21 de maio de 2026

Intoxicações por metanol: uma reflexão de Saúde Pública, por Ion de Andrade

Não se trata de boicotar os destilados, mas de aguardar, sem consumo, as orientações claras da PF e do Ministério da Saúde
@ Biodiesel Brasil

Intoxicações por metanol: uma reflexão de Saúde Pública, por Ion de Andrade

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Além das epidemias, as intoxicações e envenenamentos são eventos de Saúde Pública que orbitam o interesse da epidemiologia, razão por que, enquanto epidemiologista, me sinto profissionalmente obrigado a opinar com o intuito de minimizar, o quanto possível, o surgimento de novos casos, sequelas e óbitos.

Não sendo titular de uma autoridade sanitária, que nesse caso pertence ao Ministério da Saúde, trarei aqui o que tenho aconselhado ao meu círculo de amizades e familiares e que me parece corresponder ao bom senso, cabendo a cada um fazer o seu próprio juízo.

Dito isso, temos que constatar que o quadro de intoxicações por metanol iniciado nessa semana ainda não foi dimensionado em sua magnitude.

Com já vários óbitos relatados em São Paulo e Pernambuco, além de sequelas graves em sobreviventes, como a cegueira, o problema assume uma importância imensa dado o potencial de vir a produzir mais casos, sequelas e óbitos.

Vale salientar que a dose letal de 20 a 30 ml de metanol puro, suficiente para matar um adulto, para ter sido capaz de produzir os óbitos, exigiu contaminação importante das amostras de destilado ingeridas pelas vítimas, pois essas bebidas que têm cerca de 40 a 45% de teor alcóolico, não são, normalmente, ingeridas em grandes volumes.

Considerando que uma dose de pinga, ou de outro destilado, tenha 50ml, que 20ml são álcool (normalmente etanol) e que a ingestão de mais de quatro doses, (200ml de cachaça) é excepcional, a dose de metanol nas amostras terá que ter somado pelo menos 20 a 30 ml desse possivelmente escasso volume ingerido, o que significa produção (e contaminação) volumosa da substância tóxica nos alambiques de origem.

Mas há mais: o sistema comercial brasileiro é ao mesmo tempo gigantesco, tem magnitude continental, e de difícil controle, o que inclui lonjuras de difícil acesso, por exemplo para a Vigilância Sanitária.

Esse sistema está penetrado, numa proporção desconhecida, por inúmeros produtos falsificados, o que inclui, e disso se sabe há muito tempo, as bebidas. Tais bebidas falsas, feitas, ao que parece, com embalagens em tudo iguais às originais, são vendidas em larga escala nesse mercado gigantesco.

Os destilados, por sua vez, não têm data de vencimento, o que significa que muita gente os compra quando já acabou a última garrafa para abastecer um consumo que pode ser ocasional, aumentando o risco de que o problema surgido agora possa vir a produzir envenenamentos futuros por anos, à cada abertura futura de uma garrafa contaminada.

Como se não bastasse, as investigações da Polícia Federal, que devem ser cuidadosas e precisas, podem demorar, dificultando a identificação ou dissipando pelo tempo e pelo apagamento das pistas por parte dos criminosos, a rede comercial que propagou a venda dessas bebidas na capilaridade o que poderá tornar a análise do alcance do problema imprecisa e a sua duração temporal muito maior.

Se por um lado não podemos superestimar esse alcance, com cenários catastrofistas, também não é admissível minimizar o que está posto.

O pânico além de contraproducente é também totalmente desnecessário, até mesmo por que, diferentemente de uma epidemia, não se envenenar está sob total controle do consumidor que para isso deverá apenas não beber destilados por um tempo.

O Ministério da Saúde já tornou obrigatória a notificação dos envenenamentos por metanol em todo o Brasil.

Essa decisão de registro, correta, deve ser dobrada de uma outra precaução ativa por parte da população: Não ingerir destilados recém comprados para o consumo em casa ou em bares e festas, comportamento que deveria durar até que a Polícia Federal tenha concluído e divulgado o seu mapeamento de risco.

É claro que a indústria de bebidas poderá sofrer, mas essas crises setoriais podem acontecer, sendo que o que não pode ser perdido de vista é a centralidade do direito à vida e do consumo seguro.

Não se trata, portanto, de boicotar os destilados, mas de aguardar, evitando o consumo, as orientações claras da Polícia Federal e do Ministério da Saúde para que esse consumo possa retornar com segurança, pois o cenário atual não é, infelizmente, mais o mesmo de antes.

Por hora, a ingestão de destilados recém comprados, ou desconhecidos (como o das caipirinhas e coquetéis que podem nos servir num bar, ou numa festa) se preenche de um risco que ninguém tem ainda como dimensionar.

Ion de Andrade é médico epidemiologista e professor e pesquisador da Escolas de Saúde Pública do RN, é membro da coordenação nacional do Br Cidades e da executiva nacional da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela democracia

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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