
Conhecimento científico na era digital: entre a utopia e o engajamento
por Francisco Fernandes Ladeira
Nos anos 1990, a internet era vista com otimismo, pois representava a materialização de um sonho antigo: o acesso universal ao conhecimento. Muitos pensavam a rede mundial de computadores como uma nova Biblioteca de Alexandria, um repositório infinito, em que a informação, e em especial o conhecimento científico, circulava livremente, sem as barreiras físicas ou institucionais do passado. Pensadores como Pierre Lévy anteviam o surgimento de uma “inteligência coletiva”, na qual a conectividade entre as pessoas potencializaria a produção e a partilha do saber. A divulgação científica, outrora confinada a revistas especializadas, documentários televisivos e algumas poucas colunas de jornal, parecia destinada a uma democratização sem precedentes.
De fato, esse otimismo era amplamente justificado. A rede permitiu que universidades, centros de pesquisa e cientistas compartilhassem suas descobertas diretamente com o mundo, encurtando distâncias e acelerando a inovação.
Contudo, a relação entre internet e conhecimento científico é ambivalente. O otimismo inicial se dissolveu diante da ascensão de um novo paradigma digital, dominado pelas big techs e seus algoritmos. Esses sistemas, programados fundamentalmente para maximizar o tempo de tela e o clique, são indiferentes em relação à verdade ou à profundidade. Seu critério de sucesso não é a precisão científica, mas o engajamento. Nesse ecossistema, o conhecimento científico foi, em grande medida, banalizado. Canais no YouTube, em uma caça incessante por likes, reduzem teorias complexas a títulos sensacionalistas e explicações simplistas.
O debate público digital sofreu um rebaixamento semelhante. A figura do influencer substituiu, em muitos casos, a do especialista. Discussões sérias sobre ciência são frequentemente eclipsadas por embates performáticos entre influencers de diferentes espectros políticos, sendo a qualidade do argumento menos importante do que sua capacidade de gerar chiques para as redes sociais. Pensadores como Freud ou Nietzsche são citados de forma distorcida e descontextualizada, servindo mais como amuletos de autoridade para vídeos de autoajuda ou opiniões infundadas do que como fontes de reflexão. Um bom discurso, nessa lógica, não é aquele bem fundamentado, mas aquele que é “engajável”.
Esta realidade impõe uma observação: se outrora o desafio central era o acesso à informação, hoje ele é duplo. Trata-se não apenas de analisar criticamente o conteúdo a que se tem acesso, mas, antes disso, de filtrar o imenso volume de dados disponíveis. A curadoria tornou-se uma habilidade fundamental. Nunca, em toda a história da comunicação, o receptor teve tanta responsabilidade. Cabe a ele discernir entre a fonte confiável e o charlatanismo, entre a divulgação séria e o entretenimento disfarçado de ciência.
Por outro lado, o único caminho para resgatar o espírito da “internet do Antigo Testamento” — usando uma expressão que, ironicamente, viralizou — é nos libertarmos do jugo das big techs. E isso não significa “regulação” ou algo similar, mas sim “soberania digital”: o Brasil precisa ter suas próprias redes sociais, assim como o fazem Rússia e China. No entanto, esse debate permanece muito distante tanto da direita (por conveniência) quanto da esquerda (por ingenuidade).
Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Autor do livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora)
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