7 de junho de 2026

Flávio B. e a doença do poder, por Marco Piva

Ao ser desmoralizado publicamente, terá Flávio B. condições de seguir na corrida presidencial?
Flávio Bolsonaro em foto de Pedro França - Agência Senado

Escândalo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro expõe esquema de corrupção e negociações milionárias no clã Bolsonaro.
Denúncia abala oposição e pode reconfigurar disputa presidencial, beneficiando Tarcísio de Freitas e fortalecendo PSDB.
Reação política dividida: Zema ataca Flávio; Caiado evita conflito, enquanto direita busca nova estratégia eleitoral.

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Flávio B. e a doença do poder

por Marco Piva

O escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro revela, mais uma vez, a forma predatória como a família do ex-presidente Jair Bolsonaro sempre operou na política. A família, acostumada a negociatas de varejo, tipo “rachadinhas” e “comissões por encomenda”, partiu para voos mais altos com a confiança de quem acha que detém todo o poder do mundo.

Agora, a investigação conduzida pela PF e divulgada pelo The Intercept traz um elemento novo. Ao subir a pedida – dos milhares para a casa dos milhões de reais – , Flávio B. extrapolou o bom senso ao considerar que a corrupção “é tudo a mesma coisa”. Nisso ele coincide com o pensamento de boa parte da população, segundo apontam as pesquisas de opinião. Afinal, na lógica da política corrupta, ninguém recebe dinheiro ilícito sem dar a contrapartida solicitada. Imaginem milhões, então…

Mas, aí está o ponto. Ao achar que “tudo pode e tudo faz”, a família Bolsonaro revela que a sua ação baseada em ciladas comportamentais, valores morais manipulados e decisões autoritárias (Deus, família e liberdade é o lema) permite escalar achaques na esperança de que nada vai acontecer. A impunidade é a chave do negócio. Parece que nem mesmo as condenações dos golpistas, liderados pelo próprio pai, mexeram com o modus operandi do clã.

Se esse escândalo percorresse apenas os trâmites formais do embate jurídico, estaria tudo bem. Porém, a denúncia traz uma questão nova para a eleição de outubro. Ao ser desmoralizado publicamente, terá Flávio B. condições de seguir na corrida presidencial? Ou chegou a hora, como o mercado financeiro e as oligarquias do agro e da imprensa sempre defenderam, de colocar um novo jogador em campo? Quem seria esse jogador nessa altura do campeonato?

Pois é. À sombra do escândalo desenha-se novamente a figura de Tarcísio de Freitas, embora ele não possa mais se desincompatibilizar para assumir a candidatura à presidência. Ele é e sempre foi “o cara” da oposição para interromper a possível reeleição de Lula.

Não cabe aqui questionar o trabalho primoroso do The Intercept que, uma vez mais, ensinou à velha imprensa como se faz o bom e velho jornalismo. Longe disso. Mas, a divulgação do escândalo beneficia, no campo da direita e médio prazo, o governador de São Paulo. Por quê? Porque ele ganha, de saída, o passe livre de candidatíssimo para as eleições de 2030 e terá todo o apoio necessário para se reeleger este ano.

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Após a divulgação dos áudios, o nanico candidato Romeu Zema apertou o gatilho rapidamente contra a cabeça de Flávio Bolsonaro na esperança de amealhar alguns votinhos a mais no campo conservador. Como franco atirador da extrema-direita, para ele tanto faz. Será coadjuvante na corrida presidencial e passadas as eleições se tornará um ser político insignificante. Ele conseguiu dividir ainda mais a direita. Já Ronaldo Caiado, por sua vez, preferiu não colocar água na fervura, possivelmente de olho na vaga de vice da chapa da direita ou, quem sabe, até mesmo substituir Flávio B.

A denúncia bagunçou a oposição que agora terá que se reorganizar para saber que rumo tomar. Não é preciso ir longe considerando a esperteza das raposas políticas que habitam nosso país, sempre alinhadas com a ideia de que a desigualdade social é somente uma questão retórica. O que importa mesmo para o “andar de cima” é a viabilidade de seu projeto de exclusão, Estado mínimo, privatizações e desregulamentação total das atividades econômicas. Sem contar a eliminação política dos inimigos, mesmo que sejam do próprio time.

Por isso, Flávio B. corre hoje o sério risco de se tornar uma carta fora do baralho, o que pode obrigar o presidente Lula a repensar sua estratégia eleitoral até outubro. Ele continua sendo o adversário ideal por suas fragilidades morais e políticas. Lula é um gigante perto dele. O problema da direita e extrema-direita agora é saber o que fazer com o filho dileto de Jair Bolsonaro, queimado logo na largada. As cartas estão na mesa, graças à política de varejo que sempre foi a marca da família.

Marco Piva é jornalista e diretor do canal de YouTube China Global News.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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