
A tragédia continua em Gaza: A troca de prisioneiros e um cessar-fogo fake
por Frederico Firmo
É difícil acreditar num cessar-fogo comandado pelos senhores da guerra. O marketing de Trump fala em paz, Netanyahu fala em ocupação. Os dois, movidos por razões sempre obscuras, estão pressionados pelo que parece ser o despertar da Europa. Depois das manifestações desencadeadas pela passagem da Flotilha Global SUMUD, governos europeus ameaçam tomar atitudes contra Israel, pressionando Netanyahu. Vendo que a Europa poderia tomar a frente do processo, e vendo o sonho de ganhar o Nobel da Paz escorregar por suas mãos, Trump e Netanyahu tomaram a frente para anunciar um cessar-fogo pouco crível.
Apenas há algumas semanas, Trump concordava com Smotrich, que vê a invasão de Gaza como a fase de desocupação de terrenos para um grande projeto de exploração imobiliária. Smotrich declarou que Gaza destruída e desocupada seria uma oportunidade de investimento. Os sonhos de Smotrich se alinham com os dos colonos, mas sua cupidez e ganância se une aos interesses de Trump, que ainda pensa num resort com vassalos palestinos servindo drinks. A reconstrução de Gaza pode se tornar um grande negócio.
A extrema direita tem a capacidade de conspurcar tudo que é civilizatório. Um dos valores máximos da civilização é a empatia. No momento, a empatia está totalmente comprometida. Para civilizados, não há como ficar insensível e não ter empatia por cada família israelense, que sofreu meses com a falta dos seus, feitos reféns ou os que morreram nos escombros de Gaza. Mas para civilizados, também deveria ser impensável não ter empatia por cada família palestina engolida por uma tragédia humana de dimensões absurdas. Como ignorar ou relativizar a fome e a morte de crianças, mulheres e homens nas ruínas de Gaza. Porém, governos e uma parcela significativa da imprensa fazem de tudo para relativizar a empatia, colocando-a numa balança macabra onde se mede qual é maior ou mais legítima.
Na mídia, a liberação dos reféns israelenses e a visão dos familiares chorando de alegria é legítima e tocante. Porém, a soltura de prisioneiros do outro lado é mostrada apenas como um pano de fundo. Nessa terra conflagrada, as notícias e cenas da tragédia e sofrimento humano de israelenses são acompanhadas de uma tentativa sórdida de esconder cenas similares dos 2000 reféns palestinos. A imprensa sempre faz questão de enfatizar que 250 estavam condenados à prisão perpétua e os restantes seriam prisioneiros. Nas entrelinhas, sugerem que todos são criminosos e conspiradores, a resistência à ocupação tem que ser criminalizada. Na verdade, são reféns sequestrados em Gaza e Cisjordânia por alguma das incursões de assentados e soldados israelenses. Na mídia e imprensa, os reféns palestinos são tratados apenas como números. Enfatiza-se que uns poucos israelenses foram trocados por muitos palestinos. A devolução dos reféns palestinos não é feita de forma ordenada e cuidadosa. Não se viram médicos ou um aparato para recebê-los. São focalizados de longe, saindo de ônibus cercados por uma multidão caótica, vigiada por soldados armados. Este é mais um capítulo na desumanização dos palestinos.
Omitir ou esconder o drama humano das famílias palestinas faz parte do processo de desumanização. Em Gaza, a imprensa não mostra a resiliência, a empatia, as ações de solidariedade, de acolhimento, de ajuda, de compartilhamento da dor, da fome e dos órfãos. Nesta Gaza totalmente destruída, os palestinos não foram retratados em seu sofrimento humano mais profundo, mas sim como terroristas ou como multidões famintas mendigando por comida. Nas telas, apenas cenas de um cenário distópico, sempre acompanhado da frase: luta contra o terrorismo. Há mais de dois anos, a imprensa normaliza a ideia de que a luta de Israel é contra o Hamas. As imagens do resultado dos bombardeios são sempre acompanhadas pelas alegações de que visavam algum terrorista. A morte dos civis é tratada como um mero detalhe. Na imprensa a notícia das mortes é sempre acompanhada pela frase de que os números são dados pelo Hamas. Israel usou e vai continuar usando o Hamas como escudo, para seguir com seus objetivos quase inconfessáveis. Esta narrativa esconde que o Hamas não tem apenas seu braço armado, mas também era o governo em Gaza, lidando com escolas, hospitais, saneamento e tudo que se relaciona com as necessidades humanas de Gaza. Dando continuidade à desumanização, classificaram todos os funcionários públicos, professores, médicos como terroristas membros do Hamas. Assim o governo israelense justifica o bombardeio de hospitais e escolas. Nas telas surge um porta-voz, dizendo que, estatisticamente, para cada civil morto, um terrorista foi abatido. Esta frase, mentirosa e absurda do ponto de vista humano, é tratada apenas como uma declaração. A mídia se cala, não analisa nem questiona. Rapidamente, a declaração se espalha pela rede e se torna uma verdade na boca de jovens israelenses nos TikToks da vida. Em cada pelotão, seus comandantes repetem estas frases como mantra, até que os seus reservistas não vejam nenhum palestino como ser humano.
Para justificar seus atos mais macabros na limpeza étnica, as lideranças fascistas e religiosas de Israel usam a desumanização dos palestinos e o atávico medo do “outro”, tão internalizado na comunidade judaica. Apesar de herdeiros do holocausto, nenhum jovem vivenciou o nazismo, mas todos se sentem ameaçados por um outro que sequer conhecem. Ninguém mais se lembra de que a narrativa desumanizando os judeus ganhou a Europa e foi usada para justificar o planejamento racional do holocausto.
A narrativa hegemônica em Israel cria uma parcela significativa de pessoas incapazes de compreender o seu vizinho como um outro ser humano. Nos reels e tiktoks da vida, pode-se ver jovens, e às vezes muito jovens, que já perderam toda a empatia, falam em matar, exterminar, falam em não se importar com a fome, com crianças, nem mulheres. Nas redes, soldados não escondem o rosto e falam abertamente em matar mulheres e crianças, ou até mesmo confessam quantos já mataram . Na Cisjordânia, no meio de selfies, gangues de delinquentes juvenis, balançando seus peiots, roubam, atacam e matam palestinos. Eles não temem mostrar o que fazem.São as milícias paramilitares de supremacistas como Gvir e Smotrich. Usam símbolos religiosos e ignoram a violação de todos os princípios religiosos e morais. Soldados armados até os dentes são filmados prendendo crianças, batendo em mulheres em meio ao escárnio e risadas. Se vangloriam de estarem defendendo o estado de Israel. Falam de uma terra ancestral quando vieram de lugares distantes. Quando esta guerra terminar, os jovens reservistas vão voltar para casa e, sem o inimigo, terão de encarar os resultados de seus próprios atos e a destruição de muitos mitos tão venerados. A imagem no espelho não será bonita.
Netanyahu está destroçando uma geração inteira de jovens. Após um longo silêncio ou escondimento, agora se fala que 2/3 da população é contra a guerra e contra Netanyahu. Esta é uma boa notícia. Porém, a má notícia é que terão de enfrentar 1/3 de fanáticos armados. Os assentados não aceitarão nenhum tipo de paz, o que vai gerar um conflito violento entre israelenses. Não podemos esquecer que Netanyahu é fruto do assassinato de Rabin por um fanático judeu.
O tal acordo histórico de paz é pura manipulação, tentando salvar Israel, que já é um pária internacional. O fluxo de dinheiro e armas está em risco. A economia israelense vai de mal a pior e o tecido social está completamente esgarçado. O governo de extrema direita está perdendo o controle sobre a narrativa, mas mantém o controle sobre as armas, as vidas e sobre o território. Ainda sobrevive graças à fraqueza internacional e à paralisia interna. A flotilha SUMUD desencadeou manifestações populares por toda a Europa, mas isto foi escondido pela grande imprensa no mundo e em Israel, pois desafia a narrativa.
Para continuar no controle da narrativa, Trump e Netanyahu usam o “plus ça change, plus c’est la même chose”. Não é sequer uma narrativa muito inteligente, mas o controle sobre ela é essencial. Num ato de prestidigitação, eles controlam a paz e resgataram os reféns, mas apoiam a violência que recrudesce na Cisjordânia e o exército foi apenas reposicionado. De bom apenas o cessar-fogo temporário. O cenário em Gaza mostra claramente a dificuldade de se encontrar os mortos, mas esta é a desculpa preferida por Netanyahu para retomar a destruição. Gvir e Smotrich apertam a corda e clamam pela continuidade da limpeza étnica. No momento, a tensão se estabeleceu no interior do governo, pois alguns sabem que a prestação de contas está chegando, a extrema direita não. A extrema direita, uma vez no poder, sempre pensa que é para sempre. Acaba de chegar a notícia de que Israel bombardeia Gaza. Convenientemente alegam que terroristas do Hamas cruzaram a linha amarela.
Netanyahu e seus dois cavaleiros do apocalipse destruíram a solução de dois estados, destruíram Gaza, continuam a destruição da Cisjordânia e, a médio prazo, destruirão Israel. Na grande Palestina não existe espaço para ganhadores.
Frederico Firmo – Possui graduação em Bacharelado em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado em Pós-Graduação em Física pela Universidade de São Paulo (1979) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1987). Atualmente é professor Titular aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina.
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Wallace de Oliveira
21 de outubro de 2025 3:14 pmParabéns pela lucidez!texto muito bom! Pena que a grande mídia internacional é os governantes fecham os olhos e continuam apoiando Israel, com exceção do Lula que desde o início da retaliação condenou e mostrou seu repúdio ao genocídio do governo de Israel.
Anônimo
21 de outubro de 2025 7:01 pmWallace
Obrigado. Ainda hoje a imprensa brasileira evita a palavra genocídio, como se isto fosse apagar a realidade. Ou de forma sórdida tenta usar isto contra o governo.
Celia oliveira
21 de outubro de 2025 8:40 pmParabéns pelo artigo Fred. Penso sempre no sofrimento do povo. Parece que a cobertura dessa guerra pela grande mídia é realizada por IA.
Rui Ribeiro
22 de outubro de 2025 8:10 amTrump não queria acabar com o genocídio dos Palestinos, ele queria apenas ganhar o prêmio nobel da paz. Mas deram para outra pilantra.