5 de junho de 2026

O esporte sendo devorado por casas de apostas, por Doney Corteletti Stinguel

Contando com a facilidade de se apostar via internet e a omissão por parte das autoridades, as casas de apostas se alastraram
Reprodução/Redes sociais

O esporte sendo devorado por casas de apostas – por Doney Corteletti Stinguel

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As casas de apostas invadiram o mercado brasileiro e, como de praxe, onde há apostas, há corrupção e toda sorte de crimes.

Não é a toa que no Brasil as apostas são controladas via Caixa Econômica Federal, justamente para impedir estas práticas nocivas.

Contando com a facilidade de se apostar via internet e a omissão por parte das autoridades, as casas de apostas se alastraram. O óbvio começou então a acontecer: jogadores e juízes passaram a ser aliciados para atender às apostas, um caso clássico de corrupção que enlameia todo o esporte. Mal dá pra dizer o quanto isso perverte a prática esportiva, jogando uma sombra funesta sobre tudo. Por exemplo: um jogador perde um pênalti. Não é algo incomum, todos os grandes jogadores da história já perderam pênaltis. O ponto é que quando há essa suspeita por conta de apostas, a pergunta ficará no ar: desperdiçou a penalidade só por que errou ou por que recebeu dinheiro para fazê-lo? A mesma sombra vai pairar sobre cada marcação dos árbitros: ganhou ou não ganhou para fazê-lo?

Se essa sombra pairar sobre todo esporte, não há paixão que resista. Tudo fica manchado – mesmo que naquele jogo específico, nada de desonesto tenha ocorrido.

Pior, se um jogador/árbitro “se vende” para um desses aliciadores, estará na mão deles para sempre, posto que eles têm as provas da corrupção. Em outros termos, os árbitros e jogadores aliciados terão de se “vender” sempre que os apostadores assim quiserem. É uma prisão eterna.

O natural é o discurso moralista sobre a lisura e a honestidade dessas pessoas aliciadas. Contudo, ante o oferecimento de uma quantidade de dinheiro muito grande, às vezes na casa das centenas de milhares de reais, há de se reconhecer o óbvio: é uma proposta muito tentadora e muitos acabarão caindo. Nem todos os jogadores de futebol ganham tanto assim, e no caso dos árbitros a coisa é ainda mais grave, posto que o salário deles é bem menor. É um óbvio elo fraco no qual os aliciadores podem atacar – e estão atacando.

É preciso, portanto, uma atuação sistêmica contra o caso, e não ficar dependendo de investigações/punições pontuais – ademais porque mesmo que os corruptos/corruptores sejam punidos, o estrago já foi feito e o campeonato já foi enlameado.

A parte mais funesta da situação é que as grandes casas de aposta inundaram o futebol brasileiro e veículos de comunicação com anúncios. Clubes, veículos de imprensa e até mesmo canais no YouTube de comentaristas recebem patrocínios dessas casas de aposta. Qual é a isenção deles para falar sobre o assunto? Eles não têm moral nenhuma pra falar nada, posto que estão ganhando dinheiro dessas mesmas casas de aposta e, portanto, a análise é completamente enviesada.

“Enviesada”, aqui é um eufemismo.

O que vários desses comentaristas que ganham dinheiro das casas de apostas passaram a falar, então, de maneira torta e mutilada, arrotando uma isenção que não possuem, é sobre a necessidade de “regulá-las”, de deixar apenas empresas sérias no mercado e cobrar os devidos impostos. Argumentam ainda que não será possível coibir as apostas irregulares.

É uma análise rotundamente falsa e errática.

Primeiro que as apostas podem ser bloqueadas. Se as autoridades competentes proibirem esses sites, eles só poderão ser acessados pela “deep web” e sua atratividade vai quase a zero. As apostas passam a ser feitas por poucas pessoas e, portanto, deixam de ser rentáveis.

Outro aspecto é que a regulação não apenas não resolve a situação, como ainda dará um ar de lisura a algo inerentemente putrefato. Por mais que você regule, há formas fáceis de burlar os mecanismos dessas empresas (por exemplo, para não chamar atenção com uma aposta muito grande, pode-se dividir as apostas por vários laranjas em várias casas de apostas diferentes).

O único meio sensato de regulamentar o setor de apostas sem grandes riscos de comprometimento é proibir todas as casas de apostas e passá-las exclusivamente para a Caixa Econômica Federal – uma empresa séria que é um patrimônio nacional e que tem a estrutura e os meios para fazê-las. Centralizando todas as apostas ali, é muito mais fácil observar um desvio específico. Ainda assim não é impossível haver alguma burla, mas é muito mais difícil. Naturalmente, por óbvio, a Caixa também já faz as devidas cobranças de impostos e afins.

Quem aprecia esportes tem de ter a noção do risco que a atividade está correndo hoje. Não vai demorar para ver atletas/juízes banidos por causa de corrupção (fato desfavorável e que não resolverá o problema). E pior, campeonatos inteiros corrompidos, com a lisura comprometida porque em alguns jogos houve favorecimento para A ou para B.

O esporte brasileiro está sobre risco e aqueles que deveriam lutar para defendê-lo – clubes, imprensa esportiva etc. – não o farão porque também estão recebendo parte do butim.

Espero que Flávio Dino – o melhor ministro do governo Lula – tenha o discernimento e a lucidez de observar o risco que o esporte brasileiro está correndo. Há quem esteja disposto a sacrificar e apodrecer o esporte como um todo apenas para preservar seus próprios ganhos com anúncios dessas empresas. E é preciso deixar claro: as casas de apostas e os que delas recebem dinheiro não são parte da solução, mas parte do problema.

Doney Corteletti Stinguel é operário, autor do blog e do canal Lista de Livros.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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