10 de junho de 2026

Editorial do The Economist é apito de cachorro, por Ion de Andrade

O The Economist é um jornal liberal pró capitalista desde a origem, há 150 anos, ele é a voz intelectual e política da elite globalizada
Reprodução

Editorial do The Economist é apito de cachorro para a burguesia internacional

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Ion de Andrade

Um “apito de cachorro” é utilizado pelos tratadores para comandar os cães numa frequência sonora que só eles ouvem. A expressão é usada metaforicamente para os ordenamentos provenientes de certos centros de influência quando apontam para questões onde querem formar consenso.

No dia 28 de agosto de 2025, a capa do The Economist trouxe a imagem de Bolsonaro, pintado de verde e amarelo, com o mesmo chapéu de cabeça de búfalo que ornou a cabeça de um insigne manifestante da tomada do capitólio nos Estados Unidos em 06 de janeiro de 2021… O desenho veio acompanhado da seguinte frase afirmativa: “O que o Brasil pode ensinar a América”.

Sobre a capa, obviamente, a tomada do capitólio nos Estados Unidos também é central e também é entendida como uma tentativa de golpe de Estado. Os dois momentos, o 08 de janeiro no Brasil e a tomada do capitólio estão fundidos num só, diferenciados, apenas, no fato de que, no Brasil, o ocorrido está sendo tratado dentro dos ditames do Estado de direito, o que atesta, segundo o jornal, o vigor e a maturidade da nossa democracia.

Após a matéria de capa, na semana que antecedeu o início do julgamento de Bolsonaro a matéria foi desdobrada em inúmeras outras, no próprio jornal, sempre divulgadas com destaque em suas redes sociais.

Ora, e quem é o The Economist?

O The Economist não é um jornal qualquer, liberal pró capitalista desde a origem, há cerca de 150 anos, ele é a voz intelectual e política da elite globalizada cuja riqueza e poder estão intrinsicamente ligados ao fluxo dos capitais e ao comércio internacional.

Trata-se, pois de um dos veículos mais respeitados e formadores de opinião no segmento hegemônico do capital na atualidade que é o que reina sobre o grande fluxo de riquezas com ênfase para o capital financeiro internacional.

Uma capa para um jornal com esse alcance e significado, seguida de inúmeros artigos apontando na mesma direção, não acontece por acaso. Ela significa:

  1. Um sinal de alerta (Priorizem isso)
  2. Um enquadramento narrativo para a formação de um consenso (Essa é a maneira correta de ver isso)
  3. Uma arma política (Apoiamos isso)
  4. Uma ferramenta de pressão: (Apoiemos o que está acontecendo)

O The Economist é, portanto, muito mais do que um jornal econômico: é um aparelho privado de hegemonia (conforme Gramsci) da fração financeira-globalista da burguesia. Ele não só reflete seus interesses, mas os organiza, legitima e os traduz num projeto político para toda a sociedade, apresentando-os como racionais, modernos e inevitáveis…

A capa e o editorial foram fartamente replicadas no Brasil por veículos como a BBC, a Deutsch Welle, o G1 da Globo ou a CNN, o que é demonstrativo do peso do jornal na formação de opinião dos setores conservadores.

Ora, às vésperas de um possível endurecimento americano decorrente do início do julgamento de Bolsonaro e sua possível condenação, a capa do The Economist mobiliza o setor que ela vocaliza a dar estabilidade política e econômica ao Brasil.

Mais do que isso, o editorial do The Economist entende que o Brasil está mostrando o remédio legal correto para o enfrentamento do que o jornal chama de “populismos” o que inclui Bolsonaro, mas obviamente inclui também Trump, o que se confirma pela fusão das tentativas de golpe americana e brasileira no desenho da capa.

Isso significa, em se tratando de ser quem é o veículo de comunicação e de ser quem é Trump e seu governo que está dado um divórcio irreversível entre o governo Trump e os interesses hegemônicos do capital global fato que produzirá muito mais do que matérias no The Economist.

Vamos entender que a burguesia é o grande player por trás dos Estados e que o artigo é uma má notícia para Bolsonaro, mas também para Trump. Vale lembrar, se o que o The Economist publicou já for o resultado de um consenso consolidado nesse segmento hegemônico do capital, que a chance de que essa posição venha a ser vitoriosa nos diversos governos e judiciários ocidentais não é pequena.

Entretanto, essa recomposição do Poder em conformidade com a posição recém expressa por essa burguesia não se dará obrigatoriamente de forma automática, ou rápida.

Isso faz da capa uma espécie de declaração de guerra aos populismos e em se tratando de guerra, os ingleses têm vasta experiência na matéria e não costumam voltar atrás.

Quando a BBC de Londres reverberou outro bem conhecido apito de cachorro: “Blesse mon coeur d’une languer monotone” era o dia D e esse verso de Verlaine era o aviso acertado com a Resistência Francesa de que o desembarque aliado aconteceria muito em breve nas costas da Normandia.

Retrospectivamente podemos ver que daquele ponto em diante, a vitória era certa, mas ela ainda custaria muitas vidas e muita destruição.

O mundo mudou, o peso relativo dessa burguesia, considerando os BRICS e a nova aproximação estratégica entre China, Rússia e Índia motivada pelo tarifaço de Trump não é mais o mesmo, mas no contexto do mundo ocidental onde para o bem ou para o mal está inserido o Brasil, ela continua como força hegemônica.

O arco de tensões que passa a vigorar no Ocidente entre essa burguesia e os ditos governos populistas é que será a chave de leitura correta para o que de mais relevante acontecerá no cenário político ocidental onde está aberto o conflito.

Ion de Andrade é médico epidemiologista e professor e pesquisador da Escolas de Saúde Pública do RN, é membro da coordenação nacional do Br Cidades e da executiva nacional da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela democracia

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Jose de Almeida Bispo

    2 de setembro de 2025 5:49 pm

    “divórcio irreversível entre o governo Trump e os interesses hegemônicos do capital global”. Na verdade, nem casamento existiu. Apesar de muitos da velha burguesia financista se assanharem com a “revolução” das novas “ilimitadas” possibilidades, a velha Britânia ainda tem o comando; e em última instância é quem dita o jogo. E o meia-volta, no caso Lula, não veio por acaso; nem por sensibilidade da elite tupiniquim. Trump representa perigo real e imediato ao “ancien regime”. Começa a ser tosado pra valer por Bolsonaro.

  2. Twa

    3 de setembro de 2025 12:42 pm

    E as capas com o Cristo no Brasil decolando e uma depois com o mesmo se espatifando? Perdeu há muito a credibilidade

  3. André LB

    4 de setembro de 2025 8:24 pm

    Interessante o artigo. Apenas achei estranha a insistência em chamar a revista semanal de “jornal”. Passa a sensação de que o articulista não sabe muito do veículo de que está falando.

  4. Ion de Andrade

    8 de setembro de 2025 8:52 pm

    The Economist é um jornal britânico de notícias e assuntos internacionais de valor da The Economist Newspaper Ltd. e editada em sua sede na cidade de Londres, no Reino Unido.[1][2] Está em publicação contínua desde a sua fundação por James Wilson, em setembro de 1843. Por razões históricas a The Economist refere-se a si mesma como um jornal, mas cada edição é impressa em formato de revista de notícias. Em 2006, a circulação média semanal da revista foi de cerca de 1,5 milhão de exemplares, cerca de metade dos quais foram vendidos nos Estados Unidos.
    https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Economist

Recomendados para você

Recomendados