
Troféu Bacalhau Sangrento para o Comitê Norueguês do Nobel
por Armando Coelho Neto
Sombria esperança, forte o cheiro de cadaverina exala da Palestina e se espalha pelo mundo. Vige a hipocrisia de uma pantomina indecifrável na notícia do Prêmio Nobel. De repente, faz sentido a “filosofada” da então candidata à Presidência da República Dilma Rousseff, em 2010. “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”.
O Nobel da Paz foi pré-anunciado em clima de série Natal Netflix. Sob aura mítica e melosa de novela mexicana, um telefonema emocionado, vozes embargadas. Da CNN à Globo et caterva, o secretário do “Comitê Norueguês do Nobel”, Kristian Berg Arpiken, diz para a extremista de direita venezuelana, Maria Corina Machado, o Nobel da Paz é seu. Ela, fingindo surpresa, emoção e modéstia diz: “Não mereço”.
Não merecia mesmo. Fez falta ao comitê buscar o sentido da palavra paz. Kristian Arpiken viveu no Afeganistão! Sim, país onde os EUA para tirar os talibãs do poder, gastaram 2 trilhões de dólares, deixaram morrer 240 mil afegãos e 2,5 mil militares norte-americanos, quatro presidente trocados, durante 20 anos. Ao final devolveram o poder aos talibãs. A tragédia, como já registrado nesse GGN, virou piada nos EUA.
Kristian sabe de guerra e paz. Mas portador não merece pancada. Corina, assim como Barack Obama, estava dormindo. Foram acordados com a notícia. Coisas de fuso horário, mas acordar o vencedor sob canto de galos dá mais glamour a hipocrisia mundial (há controvérsias). Ah! Não foi Kristian quem comunicou o prêmio ao Obama, mas este também disse não ser merecedor. Não merecia mesmo, pois!
Leia-se, o prêmio pode ir, mesmo para quem não merece. Por exemplo, o Nobel da Paz de 1973 foi para o estadunidense Henry Kissinger e o vietnamita Le Duc Tho “por terem negociado conjuntamente um cessar-fogo no Vietnã em 1973”. O primeiro, que expandiu a guerra, aceitou, mas, não foi à cerimônia. Depois, tentou devolver. Já o segundo recusou o prêmio por que a paz não havia sido alcançada.
Obama fez nada e ganhou Nobel. Trump também queria, apenas dourando pílula, para que o mundo aceite Benjamin Netanyahu – o assassino do século. Não tem paz, o Hammas está vivo, ativo e deixou herdeiros. Vidas perdidas serão chagas eternas, e bilhões de dólares gastos no novo holocausto continuarão rendendo fortunas nas caixas registradoras, na reconstrução, na bolsa de valores…
Vidas é o que menos importa. Generais estadunidenses falam em “vencer uma guerra nuclear com apenas 30 milhões de baixas norte-americanas”. A palavra “apenas” assusta tanto quanto os “milhões”. O relato é do major General Agostinho Costa (Portugal), citando artigo publicado nos EUA. Vidas, guerras, democracia nada importa. Qualquer discurso vale para legitimar a banalização da vida.
Na linha do ‘quem paga o baile escolhe a música’, o que se ouve mundo afora é som de bombas escolhidas por Trump. Mesmo o mundo sabendo que os EUA não fazem paz nenhuma, tratam pelo nome de paz um cessar fogo provisório, e não raro para tirar parceiros do sufoco ou mesmo para rearmá-los para nova rodada. As guerras da Otan contra os russos e de Israel contra iranianos que o digam. Prêmio Nobel?
O que Trump merece mesmo é o prêmio Armagedom. Já para a extremista Corina, mais sentido faria o troféu Arepa de Bronze. No melhor estilo Dudu Bananinha, Corina tem seu nome ligado à corrupção e golpes. Pede sanções, taxações e intervenção dos EUA contra a Venezuela, quer o fechamento do Congresso e da Suprema Corte, anistia, além do fim de garantias legais para a população. Paz?
Ora pois, se Corina e Bananinha fazem uso das mesmas tramoias contra seus países, e estão sob proteção do mesmo carrasco (Trump), eles poderiam dividir o prêmio, não? Confusa, a Noruega vê Brasil e Venezuela como uma tralha só. Lula e Maduro seriam e teriam a mesma cepa, dignos do mesmo cipoal. Parafraseando Dilma, entre ganhar e perder, sem perder ou ganhar, o mundo civilizado perdeu.
O Nobel cheira a cadaverina, e nesse inventário de cicatrizes e sem testamento, ninguém vai ressuscitar mortos, recompor mutilados, reorganizar e cicatrizar corações e mentes. Os ecos de dor sob escombros permanecem ativos. Envergonhado, resta ao Comitê Norueguês do Nobel o Troféu Bacalhau Sangrento, por distorcer o sentido da palavra paz e glamourizar o genocídio em Gaza.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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NELSON VIANA DOS SANTOS
15 de outubro de 2025 10:49 amArmando, impecável na análise. Depois que o prêmio Nobel da paz foi concedido a Kissinger e Obama; depois de Trump acalentar o sonho de ser escolhido (ainda terá três anos de mandado), a premiação da extremista de direita Corina é até café pequeno. O chamado Ocidente perdeu qualquer resquício de decência — a atitude dos países Europeus a respeito do genocídio em Gaza fala por si.
Jean Marcel
17 de outubro de 2025 10:56 pmArmando, tá brabo? Morde as costas!
Armando
18 de outubro de 2025 2:36 pmAo que parece, é o leitor que ficou bravo com o texto. Esquerda? Hummm Inseto? Hummmm
Num mundo de guerras não seria mais sensato um real debate sobre paz?
Jean Marce
17 de outubro de 2025 10:57 pmEstão bravos? Mordam as costas! Insetos esquerdistas.