21 de setembro de 2026

O golpe por dentro do Supremo, por Luciana Bauer e Reynaldo Aragon

André Mendonça faz de uma investigação sem conclusão judicial o combustível para guerra interna no STF, rompendo o equilíbrio institucional
Reprodução redes sociais

André Mendonça, ministro do STF e vice do TSE, expôs investigação sigilosa e gerou crise interna no Supremo às vésperas da eleição.
A divulgação prematura da apuração sobre Alexandre de Moraes e outros fragiliza a confiança nas instituições e alimenta a extrema direita.
Conflito no STF coincide com interesses dos EUA e Big Techs, ameaçando a soberania brasileira e a estabilidade do sistema democrático.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O golpe por dentro do Supremo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

André Mendonça abre o maior golpe desferido no STF às vésperas da eleição e transforma a própria instituição em campo de batalha da guerra híbrida contra o Brasil

Por Luciana Bauer e Reynaldo Aragon

Às vésperas da eleição presidencial, André Mendonça transforma elementos de uma investigação ainda sem conclusão judicial em combustível para uma guerra interna no STF, rompendo – de forma brutal e sem arcabouço constitucional que o embase – o equilíbrio institucional da Corte. Uma frente de desestabilização que converge com os interesses da extrema direita brasileira e com a ofensiva dos Estados Unidos contra a soberania política e digital do Brasil.

Quando o Estado é colocado contra o próprio Estado

A pouco mais de um mês da eleição presidencial, o golpe mudou de lugar. Em 8 de janeiro de 2023, foi preciso quebrar vidraças, arrombar portas e invadir o Supremo Tribunal Federal. Agora, a desestabilização avança por dentro da própria institucionalidade. André Mendonça, ministro do STF, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral e um dos magistrados responsáveis pela condução do processo eleitoral, retirou o sigilo de material ainda submetido à apuração, expôs uma investigação que alcança integrantes das mais altas estruturas do Estado e lançou o Supremo numa guerra interna cujas consequências ultrapassam qualquer disputa pessoal com Alexandre de Moraes.

É preciso dizer desde o início o que está e o que não está em discussão. Não existe, até aqui, conclusão judicial que permita condenar Moraes pelas informações que emergiram do caso Banco Master. Se houver crime, que seja investigado, provado e punido. O problema é precisamente outro. Antes que a Justiça produzisse uma verdade processual, a suspeita foi lançada ao espaço público como fato político. Em poucas horas, Moraes, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e Gabriel Galípolo passaram a habitar a mesma atmosfera de suspeição de forma centripetra e possivelmente coordenada com a imprensa e vazadores que desde a Lava Jato operam impunes. A extrema direita imediatamente transformou essa matéria bruta em arma eleitoral. O STF deixou de aparecer como instituição capaz de processar uma crise e passou a aparecer como parte da própria crise.

É aqui que o acontecimento revela sua verdadeira dimensão. Um golpe no século XXI não precisa começar com tanques diante do Congresso. Pode começar quando os mecanismos do Estado são utilizados de maneira a destruir a confiança no próprio Estado, quando o procedimento antecede a prova, quando o vazamento produz sentença social antes do contraditório e quando uma instituição é empurrada para a guerra contra si mesma. O que André Mendonça abriu não é apenas uma crise no Supremo. É uma fissura no centro do sistema de contenção democrática brasileiro no momento exato em que esse sistema será colocado à prova pelas eleições de 2026. Mendonça hoje foi mais eficaz que as turbas insandecidas a depredar o Supremo no dia do Golpe.

Se cunha iniciou o golpe de 2016. Mendonça pode ter iniciado o próximo golpe de 2027 dando tons de messianismo constitucional ao que podemos taxar de conduta totalmente inconstitucional para com seus pares.

O supremo é julgado por um plenário e não pela imprensa. Mendonca não operma mais dentro das quatro linhas do estado do direito.

O ministro terrivelmente lavajatista Mendonça não apenas recebeu informações produzidas pela Polícia Federal. Ele movimentou a máquina. Determinou que a PF elaborasse, em 72 horas, um relatório específico sobre referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, separou esse material em uma nova frente processual, abriu vista à Procuradoria-Geral da República e, antes mesmo de uma manifestação conclusiva do Ministério Público, retirou o sigilo e empurrou o caso para o centro da arena pública. Depois, pediu que o assunto fosse levado a uma sessão presencial do Plenário. A sucessão dos atos importa porque revela algo maior do que uma divergência jurídica: uma investigação ainda em formação foi convertida, por decisão institucional, em acontecimento político nacional.

É nesse ponto que o método se torna tão grave quanto o conteúdo. A direção da Polícia Federal reagiu duramente e passou a questionar se o relator havia ultrapassado a função de supervisionar a investigação para assumir um papel ativo na produção de uma linha investigativa própria. Ministros do Supremo falaram em ruptura das regras internas e em um ambiente de vale-tudo. A PGR foi colocada numa posição ainda mais delicada, porque aparece ao mesmo tempo como instituição responsável por controlar juridicamente a investigação e como uma das estruturas atingidas pelas referências reveladas. O resultado é um curto-circuito institucional: quem investiga passa a ser questionado, quem fiscaliza passa a integrar a crise e quem deveria arbitrar o conflito passa a lutar pela própria legitimidade.

A guerra híbrida opera exatamente nessa zona cinzenta. Ela não precisa fabricar documentos falsos quando pode explorar documentos verdadeiros fora de seu tempo processual. Fora da logica constitucional e dos direitos e garantias fundamentais. Não precisa inventar uma acusação quando pode retirar um fragmento de contexto, lançá-lo na circulação pública e deixar que o ecossistema político produza a condenação. O tempo jurídico exige prova. O tempo informacional exige impacto. Quando esses dois tempos entram em choque, vence primeiro quem controla a percepção.

Por isso, o ato mais poderoso não foi a descoberta de uma mensagem, mas a transformação da investigação em espetáculo antes que a própria investigação pudesse dizer o que aquelas mensagens significavam. A partir desse instante, a Justiça deixou de conduzir sozinha o processo. A opinião pública, as redes, as campanhas eleitorais e os interesses políticos passaram a disputar o sentido do material em tempo real. E quando o sentido é capturado antes da prova, o processo continua aberto nos autos, mas a sentença política já começou a ser executada nas ruas.

As portas de um novo golpe com STF com tudo estão abertas: um novo golpe com o supremo fragilizado e vilipendiado como estamos vendo por um dos seus próprios ministros sera matéria fácil para ser tragado pelo próximo golpista de plantão em eleições.

É aqui que a crise deixa de ser apenas jurídica e revela sua natureza histórica. A guerra híbrida não precisa destruir o Estado de uma vez. Sua forma mais eficiente é fazê-lo perder progressivamente a capacidade de reconhecer quem o ataca, enquanto suas próprias instituições são empurradas umas contra as outras. O conflito passa a utilizar a legalidade, a informação, a economia, a tecnologia e a disputa eleitoral como partes de uma mesma correlação de forças. Tudo continua aparentemente funcionando. Os tribunais julgam, a polícia investiga, a imprensa publica, as plataformas distribuem, os candidatos discursam. Mas, por baixo dessa normalidade, a autoridade que sustenta o conjunto começa a ser corroída.

A contradição é brutal. O STF, que depois de 8 de janeiro se tornou uma das principais barreiras institucionais contra a extrema direita golpista, passa agora a produzir diante do país a imagem de uma Corte dividida, desconfiada de si mesma e incapaz de estabelecer sequer um terreno comum para processar a própria crise. A Polícia Federal contesta o procedimento de um ministro do Supremo. A Procuradoria-Geral da República é chamada a fiscalizar uma investigação na qual seu próprio chefe aparece mencionado. O Banco Central entra no circuito da suspeição. Em vez de uma instituição proteger a estabilidade da outra, forma-se uma cadeia de atritos capaz de consumir a legitimidade de todas.

Essa é uma das formas mais perigosas da guerra política contemporânea porque transforma a força do Estado em matéria-prima de sua própria vulnerabilidade. Não é preciso fechar o Supremo se for possível esvaziar sua autoridade. Não é preciso dissolver a Justiça Eleitoral se for possível fazer milhões de pessoas duvidarem de sua neutralidade antes da votação. Não é necessário impedir formalmente o funcionamento da democracia quando se consegue destruir a confiança coletiva sem a qual suas instituições se tornam apenas edifícios, cargos e ritos.

Para um país do Sul Global, essa dinâmica tem um peso ainda maior. Estados submetidos historicamente à dependência econômica, tecnológica e informacional não enfrentam apenas disputas domésticas. Suas crises internas são atravessadas por interesses externos capazes de explorar cada fissura. É nesse ponto que o conflito brasileiro deixa de ser apenas uma guerra entre ministros e passa a revelar uma disputa pela capacidade do próprio Brasil de decidir seu destino. O golpe híbrido começa exatamente assim: não quando a Constituição desaparece, mas quando as forças que deveriam sustentá-la passam a corroer umas às outras.

A essa altura, a crise já não pertence apenas ao Supremo. Ela entra diretamente na disputa eleitoral e encontra uma estrutura de interesses muito maior do que a briga entre ministros. Mendonça é vice-presidente do TSE e atua na propaganda das eleições de 2026. O primeiro turno está a pouco mais de um mês. No mesmo momento em que o STF se fragmenta, a extrema direita transforma o material do caso Master em arma de campanha, desloca o centro do debate e converte suspeitas ainda não julgadas em certezas políticas prontas para circular nas redes. O que a Justiça ainda precisa investigar, a máquina eleitoral já aprendeu a explorar.

É também nesse ponto que a crise brasileira encontra Washington. O governo dos Estados Unidos já transformou decisões do STF sobre plataformas digitais em questão estratégica, aplicou sanções contra Alexandre de Moraes, utilizou tarifas e instrumentos comerciais como pressão sobre o Brasil e tratou a regulação das Big Techs como conflito de interesse nacional norte-americano. Moraes tornou-se alvo não apenas da extrema direita brasileira, mas de uma estrutura de coerção externa que enxerga nas decisões brasileiras sobre plataformas, dados e soberania digital um obstáculo aos interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos.

Não há prova de que André Mendonça receba ordens de Washington. E afirmar isso sem evidência destruiria a força do argumento. O que existe é algo mais concreto e, do ponto de vista do realismo político, suficiente para exigir atenção: uma convergência objetiva de interesses. A extrema direita precisa enfraquecer o STF para reconstruir sua capacidade de ação. As Big Techs precisam reduzir a capacidade regulatória do Estado brasileiro. Washington pressiona as instituições que impõem limites às empresas norte-americanas e à sua projeção política. E, no centro dessa correlação de forças, uma crise interna aberta pelo próprio Supremo atinge exatamente a instituição que vinha funcionando como uma das últimas barreiras contra esses interesses.

É assim que a guerra híbrida amadurece. Ela não exige que todos os atores estejam reunidos na mesma sala. Basta que forças distintas descubram que podem avançar na mesma direção. O capital transnacional quer liberdade para operar. A extrema direita quer recuperar poder. Washington quer disciplinar um Brasil que regula plataformas, fortalece o BRICS e reivindica autonomia estratégica. As redes digitais precisam apenas converter cada fissura em espetáculo, cada dúvida em indignação e cada indignação em comportamento político. O tabuleiro se move sem que seja necessário um comando único.

Para um país periférico, esse é o ponto em que a disputa interna deixa de ser doméstica. O Brasil não enfrenta somente uma eleição. Enfrenta a tentativa permanente de decidir se continuará sendo um Estado capaz de impor regras ao capital, às plataformas e às potências estrangeiras ou se voltará à condição histórica que o sistema internacional reservou ao Sul Global: mercado, território, fonte de dados e espaço político administrado de fora para dentro. Quando a instituição que deveria conter essa pressão começa a se romper internamente, o problema deixa de ser apenas jurídico. Torna-se uma questão de soberania.

É preciso chegar ao fim sem cair na armadilha mais fácil: transformar Alexandre de Moraes em símbolo intocável. Não é disso que se trata. Se houver crime, que se investigue. Se houver prova, que se puna. A defesa da democracia não pode depender da blindagem de pessoas. Ela depende da preservação de regras, procedimentos, instituições e da capacidade coletiva de distinguir investigação de condenação, indício de prova, informação de sentença.

É exatamente essa fronteira que está sendo destruída. A suspeita começou em Moraes, alcançou Gonet, Andrei Rodrigues, servidores do Banco Central e Galípolo, e já produz o ambiente necessário para atingir o próprio governo. Esse é o mecanismo. Não é necessário provar que todo o Estado está corrompido. Basta produzir a percepção de que nenhuma instituição merece confiança. Quando tudo parece contaminado, qualquer ruptura pode ser apresentada como limpeza.

O Brasil conhece esse caminho. Em 2016, a ruptura foi construída por dentro das instituições, legitimada por procedimentos formalmente existentes e alimentada por uma máquina política e midiática que transformou exceção em normalidade. Em 8 de janeiro de 2023, a extrema direita tentou converter a deslegitimação acumulada em força física. Em 2026, o método pode estar atingindo um estágio mais sofisticado: utilizar as próprias contradições do Estado para enfraquecer sua capacidade de resistir.

É isso que precisa ser denunciado agora, antes que a fumaça esconda o incêndio. Golpes não começam no momento em que a Constituição é rasgada. Começam quando a sociedade é preparada para acreditar que ela já não serve, que seus tribunais não merecem confiança, que suas instituições são inimigas e que somente uma força externa ao pacto democrático pode restaurar a ordem.

Desta vez, talvez não precisem invadir o Supremo.

Basta fazê-lo desabar por dentro.

A lava jato mais uma vez, ao nunca ser corretamente enfrentada pelos três poderes, ganhou.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Luciana Bauer é jurista, pesquisadora e escritora. Pós-doutora em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em regime de dupla titulação com a Pace University (Estados Unidos). Doutora em Direito (SJD) pela Widener University Delaware Law School (EUA). Mestre em Ciência Jurídica pela Univali, em dupla titulação com o LL.M. da Widener University Delaware Law School. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atuou por mais de duas décadas como Juíza Federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    1 de setembro de 2026 5:50 pm

    O golpe continua sendo contra o Direito. A palavra do réu só tem valor de prova contra ele mesmo, nunca contra terceiros. Mas André Mendonça mudou isso, para plantar a semente de fraude em favor de Vorcaro e o ódio contra o STF na população ele usa a palavra do réu contra Alexandre de Moraes.

  2. Eduardo Ramos

    2 de setembro de 2026 4:02 am

    Texto magnífico, pela simplicidade, objetividade e lucidez com que desnuda as intenções torpes de André Mendonça. É golpe na veia, através do caos que vem da destruição da normalidade democrática pela descrença nas instituições. Os outros ministros precisam reagir duramente a essa traição ao próprio STF.

  3. Felipe de

    2 de setembro de 2026 2:43 pm

    A hipocrisia do devido processo de ocasião: o STF diante do próprio espelho

    O artigo de Luciana Bauer e Reynaldo Aragon constrói uma engenhosa narrativa de vitimização do Supremo Tribunal Federal ao classificar a recente atuação do ministro André Mendonça como uma “guerra híbrida” ou um “golpe por dentro”. Segundo os autores, a aceleração de prazos, a retirada do sigilo e a exposição de uma investigação contra integrantes da própria Corte configurariam um ataque sem precedentes ao equilíbrio institucional. No entanto, uma análise desapaixonada sobre a evolução do STF nos últimos anos revela uma verdade incômoda: a espetacularização da justiça e a flexibilização das garantias processuais não surgiram do nada — foram sistematicamente validadas, adotadas e celebradas pela própria Corte quando direcionadas aos seus opositores políticos.

    A tese de que a estabilidade democrática ruiu subitamente por uma ação isolada ignora o histórico recente do tribunal. O famoso bordão popular “pau que dá em Chico, dá em Francisco” resume com precisão o momento atual. Desde a instauração do Inquérito das Fake News em 2019, o STF inaugurou uma era de heterodoxia jurídica sob o pretexto de defender a democracia. Durante anos, decisões monocráticas sigilosas, bloqueios sumários de redes sociais, quebras de sigilo e prisões cautelares foram impostas a parlamentares, jornalistas e militantes sem a observância do devido processo legal estrito e sem qualquer incômodo por parte de setores da imprensa, que agora pedem cautela. Quando vazamentos seletivos atingiam adversários, a velocidade e o espetáculo eram aclamados como “resposta firme”; hoje, ao atingir o andar de cima, viram “golpe”.

    Apontar abuso na determinação de prazos exíguos à Polícia Federal ou no levantamento de sigilo de autos em andamento é ignorar que essas mesmas práticas foram transformadas em rito padrão dentro do STF. Relatores que assumem o papel de investigadores, decisões de impacto público tomadas sem a manifestação conclusiva do Ministério Público e a utilização da imprensa para produzir condenações sociais antes do trânsito em julgado foram o modus operandi que a própria Corte ajudou a consolidar. Exigir o devido processo legal, o garantismo e o respeito à imagem das instituições apenas quando os atingidos são ministros ou altos funcionários do Estado não é defesa da ordem constitucional — é a aplicação escancarada de um duplo padrão.

    A fragilidade e a exposição em que o Supremo se encontra hoje não decorrem de ordens vindas de Washington ou de conspiradores externos, mas sim das escolhas estratégicas da própria instituição. Ao voluntariamente abandonar a posição de juiz neutro para atuar como tutor da política nacional, o STF aceitou os riscos da arena política. Quando a interpretação da Constituição varia de acordo com o polo passivo da investigação, a autoridade moral do tribunal é corroída por si mesma. O que se assiste hoje não é uma nova tática de desestabilização, mas sim o Supremo sendo obrigado a provar do próprio remédio que prescreveu ao país durante anos.

    1. GalileoGalilei

      5 de setembro de 2026 7:47 pm

      A engenhosa narrativa não é dos autores do artigo, mas sim do comentarista acima, Felipe de… quê mesmo? O comentarista parte, da surrada tática de constatar que a água do banho está suja, para tentar justificar jogar fora a água junto com o bebê. Isso já foi feito tantas vezes e ainda há quem acredite na lorota. Dá-se um golpe para salvar a democracia, dá-se poder a um corrupto para combater a corrupção, apela-se às milícias para combater as facções. O que ocorreu neste exato momento, a menos de um mês das eleições, não foi uma casual descoberta de um malfeito praticado por um Ministro qualquer da mais alta Corte. O que ocorreu, sim, foi uma intencional e bastante irregular ação midiática com o propósito de assaltar o poder. Através, primeiramente, da geração de tumulto e pânico capaz de induzir o eleitorado a um comportamento capaz de eleger como Presidente o representante da família de extrema direita. Segundamente para garantir representantes dessa mesma quadril família em número suficiente para trocar os Ministros da mais alta corte por indivíduos terrivelmente correligionários do autor do ato infame. Um golpista confessadamente colocado na Suprema Corte com este propósito. Se o golpe der certo, elege-se o filhinho do golpista presidiário como Presidente e elegem-se, também senadores em quantidade suficiente para tomar de assalto o STF. Que isso faria sorrir ao chefão lá em Washington pode ser apenas uma mera conjunção momentânea de interesses daqui e de lá. Mas pode, diante de tantos outros exemplos históricos, não ser tão casual assim, também.

      1. GalileoGalilei

        6 de setembro de 2026 11:05 am

        De fato, a minha referência a jogar a criança fora junto com a água suja do banho não é a mais adequada. O que parece ser mais o próximo da realidade é jogar a criança fora e manter intacta a água suja do banho.

  4. Veritas

    4 de setembro de 2026 10:14 am

    Bandidos sempre zombam das leis, da polícia,dos juízes e dos tribunais. Amplificaram a zombaria, mas nunca tiveram capacidade de compreensão, nem de entendimento, nem bondade, verdade , nem beleza, nem honra, nem legitimidade para desfazerem as enormes injustiças humanas e sociais que estão aí. Usam agora o abuso de poder e logo logo usarão a força bruta, como a extrema direita sempre faz e fez.

Recomendados para você

Recomendados