21 de maio de 2026

Há um ‘novo Brasil’ que precisa ser visto, por Adilson Filho

Creio que é chegada a hora de nos prepararmos melhor para as batalhas que já se apresentam como continuidade das travadas anteriormente
Sergio Dutti - PSB

Há um ‘novo Brasil’ que precisa ser visto

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por Adilson Filho*

Passados dez anos da ascensão do neofascismo em nosso país, considerando-se como ciclo inicial o período 2013-2022, já é possível perceber que uma parcela significativa do povo brasileiro, independente de classe social, regionalidade e outros marcadores, seja por ação ou reação e a despeito de qualquer juízo moral, está, hoje, do ponto de vista sociológico, mais identificada culturalmente à extrema-direita no que diz respeito à linguagem, valores e comportamento.

Partindo da hipótese de que o que emergiu nos últimos anos estava, em razoável medida, recalcado socialmente e tomou corpo político acionado por discursos que se conectaram a determinadas estruturas históricas arraigadas na sociedade brasileira – dentre as quais, a violência como resolução de conflitos e a religiosidade visceral – somado ainda a fatores contemporâneos da nova etapa do capitalismo mundial, como o hiper individualismo, o advento das redes sociais e a precarização do trabalho, creio que seja possível apontar que, hoje, o país vive um momento singular na sua história, onde há um tipo de alinhamento jamais visto entre as classes populares, médias e altas de todas as regiões se considerarmos à forma de ver o mundo social e atuar politicamente sobre ele.

Muito mais do que a ideologia tal qual aprendemos a reconhecer nos livros de História, é pela maneira de ocupar a arena pública que a extrema-direita, hoje, se conecta com as camadas populares em: violência da linguagem (real, virtual e corporal), violência como resposta imediata para conflitos, senso estético e gosto cultural, exaltação da ignorância como ativo político (aproveitando-se da sabotagem educacional secular praticada pelas elites dirigentes) rejeição à política institucional (mesmo operando dentro do sistema), lógica do esforço individual meritocrático e a religiosidade cristã efervescente.

Com as classes altas, a coisa muda de figura, pois estas já apresentam uma afinidade ideológica histórica com a cartilha da extrema-direita constatada na opressão e violência contra os grupos mais vulneráveis, o racismo incurável, a adesão hipócrita ao ufanismo, o discurso oportunista anti corrupção, o fetiche militar e o ultra neoliberalismo mais primitivo – confirmando o que o professor Alysson Mascaro costuma dizer de que “para um neoliberal virar um fascista basta apenas um passo”.

Com a fração mais reacionária da classe média (seja dos grandes centros ou do interior) que, ao emular o comportamento do ‘andar de cima’ deixa de ser classe pra se tornar uma “aberração social”, a extrema-direita se alinha organicamente no discurso da eliminação do outro via justiçamento, no falso moralismo político e no patriotismo protofascista-cristão evocado sempre em momentos-chaves da nossa história.

É claro que a análise acima não dá conta de uma realidade complexa e tão imbricada como a nossa, mas, ao resumi-la, fatalmente se chegará a conclusão de que o bolsonarismo talvez tenha sido o único movimento de extrema-direita capaz de amalgamar, pelas vias mais inusitadas, todas as camadas da população das mais variadas e radicalmente distintas regiões do Brasil. O que está longe de ser pouca coisa.

Como as camadas altas e a parte reacionária das camadas médias tendem a defender seus interesses mais mesquinhos à qualquer custo, se ainda acreditamos em ‘luta de classes’, está claro que com estas não devemos perder tempo. Mas e o povão? E a classe trabalhadora que uma parte considerável da esquerda ainda idealiza como se estivesse congelada no tempo da guerra fria: seja medindo pela própria régua valorativa, seja romantizando como revolucionária?

Um fato que não deve ser desprezado é que, de 2013 pra cá, houve uma mudança significativa na forma do cidadão comum, outrora desengajado, vivenciar a política nacional. Uma parcela expressiva da população que antes comparecia às urnas de quatro em quatro anos e quase não se manifestava nesse intervalo, de uma hora para outra, foi alçada a categoria de sujeito político ativo, o que vai fazer toda diferença. Hoje, um menino de 19 anos que faz entregas de 9 da manhã às 9 da noite, tem voz, tem lá o seu peso nas discussões do dia a dia, possui laços de identificação com outros pares que jamais teve e sente-se reconhecido por isso.

E quanto mais o trabalho precarizado e os mecanismos de manipulação  das redes deixam as pessoas mais ignorantes, mentalmente perturbadas e estimuladas para o confronto,  mais estas se sentem encorajadas a participar da vida política da pior forma possível. Resultado: o despejo de milhares de extremistas na arena pública. Estamos falando aqui de um contingente enorme de brasileiros, novos atores políticos paridos pelo monstro de 2013, triturados pela máquina de moer do neoliberalismo pós-golpe e, depois capturados por líderes extremistas. Creio que tudo isso deve ser considerado quando pensarmos em políticas públicas e na abertura de canais de diálogo em todos os níveis com a população: não só do ponto de vista institucional, mas, não menos importante, naqueles que se estabelecem na militância diária que exercemos nas ruas.

Uma boa parte da esquerda, por negação, autossuficiência ou por narcisismo mesmo, ainda tem enorme dificuldade de perceber e se reposicionar diante da nova realidade social brasileira. E como iremos, disputar corações e mentes – princípio central da luta política – se mal conseguimos enxergar o outro diante de nós? Em 2022, depois de golpe atrás de golpe e carregando as mesmas dificuldades que ainda persistem, saímos vitoriosos, mas passamos raspando por tudo isso.  

Hoje, um ano depois, quando ainda respiramos os ares de uma vitória sofrida que nos deu o merecido alívio, creio que é chegada a hora de nos prepararmos melhor para as batalhas que já se apresentam como continuidade das travadas anteriormente. As disputas municipais já batem à porta! Trata-se, não tenho dúvidas, de uma realidade que nós, do campo progressista, vamos ter que encarar com muita seriedade se quisermos dar a nossa colaboração para que o Governo Lula dê certo ao final e seja novamente consagrado nas urnas em 2026. 

*Adilson Filho é professor da Rede Estadual do Rio de Janeiro.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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