Imprensa brasileira, um histórico de fake news
por Francisco Fernandes Ladeira
Nos últimos dias, com a geopolítica palestina dominando a agenda pública global, os noticiários internacionais da grande imprensa brasileira se transformaram em verdadeiros panfletos de guerra, cujo objetivo é legitimar as atrocidades cometidas pelo Estado de Israel contra a população palestina.
Assim, nessa lógica propagandista, vale tudo. Desde o chamado “jornalismo de adjetivação” (em que os atores geopolíticos são apresentados a partir de juízos de valores, como “terrorista” e “extremista”), passando pela seletividade de imagens exibidas (“perdas materiais” em Gaza e “perdas humanas” em Israel); e chegando à divulgação de fake news (a suposta degolação de bebês pelo Hamas, por exemplo).
Isso mesmo! O leitor não se enganou: eu escrevi “fake news”.
Ao contrário do que alguns ainda podem pensar, propagar fake news em larga escala não é privilégio apenas de bolsonaristas aloprados, que passam o dia interagindo em grupos de WhatsApp de sua bolha ideológica.
Os autointitulados “jornalistas respeitados” – da Rede Globo, Folha de São Paulo e Veja – também reverberam notícias falsas (estejam cientes disso ou não). É claro que suas fake news não visam “mobilizar o gado”, mas “sensibilizar o cidadão sério para aderir à pauta sionista”.
Aliás, muito antes de Donald Trump popularizar mundialmente o termo “fake news” (ironicamente, um grande divulgador de inverdades), a mídia brasileira já propagava notícias falsas (e, o que é pior, em épocas pré-internet, tais narrativas, não raro, se transformavam em espécies de representações oficiais dos fatos).
Nos anos 80, quando milhões de brasileiros foram às ruas exigir a volta de eleições diretas para a presidência da República, a Rede Globo – canal oficial da então agonizante Ditadura Militar – noticiou um comício da campanha “Diretas Já” como se fosse uma comemoração pelo aniversário da cidade de São Paulo.
Na década seguinte, a imprensa brasileira se superou. Uma falsa denúncia sobre o abuso sexual de crianças, numa escola particular em São Paulo, potencializada por veículos de comunicação e autoridades policiais, arruinou as vidas da professora Maria Aparecida Shimada e de seu marido Icushiro Shimada. Trata-se do famoso caso “Escola Base”.
A história teve início quando uma denúncia anônima, sobre abuso sexual de crianças na Escola Base, foi feita à polícia pela mãe de uma suposta vítima. Em sequência, a mídia, sem a mínima apuração, transformou o ocorrido em manchetes sensacionalistas.
Conforme foi comprovado, tais acusações eram infundadas; sem evidências reais para sustentá-las. Porém, a escola e seus funcionários foram submetidos a um julgamento midiático severo, com jornais divulgando seus nomes e detalhes pessoais. Assim, décadas antes da “cultura do cancelamento” e do “tribunal da internet”, o casal Shimada foi “massacrado” pela opinião pública, mesmo sem um julgamento oficial.
Também não é de hoje que a imprensa brasileira – notadamente a Rede Globo – difunde fake news relacionadas à civilização islâmica.
No início dos anos 90, uma surreal matéria do Jornal Nacional apontava o suposto cumprimento de uma profecia de Nostradamus, a respeito de “uma grande invasão maometana, sob a liderança do sétimo anticristo”. No caso, a “invasão maometana” seria a Guerra do Golfo e o “sétimo anticristo”, o presidente iraquiano Saddam Hussein.
Não obstante, mesmo acontecimentos sem nenhum tipo de relação com os povos muçulmanos são associados negativamente ao islã nos discursos midiáticos (sem nenhum tipo de comprovação ou exame preliminar).
Em abril de 2011, Wellington Menezes de Oliveira, munido de dois revólveres, entrou em uma escola pública no Rio de Janeiro, disparou várias vezes contra os alunos e, após ser interceptado por policiais, cometeu suicídio (caso midiaticamente conhecido como “Massacre de Realengo”).
Uma desconexa entrevista da irmã adotiva de Wellington à rádio Band News, a descoberta de um documento escolar em que o atirador se declarava muçulmano e algumas menções confusas a preceitos do Alcorão nas anotações pessoais de Wellington fizeram com que a mídia hegemônica chegasse à precipitada conclusão que o terrorismo islâmico teria sido a principal influência do massacre.
Enquanto reportagens na GloboNews buscaram relacionar a comunidade muçulmana da fronteira brasileira com o ocorrido na escola carioca; no Jornal Nacional, Willian Bonner sugeriu que o motivo desencadeador dos assassinatos poderia ser a ligação de Wellington com um “grupo terrorista”, supostamente islâmico.
Entretanto, conforme atestou um vídeo postado na internet pelo próprio Wellington, o bullying sofrido pelo atirador quando criança foi o fator determinante para desencadear os assassinatos na escola carioca. Ademais, na carta de suicídio encontrada junto ao corpo do autor dos assassinatos não havia menções a preceitos islâmicos.
Quatro meses após o “Massacre de Realengo”, o ativista de extrema direita, Anders Behring Breivik, depois de lançar explosivos em uma região administrativa de Oslo, abriu fogo contra as pessoas que estavam em um acampamento organizado pela juventude do Partido Trabalhista, localizado em uma ilha ao norte da capital norueguesa, causando cerca de noventa óbitos.
Em um “furo jornalístico”, o New York Times, sem a polícia local ter apontado algum suspeito, noticiou que um grupo islamita até então desconhecido, chamado Ansaral-Jihad al-Alami (Colaboradores da Jihad Global), emitira um comunicado pouco depois dos ataques, proclamando sua autoria. De acordo com a suposta declaração, o atentado teria sido uma resposta a presença de tropas norueguesas no Afeganistão e à publicação de charges que ridicularizavam o profeta Maomé pelo jornal Aftenposten.
Conforme era de se esperar, veículos de comunicação (como as revistas Época, Veja e Isto É!) também aderiram ao falacioso discurso do diário nova-iorquino. Porém, declarações públicas do próprio assassino revelaram um indivíduo com visões extremistas, que incluem conservadorismo cultural radical, ultranacionalismo, islamofobia, homofobia e racismo. Um perfil muito diferente do que se poderia esperar de um “terrorista muçulmano”.
Portanto, diante desse histórico de notícias falsas – seja por sensacionalismo barato, para atrair audiência ou defender um determinado viés ideológico – cabe aqui uma reflexão. Se o Grupo Globo possui um serviço de verificação de fatos, conhecido como “Fato ou Fake”, que tem por objetivo esclarecer conteúdos duvidosos, disseminados em redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, a qual mecanismo poderemos recorrer para desconstruir as mentiras divulgadas pela família Marinho e congêneres? Eis a questão.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Unicamp. Autor de catorze livros, entre eles “A ideologia dos noticiários internacionais” (Editora CRV).
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