Ciência, análises espaciais, opressão e desenvolvimento

Nancy Fraser, filósofa, aponta que só é possível lutar pelo direito à vida e contra as formas de opressão se a luta for anticapitalista.

Ciência, análises espaciais, opressão e desenvolvimento

por Cintia Neves Godoi, Sandro Luiz Bazznella e Roberta Oliveira Lima

O geógrafo Manuel Lopes de Sousa Neto propôs que o pensamento sobre o espaço apoie novas formas de análises, pois, por vezes, uma historiografia da Geografia nos permitiria alcançar formas de compreensão com recorte temporal e mesmo espacial, que se circunscrevem em modelos científicos vinculados as concepções de Modernidade, de Positivismo, ou a concepções institucionalizadas em universidades ou academias.

O pensamento geográfico a partir do olhar de Antonio Moraes apontou este exercício como a percepção do meio, por determinado grupo, em determinado tempo, considerando a substantivação do espaço por este mesmo grupo.

Desta maneira, para pensar, por exemplo, questões da atualidade das formas diversas de ser, existir, resistir, nem sempre se pode pensar com o olhar tradicional sobre as relações espaciais, é preciso considerar o pensamento aos moldes dos próprios grupos que substantivam e até mesmo adjetivam o espaço, para buscar ampliar o entendimento em relação a complexidade das relações sociais e socioespaciais.

Uma perspectiva contemporânea sobre as dinâmicas de opressão e inclusão social demandam uma análise dos elementos históricos intrínsecos a cada sociedade, bem como uma compreensão renovada das interseções de discriminações e opressões enfrentadas por grupos específicos dentro da sociedade.

É importante que se frise que a violência contra determinados grupos sociais nas mais distintas sociedades ao longo dos tempos já existia, no entanto, houve complexificação desta violência em sociedades capitalistas (e que apregoam a ideologia do desenvolvimento) que exige esforços específicos da ciência para compreensão da desigualdade de acessos, tratamento, oportunidades que vivenciam grupos minoritários, que são maioria, como argumentou Deleuze.

Nesta direção, a interseccionalidade apresentada por Kimberlé Crenshaw, intelectual e feminista negra estadunidense é um conceito que visa explanar de que maneira ocorrem as discriminações, e como devem ser compreendidas como fenômeno que se soma, se articula, se complexifica e gera a continuidade e aprofundamento da violência contra determinados grupos.

Por seu turno, Nancy Fraser, filósofa, aponta que só é possível lutar pelo direito à vida e contra as formas de opressão que sofrem determinados grupos, bem como contra os problemas ambientais se a luta for anticapitalista.

Raça e gênero, portanto, são temas que estão articulados às questões sociais e econômicas, sendo crucial reconhecer a interdependência entre estas categorias e a expropriação inerente ao sistema capitalista. Conforme apontado por Nancy Fraser, existe uma tendência na academia de abordar essas questões de maneira segregada, apesar de sua natureza interconectada. Além disso, a investigação nestas áreas frequentemente se restringe a nichos específicos e enfrenta limitações significativas em termos de financiamento e recursos, o que impede uma análise mais robusta e abrangente. Sem considerar a articulação entre interseccionalidade, expropriação e, exploração  se ampliam e aprofundam os limites para compreendemos as crises atuais vivenciadas especialmente por países capitalistas.

Nancy Fraser aponta que há em curso uma crise ambiental, uma crise de reprodução social, dentre outras, que nos forçam a ampliar conceitos e buscar formas de compreender as relações em interações constantes, sejam espaciais, sociais, culturais, econômicas, que pela densidade alcançada pelos fluxos de diversas ordens engloba povos, comunidades e culturas de diferentes lugares do mundo.

Aliás, como bem chamou atenção a Maria Adélia de Sousa, falar em crise ambiental é no mínimo hipocrisia. Não há crise ambiental, a crise é socioeconômica e atinge a toda a população, gerada por um sistema produtivo e de consumo que esgota forças humanas, a natureza em suas forças vitais indispensáveis para manutenção da vida em sua totalidade de formas de manisfestação.[1]

Nancy Fraser propõe uma visão ampliada do sistema capitalista, entendendo-o não apenas como uma estrutura econômica, mas também como uma ordem institucional e um sistema de organização social. Esta perspectiva abrange tanto os aspectos econômicos e institucionais que monetizam o trabalho, quanto às atividades não remuneradas, como o cuidado, frequentemente realizadas por mulheres e cujo valor é debatido, mas raramente monetizado. Além disso, Fraser destaca o uso brutal da natureza para alimentar a voracidade do capital em seu regime de acumulação da riqueza socialmente produzida, os imorais e desumanos benefícios obtidos a partir do fomento de conflitos armados e a exploração de grupos racializados.

Marx e Engels, para entenderem as relações que estruturavam o capitalismo, nos idos de 1800, analisaram a organização das relações de poder entre, basicamente, duas classes: a dos proprietários dos meios de produção e a dos trabalhadores livres, que não dispunham de propriedade privada. Para que os donos dos meios de produção pudessem operar a exploração, era necessária a compra da força de trabalho dos operários.

No contexto do século XIX, as análises de Marx e Engels revolucionaram o entendimento das relações que ocorrem no âmbito do capitalismo[2]. Mas, as referidas análises apresentam-se insuficientes para um olhar sobre as questões de gênero e raça. A interseccionalidade com relação ao gênero exige compreender que antes da revolução industrial capitalista, as mulheres atuavam e trabalhavam com valor equiparado ao esforço dos homens. Entretanto, quando se define que o trabalho fabril será monetizado e que o cuidado familiar será restrito e não monetizado é que se apresenta um dos marcos na ascensão do poder dos homens e a exclusão e opressão das mulheres, pois o dinheiro passou a ser o elemento central da acumulação de riqueza.

Cuidadoras não monetizadas, as mulheres foram excluídas das formas de enriquecer, de decidir, de participar ativamente da sociedade, pois sua atuação e trabalho passou a não ter valor de troca na dinâmica da sociedade capitalista. Foram invisibilizadas, diminuídas e isto perdura ainda hoje. Não é possível a exploração do trabalho dos homens sem a contrapartida de expropriação do trabalho da mulher. É ela quem cuida do próprio homem, dos filhos, da casa, dos idosos e etc. Este fenômeno não se findou, por reverso, se intensificou e, ainda é o cenário em diversas partes do mundo.

Em episódio chamado “Por que as mulheres ganham menos?” a série “Explicando” expõe que a maior parte das mulheres em universidades começam sua jornada de trabalho, acompanhando o ritmo dos homens, mas quando tem filhos, são obrigadas a abandonar suas carreiras para, se responsabilizarem pelas atividades do cuidado. O denominado “efeito tesoura” (MENEZES, BRITO e ANTENEODO, 2017), demonstra que em relação aos estudos os homens tendem a crescer e se especializar, alcançando níveis superiores na graduação e carreiras acadêmicas, como doutorado e liderança em grupos de pesquisa, enquanto as mulheres enchem as salas de graduação, mas conforme o nível de instrução aumenta, proporcionalmente diminui sua participação (MORAES, PAES e FALASCHI, 2018). Estatísticas brasileiras de graduação e pós-graduação apontam que, na década de 2020, as mulheres formam a maioria como estudantes de graduação e pós-graduação. No entanto, se olharmos as estatísticas de cargos de gestão em empresas, ou de docência na universidade, especialmente docência na pós-graduação das universidades brasileiras, os homens são maioria (Censo da Educação Superior, 2021).

O pensamento feminista expôs que as relações de sujeitamento, objetificação e diminuição das mulheres são tão dolorosas e complexas que, por vezes, as próprias mulheres vão dar continuidade a estes modelos de relação. Virgínia Woolf chama a atenção dizendo que no cotidiano (além de performar o trabalho não monetizado), as mulheres agem como espelhos de aumento para os homens, porque atuam também como suporte emocional, engrandecendo suas ações para estimulá-los a garantir, talvez, o sustento e este agigantamento dos homens. Este esforço psíquico realizado pelas próprias mulheres vai solapá-las ainda mais, posteriormente.

A morte das minorias (e reforçamos aqui o fato de serem a maior parte da população em números) está contabilizada na sociedade que ignora a exploração e expropriação das mulheres, das populações racializadas, dos LGBTQIAPN+ que sofrem cotidianamente por requererem o direito de existir e, para tanto lutam e resistem.

Desta maneira, entender os problemas da atualidade, do sofrimento, da opressão, da crise de reprodução social, exige repensar as concepções políticas que justificam o fazer científico no contexto da sociedade capitalista, de reprodução voraz de acumulação de capital a partir do trabalho socialmente realizado. E esse esforço exige criticidade em todos os âmbitos de nossa sociedade.

A ciência foi construída com valorização do pensamento eurocêntrico que estimula a continuidade das relações de exploração e expropriação. O sociólogo Jessé de Sousa aponta nossa construção racista de ciência que coloca como racional, objetivo, tudo que for do Norte, alemão, estadunidense e como do corpo, da ordem do subjetivo, e, portanto menor, tudo que for do Sul, latino-americano, africano.

Nancy Fraser dirá, portanto, que ao Norte, de maneira geral, estão os brancos explorados e, no Sul Global, estão os expropriados. E, os expropriados ainda são culpabilizados por sua condição imposta como menor, por sua falta de condição de reagir e de se negarem a ser expropriados, pelo seu subdesenvolvimento, sua condição de periféricos, dentre outros aspectos.

O modo como temas como gênero e raça são compreendidos por filósofos, geógrafos, sociólogos e economistas se complexificando e gerando conceitos como interseccionalidade e outros demonstram a necessidade de avançar-se em análises do espaço como instância social e de avançarmos em conceitos e ideias que permitam refletir sobre como grupos compreendem, demandam ou buscam suas relações no espaço, como substantivam e adjetivam seus meios, e de que maneira este entrelaçamento de fluxos e relações vão compor e modelar o espaço, bem como atentar para como serão transformados pelas relações dinâmicas no e do espaço.

Com esta forma de pensar há acordo com o entendimento de Milton Santos (defendido também por Maria Adélia de Sousa) de espaço como instância social, não apenas como lócus, mas também como resultado-condição.

Em análises apresentadas para este diálogo sobre ciência, análises espaciais, opressão, e desenvolvimento é possível perceber que pesquisadores, professores e pensadores apoiam o entendimento da complexidade da violência e das relações desiguais na sociedade, mas que, de maneira geral, vão dividir o mundo em Sul e Norte.

Manoel Fernandes de Sousa Neto, alerta sobre a necessidade de aprofundar a análise espacial, posicionar a lupa para enxergar que “os ventos do norte não movem moinhos”, e que no mesmo espaço, em uma mesma cidade brasileira, por exemplo, poderemos encontrar a complexidade das relações espaciais apontadas. Sem desconsiderar também, ou melhor, considerando, analisando, mapeando, identificando elementos e componentes espaciais na sobreposição das discriminações vivenciadas pelas mulheres, pelas populações racializadas, pelos LGBTQIAPN+.

Na canção em que mulheres entoam “um homem não me define, minha casa não me define …” vislumbra-se a necessidade de novos cantos, novos modos de entender a vida, e também a opressão.

Para tanto é preciso uma ciência dedicada a conhecer especificidades de diferentes relações espaciais e sociais, apoiar a busca por análises complexas sem predefinições, especialmente ao se tratar das populações que, além de conformarem a própria existência da sociedade, porque são trabalhadoras e geram riqueza, têm direito à vida em sua plenitude, para além das questões do trabalho, do cuidado e da reprodução social.


[1] Fala apresentada em conferência apresentada pela Prof. Maria Adélia de Sousa em outubro de 2023, intitulada “A unidade da Geografia. O endereço virtual para acessar a fala é: https://www.youtube.com/watch?v=8FsUcD5FMXs

[2] As relações do imperialismo necessário ao capital, por exemplo, serão aprofundadas por Lênin, Luxemburgo e outros autores.

Cintia Neves Godoi – Professora de Geografia

Sandro Luiz Bazznella – Professor de Filosofia

Roberta Oliveira Lima – Professora de Direito

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