percurso começa na própria ditadura com um ressentimento contra a esquerda que dificultaria a deposição política das armas no futuro. O lance decisivo acabaria sendo a instauração da Comissão da Verdade. Sua tentativa de realizar um luto, uma justiça de transformação definitiva das Forças, como realizado por outros países, produziu um enorme ressentimento nos militares. Quando se fez o amplo movimento de indignação nacional deflagrado pela Lava Jato, a direita tomou as ruas, a esquerda se enfraqueceu e um candidato conservador e organicamente ligado ao exército se apresentou – o ressentimento militar encontrou seu kairós e montou de novo no cavalo selado da política, seu fruto proibido”, reflete Bosco.

Na tentativa de um reencontro simbólico e conceitual deste Brasil sufocado por suas feridas mal curadas, eis que ressurge da memória a carta de Goffredo. Inspirada naquela, uma nova carta vai ser lida. No mesmo lugar. Moços e, agora, muito mais moças também, são chamados, novamente, no próximo dia 11 de agosto de 2022, nas Arcadas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo para ouvir a leitura da “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!” A carta, que começou com 3000 assinaturas de juristas, artistas e intelectuais, já tinha, em menos de 48 horas de sua abertura na rede social, mais de 400 mil assinaturas.

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Entre os nomes de Chico Buarque, Padre Júlio Lancelloti, Djamila Ribeiro, intelectuais de renome, juristas, ativistas e vários expoentes políticos, estão 12 ex-ministros do STF, alguns banqueiros e uma legião de democratas de última hora.

Onde estará, no dia 11 de agosto, a elite financeira de nosso país ainda segue sem resposta. Seguirão na Faria Lima, de malas prontas para Miami, ou migrarão para o centro pulsante de São Paulo, entre maltrapilhos e engravatados empolados?

Otários, cínicos ou oportunistas. Hipócritas, covardes, ingênuos, equivocados ou arrependidos, estão todos chamados nesse momento crucial em que o golpe contra a democracia, aquele mais padrão, literal e tosco, que não consegue se esconder na misoginia nossa de cada dia, já foi anunciado.

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É agora. Já. Sem titubeios. Uma carta vai ser lida por homens brancos, cis-hetero-normativos e que usam gravatas. Aproveitemos. Lotemos o espaço sisudo dos pátios das arcadas, ao lado deles, de gente negra, gay e maltrapilha que dirá que a tortura nunca acabou.      

“Cadáveres no poço, no pátio interno”, grita Racionais. Levemos os cadáveres do genocídio negro para o pátio da Academia. Lembremos que o sangue nunca deixou de jorrar como água. Ratatatá é o ontem, o sempre, o até hoje. Vamos unir o choro de Marias, Clarices e Raimundas e das mulheres que nunca deixaram de se despedaçar por homens covardes, tão assustadoramente talentosos na performance dos bons sujeitos cumpridores de deveres morais.

Enquanto os 400 mil nomes seguirem se multiplicando, debruçados em uma carta que não nos deixa morrer, estaremos ouvindo podcasts de Mano Brown confrontando a fronteira da palavra da periferia e das academias. Seguiremos em catarse coletiva, ao som do violão do nosso João Bosco, que entre tantas músicas geniais de sua parceria com Aldir Blanc, também colocou Francisco Bosco no mundo. João, que não sabe envelhecer, nos lembra que tá lá…. bem ali…. “tá lá o corpo estendido no chão”. Nas favelas e, veja só, também dentro do prédio do Ministério Público de São Paulo.

A dor afronta todos os muros. Estão lá e aqui, estatelados no chão os corpos esgarçados de dor e angústia, precocemente ceifados dos prazeres possíveis dessa vida. Estaremos, nos pátios, nas favelas, dentro das instituições, chorando por todos esses corpos, “chorando em iorubá e orando por Jesus”, apelando, sempre, pelo diálogo, aquele possível, dentro do impossível que é essencialmente todo diálogo.

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“Da lama nasce uma flor”, grita de longe, e visceralmente, a cantora Laila Garin. Da Macabéia de Lispector à potência criativa de Chico César, somos vermelho esperança, do sangue, da rosa, do coração que ainda pulsa, e pulsa tanto, que pede socorro na voz de Arnaldo Antunes porque já “não sente nada”. Somos abricó de macaco, a flor Amazônica que pai e filho, juntos, rompendo gerações, nos dedicam, para que possamos enxergar a complexidade de uma nação e a esperança na desolação sem precedentes de uma, muitas noites frias em que a beleza do amor nos dá hipocritamente as costas.

Na linda composição do filho filósofo e do pai músico “se conciliam “Nanã Buruquê, Oxum, Jesus e um sambalelê nas escadas da sé. Milles Davis e os pivetes da cidade”, como resumiu Chico Bosco, sobre o álbum magistral do pai, que leva o nome de flor. Orixás, santos, mitos e gentes, todo o mundo que sente, e que já não sente, está esperado dia 11, lá nas Arcadas.

Se estiverem todos, todas e todes por lá, com seus corpos livres, diversos e dançantes, poderemos, quem sabe, de Racionais a Boscos, sonhar com nosso “des – recalque” coletivo das tantas dores constitutivas e invisibilizadas dessa nação de feridas encobertas pela pele dos lindos azulejos portugueses, que Adriana Varejão arranca na pinacoteca para mostrar o horror escravocrata de nossa cultura colonial que normaliza violências dr Estado. Temos cores, corpos e histórias e elas nos convocam à luta contra o ódio e os silenciamentos.

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Não pediremos mais perdão por nossos filhos que “morrem de bruços no Salmo 23, sem padre, sem repórter, sem arma, sem socorro, enquanto Adolf Hitler ri no inferno”.

Não perguntaremos mais se a vida fez de nós os bêbados trajando luto, alienados de nós mesmos, pateticamente acomodados na vida aparentemente ótima, em que assistimos de camarote e com registros no celular, o mundo e os amores despedaçarem mais e mais a cada dia.

Há um encontro, em – com – o – outro. Nos pátios, nas ruas, nas cartas e nos diálogos possíveis. Até nas noites frias que foram desperdiçadas pelo medo. O mar da história, afinal, é agitado, diz Maiakoviski, e a esperança…ah…  a esperança… ela é equilibrista e dança.

*Cristiane Corrêa de Souza Hillal é promotora de Justiça do MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP.

Referências:

  1. O Diálogo Possível – por uma reconstrução do Debate Público Brasileiro. Francisco Bosco. Editora Todavia.
  2. Abricó de Macaco https://www.joaobosco.com.br/musica/abrico-de-macaco-2020/
  3. https://direito.usp.br/noticia/3f8d6ff58f38-carta-as-brasileiras-e-aos-brasileiros-em-defesa-do-estado-democratico-de-direito
  4. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2015/11/13/interna_diversao_arte,506395/lygia-fagundes-telles-pede-jovem-leitor-me-leia-nao-me-deixe-morrer.shtml
  5. https://goffredotellesjr.com.br/carta-aos-brasileiros/
  6. https://www.youtube.com/watch?v=fVQ3YYnic2o Álbum:  Sobreviventes do inferno. Menção especial a Diário de um detento.

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1 Comentário

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Batata (Ronaldo S. Gomes)

- 2022-08-01 14:28:42

Vertiginoso! Estamos diante de uma procuradora que, além de palmilhar legislações resgatando direitos, nos resgata a memória do vivido e do imaginado, Do fundo das agruras das passagens da Ditadura, as histórias de resistência vivida e das libertações imaginadas: a cultura na resistência de nossos ethos múltiplos, perante o velho pathos que se repete ciclicamente. A palavra esculpida com a precisão das referências que ela cita.

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