É hora de confiar na intuição de Lula, por Gustavo Conde

Hoje, praticamente todos os jornais entram em movimento de desaceleração no contraste moral entre Moro e Bolsonaro. Em ouras palavras - e na semântica deles: é cedo demais.

Foto Stuckert

É hora de confiar na intuição de Lula, por Gustavo Conde

Um governo que consegue pautar a imprensa com o tema da crise política, em meio ao maior caos sanitário econômico e social da história é realmente um fenômeno.

Ficar falando da picuinha entre Paulo Guedes e Rogério Marinho diante da pandemia de coronavírus – sabendo quem eles são e o que representam, ambos – é fazer docemente o serviço de blindagem ao governo.

Após a queda de Moro, o nosso necrojornalismo recebeu de volta a possibilidade de ser protagonista de mais um impeachment.

Era difícil de acreditar que eles jogariam fora essa oportunidade, uma vez que fazer o recall de um governo acéfalo representado pelo mercado financeiro, é o objetivo constante do ‘cativeiro’.

Bolsonaro, Mourão, Maia… Tanto faz – desde que se enquadrem nos interesses e na troca de favores preconizado em off por nossos executivos de mídia e de mercado.

No entanto, o medo de o PT voltar é tal que a necromídia é capaz de suportar Bolsonaro por mais 2 anos, apenas para adiar a volta do debate público politizado e com pautas mais sérias.

Até o mundo mineral sabe que a queda de Bolsonaro precipitaria a volta da política que, bem ou mal, poderia nos tirar do atoleiro cognitivo em que nos enfiamos.

E, pasmem: aparentemente nem a queda de Sergio Moro, o queridinho dos necrojornais, foi capaz de reposicionar suas linhas editoriais.

A turma do ‘deixa disso’ já entrou em campo e Bolsonaro vai – mais uma vez – re-aglutinando forças para permanecer no governo.

Eu havia alertado que a análise de cenário teria de ser feita hora a hora, diante da aceleração extraordinária dos fatos políticos pós demissão de Sergio Moro, o pilar pseudo moral do governo.

Num primeiro momento, identifiquei a mudança brusca de cenário, com Sergio Moro sendo alçado à condição de ‘vedete do impeachment’, apresentando provas e se posicionando abertamente contra sua criatura, esta ‘placenta’ criada que atende pelo nome de Bolsonaro.

Ora, ora, ora, a ‘placenta’ já cumpre o já repetitivo drible da vaca em todos nós: vai mexendo no governo, nomeando amigos dos filhos, acenando para o centrão e, se bobear, fica mais forte que antes da queda de Moro.

Não é demais reforçar: análise de conjuntura que não muda ao sabor dos fatos e das constatações empíricas não é análise de conjuntura, é jogar para a plateia (o que a maioria esmagadora dos comentaristas mais à esquerda vem fazendo em meio ao desespero que é lidar com um ser abjeto como Bolsonaro).

A saída de Moro muda o cenário, óbvio (afinal, já são 28 pedidos de impeachment nas mãos de Rodrigo Maia). Mas o necrojornalismo faz o serviço de contenção.

Restava saber se esse necrojornalismo teria força e descaramento para mais uma rodada de blindagem a Bolsonaro, mesmo com a queda de seu pupilo querido, o ex-juiz e ex-herói Sergio Moro.

Mas a semântica é mesmo uma dádiva dos deuses do discurso.

A queda de Moro não significa ‘Mourão 2020’, mas apenas e tão somente ‘Moro 2022’.

Os necrojornais irão esperar tão disciplinadamente quanto os militares.

O pânico ao PT torna proibitiva qualquer ‘aventura’ por impeachment neste momento. Quem lida com notícia e linguagem sabe o peso simbólico que um impeachment exerce nas pessoas, nos mercados e nos financiadores.

Levar a cabo um impeachment de Bolsonaro, seria como impugnar o impeachment (sem crime) de Dilma Rousseff, e isso nossa necroeditoria corporativa jamais permitirá, nem a título de turbinar Sergio Moro para 2022.

O noticiário deste domingo era fundamental para confirmar essa percepção. Hoje, praticamente todos os jornais entram em movimento de desaceleração no contraste moral entre Moro e Bolsonaro. Em ouras palavras – e na semântica deles: é cedo demais.

Na minha semântica: é medo do PT.

Percebe-se, ainda, de maneira dolorosa, que não há por parte da imprensa a mais remota vontade de respeitar as vidas humanas que vão escorrendo pelo ralo da história à mercê da incompetência monumental de Bolsonaro e de seu governo de cupinchas.

Eles se lixam para as mortes. ‘Mortes’ para esse jornalismo é sinônimo de audiência (por isso, necrojornalismo).

Eles dramatizam a morte de brasileiros em enchentes, em crimes-catástrofes de mineradoras, em política de extermínio de governos tucanos, em execuções de milicianos, apenas para manter as aparências diante de um expectador passivo, exatamente como fizeram nos 21 anos de ditadura militar assassina.

Esses setores da sociedade brasileira continuam com tanto medo do PT, mas tanto medo do PT (leia-se: medo da soberania popular), que eles serão capazes de tudo para manter o partido afastado da possibilidade de vencer as eleições em 2022.

Isso inclui Bolsonaro por mais 4 anos. Isso inclui golpe. Isso inclui toda sorte e azar de manipulações em massa de informações.

Sergio Moro simplesmente trocou de lado, no eterno combate ao PT que a elite vagabunda deste país promove desde sempre.

O problema para essa elite não é o governo Bolsonaro: é a volta do PT.

Haveria de se perguntar: mas por que tanto medo? Por que tanto medo de um partido que fez o país inteiro enriquecer, do mais pobre ao mais rico? Que fez a economia bombar? Que fez explodir o consumo? Que incluiu milhões na universidade?

É simples de responder: por que um partido popular de esquerda não está autorizado a ter tanto sucesso – esse sucesso é uma ameaça.

A revolta dos sem-discurso dá contornos extravagantes a qualquer histeria. Lembram da lalia agônica do PSDB diante de sucessivas eleições? Era basicamente impossível encaixar um argumento coerente no debate com o PT. Perderam todos, mesmo com a imprensa a favor.

Permitam-me enunciar: as pessoas não querem o bem comum de todos (quiçá o próprio). A espécie humana é mais complexa do que isso.

A arte do lulismo foi inocular o vírus da coerência política e histórica nos corações de parte considerável dos brasileiros, quase uma ‘coação civilizatória’, que foi eterna enquanto durou – devido quase que exclusivamente à genialidade e singularidade de Lula.

Promover impeachment de Bolsonaro faria esse vírus voltar com toda a força.

Percamos as esperanças?

Não. Sobretudo porque, para o nosso surpreendente consolo (que não merecemos), Lula ainda está vivo, pleno de energia e continua sendo o mais combativo e inteligente líder político do país, léguas de distância do segundo lugar que nem imagino quem seja.

Diante de tanta miséria gerencial, jornalística e politica, é hora, mais uma vez, de apostar na intuição histórica de Lula.

Tudo isso que ocorre no Brasil de hoje é em função do pânico que nossas elites vingativas têm de Lula. A vacina, portanto, para que superemos tudo isso, passa obrigatoriamente pela capacidade de aglutinação politica e social de Lula.

Sergio Moro e Bolsonaro são insetos. Eles se alimentam dos dejetos do nosso necrojornalismo, que além de necro, é partidarizado.

A eterna esperança dos segmentos progressistas em apostar na implosão de um governo miliciano não passa de ilusão semiótica.

Ou voltamos nossas atenções para Lula, ou preparemo-nos para mais uma sequência interminável de agonias, frustrações e mortes.

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