21 de maio de 2026

Charlie Kirk, Marielle Franco, Marcelo Arruda. Por quê?, por Armando Coelho Neto

Está aberto o debate sobre a desumanização do adversário político, e não importa se da direita ou da esquerda.
Cildo Meireles

Charlie Kirk, Marielle Franco, Marcelo Arruda. Por quê?

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por Armando Coelho Neto

Dona Marisa Letícia estava internada com um AVC, quando a frase “E o capeta abraça ela”, dita por um médico do mesmo nosocômio, explodiu nas redes sociais. A fala entre colegas de profissão expressava o desejo de uma morte violenta. Teve mais: “Que seja o primeiro de muitos”, “Estão mantendo a jararaca viva para ele (Lula) não se eleger”. Falas de ditos homens de bem, no triste janeiro 2017.

Um procurador da República integrante do covil judicialesco de Curitiba não perdeu tempo: “Estão eliminando as testemunhas”. Muito além do humor mórbido e com real toque de maldade, em 2011, quando o presidente Luís Inácio Lula da Silva descobriu que estava com câncer na laringe, mal teve tempo de ser internado. Nas redes sociais explodiram expressões do gênero, “Força Câncer”!

As lembranças acima vêm a propósito dos ofendidinhos com o jornalista Eduardo Bueno (Peninha), por conta de seus comentários sobre o ativista de extrema direita Charlie Kirk, assassinado aos 31 anos com um tiro, durante um discurso na Universidade do Vale de Utah (EUA). Trumpista de primeira hora, acabou merecendo honrarias incomuns, num funeral quase comício com 100 mil pessoas.

Tanto lá quanto cá há mortos e mortos, uns reverenciáveis outros não tanto. Para o pastor americano Howard-John Wesley, Kirk não merecia ser assassinado. Mas, segundo ele, era um inegável “racista sem remorso” que pregava a divisão. Disse não ter compaixão por quem não tinha respeito por sua própria vida. E arrematou, dizendo que “A forma como você morre não redime a maneira como você viveu”.

Jovial sedutor, Kirk montava tendas em universidade, para onde atraia jovens sob o mote do “prove que estou errado”. Entretanto, a sua presença nas universidades “nunca foi um exercício legítimo de pluralidade, mas sim uma estratégia deliberada de provocação e radicalização”, afirma David Nemer, professor no departamento de Estudos de Mídia na Universidade da Virgínia, nos EUA (matéria portal G1).

Em que pese o discurso religioso e suposta convivência harmoniosa entre as pessoas, Kirk era um defensor do porte e uso de armas, sob o argumento da eventual possibilidade de defesa, e também pelo direito das pessoas se sentirem “protegidas”. Trumpista, em 2020, durante a pandemia da Covid-19, seguiu à risca o manual negacionista: não usou máscara e foi contra a quarentena.

Alinhado com o cardápio populista da extrema-direita no mundo, Kirk era contra o aborto mesmo em caso de estupro ou contra menores. Tinha uma lista com críticas a políticas de equidade racial em instituições públicas e privadas (pois afinal existem “apenas dois gêneros”), além de incentivar alunos a fazerem denúncias contra professores adeptos da suposta “ideologia de gênero” durante as aulas.

De repente, em nome do direito de liberdade de expressão para Kirk, foi negado aos outros a liberdade de expressão de a ele se opor. Com esse perfil, as bem-humoradas análises do Bueno (Peninha) ganharam um tom mais ácido. Com a pisada de bola, despertou a consciência humanista dos Chupetinhas da vida, que se apressaram em dizer: precisamos ser a extrema-direita que dizem que somos.

É, o amor está no ar. Muito além dos Chupetinhas da vida, Peninha foi criticado até por gente proscrita do YouTube por discurso de ódio. A exasperação provocada foi tamanha que não adiantou sequer se desculpar, se retratar. Em nome do humanitarismo e ou por deferência a Donald Trump e sua química, Peninha foi defenestrado de projetos oficiais, palestras…

Embora não seja atributo da direita, aparentemente, e, pelo menos no Brasil, as mais recentes ações que envolvem violência política têm partido da direita. No mais, por falta de pesquisa, cabe registrar ser inequívoco o subjacente perfil violento de quem faz apologia às armas, quer criminalizar menores, é tolerante com a truculência contra crianças, mulheres, pessoas com orientação sexual não binárias…

Está aberto o debate sobre a desumanização do adversário político, e não importa se da direita ou da esquerda. Faz sentido dizer que a morte de Kirk, enquanto morte violenta em si, poderia ter o mesmo significado do assassinato de Marielle Franco, e ou as mortes de Marisa Letícia, Marcelo Arruda – assassinado por apoiador do ex-presidente, durante a festa de aniversário que tinha Lula como tema.

É inexorável dar alguma razão a quem diz que certos ativistas, dentro do processo civilizatório, podem fazer mais falta do que outros.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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  1. Rui Ribeiro

    8 de outubro de 2025 10:06 am

    Com a devida adaptação, faço minhas as palavras do próprio Kirk em relação ao Floyd, assassinado pela polícia:

    “O Kirk era um canalha. Mas isso significa que ele merecia ser assassinado? São duas coisas totalmente diferentes – naturalmente não”.

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