21 de maio de 2026

O frigobar da Casa Branca e a Venezuela em 39 segundos, por Armando Coelho

Na retórica trompista a Venezuela é um narcoestado. A pergunta é: se derrubar Maduro o tráfico de drogas para os EUA cessaria?
Reprodução

O frigobar da Casa Branca e a Venezuela em 39 segundos

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por Armando Coelho Neto

Quem manda nos Estados Unidos? É só abrir o frigobar da Casa Branca e ver se tem Pepsi ou Coca-Cola. De origem duvidosa, a frase atribuída ao escritor uruguaio Eduardo Galeano serve para ilustrar a falsa alternância de poder naquele país. Há quase um século, as famílias Roosevelt, Kennedy, Bush, Clinton ou gente apoiada por elas se alternaram. Mesmo com menos votos um presidente vence uma eleição.

Ainda assim, durante anos os EUA foram tratados como a maior democracia do mundo. A engenharia social analógica migrou para as estripulias dos algoritmos, e dita as regras do mundo, o certo ou errado, o é ou não é. Com Deus e o diabo nas mãos, “Cocôrina” pode ser Nobel da Paz, Guaidó pode ser reconhecido como presidente e grupos de resistência ganham rótulos de facções terroristas.

Ser democracia ou reconhecido como presidente é subjetividade do frigobar da Casa Branca. Zelensky ainda é presidente! Um país pode não ter eleição há dois mil anos, mas se tem petróleo e é amigo dos EUA, está do lado do bem. Como diria Tim Maia, deu no New York Times, de forma que qualquer abobrinha escrita em inglês ganha status de doutorado. É o manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Tanto lá quanto cá, bruxas há. Yes, eles têm Fox News! “É nóis”, a gente tem Globo, Folha, Estadão e outros lixos para reproduzir o pensamento estadunidense. É o que vale. Crianças não foram assassinadas na Palestina, apenas viraram anjinhos. O destilado que mata pobre só é notícia se matar classe média premium. O importante, como diz o PCC, digo, o Tarcísio Tretas, é não batizar a Coca-Cola (normal).

O normal lá de cima tem duplo sentido. Em quaisquer circunstâncias, vale o interesse estadunidense, o que lhe garante (por motivos “nobres”) invadir países por razões inconfessáveis, embora presumíveis. Da proteção de interesses de cidadão e patrimônio americanos; dos direitos humanos ao combate ao comunismo; da guerra ao o terror e às drogas… proliferação de armas de destruição em massa, etc.

Nesse exato momento, quase todas as desculpas acima servem para Trump atacar a Venezuela. Via satélite, ele observa, julga sem contraditório e condena à morte pessoas. Para o ianque, é mais fácil enganar o mundo destruindo um barquinho de lata ocupado por miseráveis, a pretexto de combater o tráfico de drogas, do que perguntar: quem lucra com isso? Como fica a boa e velha receita do siga o dinheiro?

Seguir o dinheiro, entretanto, parece não soar uma boa prática. Afinal, pode esbarrar até em financiadores de campanha, resvalar no fenômeno da “Dark Money” (dinheiro obscuro lá, dinheiro sujo aqui). E, como costuma lembrar o polêmico geopoliticólogo Rubem Gonzalez, curiosamente só existe traficante de drogas nos EUA com sobrenome hispânico. E se o dinheiro revelar um sobrenome ligado ao MAGA?

Cabe lembrar que nos EUA vivem os maiores consumidores de droga do mundo, sem que se reflita profundamente sobre as causas. Lá, todos os dias pessoas são presas por tráfico de drogas e não são executadas. São presas, têm direito a ampla defesa, são julgadas. Não tem pena de morte, exceto nos estados da Flórida e Missouri, e, mesmo assim, apenas para os denominados casos de “larga escala”.

Em 39 segundos, pode-se dizer que os EUA já invadiram o Vietnã para combater o comunismo, onde levaram uma surra! Honduras foi assacada, literalmente por causa de bananas e o Panamá para “restaurar a democracia”. Já no Iraque e na Síria, o pretexto foi combater a existência de armas de destruição em massa “em mãos erradas”. Sim! Tem mãos certas credenciadas pelo frigobar da Casa Branca.

Na retórica trompista a Venezuela é um narcoestado. A pergunta que não quer calar é: se derrubar Maduro o tráfico de drogas para os EUA cessaria? Certamente não. Não é Maduro, nem droga, nem democracia, nem direitos humanos. A penúria social e carências humanas de venezuelanos e cubanos não importam. Aliás, miséria alguma, a começar pelo flagelo humano que se alastra pelos Estados Unidos.

Venezuela rima com balela. O maior tráfico de drogas nos EUA não se dá via mar do Caribe ou o oceano Atlântico, mas sim pelo oceano Pacífico. Mas, Trump segue de forma histriônica a receita invasora. Reza a lenda que depois de um tiro na orelha direita, ele passou a ouvir com uma só. Se ouvisse com a outra orelha, daria para explicar em 39 segundos. Abre o frigobar! É farsa! Fala sério, bufão! É o petróleo!!

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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