10 de junho de 2026

O gângster, o sequestrado e o deboche da imprensa, por F. Ponce de León

O nó que estrangula a economia política venezuelana talvez seja o próprio gigantismo de suas reservas de petróleo
Reprodução

Forças militares dos EUA invadiram Caracas e sequestraram o presidente da Venezuela, motivadas por geopolítica.
The New York Times classificou o ataque como ilegal e imprudente, suspeitando de agentes locais envolvidos.
Imprensa brasileira criticada por reproduzir informes da Casa Branca e não promover debates internacionais aprofundados.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Enviado por Felipe A. P. L. Costa.

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O gângster, o sequestrado e o deboche da imprensa.

por F. Ponce de León, do blogue Poesia Contra a Guerra.

O sequestro do presidente da Venezuela por militares estadunidenses nada tem a ver com narcotráfico, corrupção ou crimes contra a democracia. Trocando em miúdos, ao contrário do que alardeia a propaganda, a motivação nada teve de nobre ou justa. Foi apenas a geopolítica em ação. Ocorre que as leis que regem a geopolítica global seguem inalteradas desde o surgimento dos primeiros estados: os estados mais fortes subjugam e pilham os vizinhos mais fracos; se houver alguma resistência, os mais fracos são invadidos e aí, a depender das circunstâncias, os homens que não forem mortos em combate são escravizados, enquanto as mulheres e as crianças são levadas como parte do butim.

1. AS MAIORES RESERVAS DO MUNDO.

O nó que estrangula a economia política venezuelana talvez seja o próprio gigantismo de suas reservas de petróleo – as maiores do mundo, as reservas venezuelanas correspondem a quase 7 vezes as reservas dos EUA, o maior consumidor mundial, e a 19 vezes as reservas brasileiras (para detalhes, ver 2025 OPEC Annual Statistical Bulletin). Desses extremos, surgem então dois tipos de consumidores despreocupados: (1) o venezuelano não se preocupa com o preço da gasolina, pois está sentado sobre um mar de petróleo e aí ele paga pouco pelo litro de combustível; e (2) o estadunidense não se preocupa com o consumo excessivo, o desperdício ou, em última instância, o fim das reservas nacionais; afinal, se houver necessidade, o governo aciona as forças armadas; estas, então, irão drenar ou, se for o caso, simplesmente pilhar as reservas de outros países – afinal, as forças armadas dos países imperialistas servem exatamente para isto: coagir, subjugar e pilhar os vizinhos mais fracos. Pois foi mais ou menos isso o que ocorreu em Caracas, na madrugada de hoje (3/1): a mando de um gângster corrupto (ver, e.g., aqui e aqui), forças militares dos EUA invadiram e sequestraram o presidente da Venezuela.

2. “ATAQUE ILEGAL E IMPRUDENTE”.

Como se lê em editorial do The New York Times (ver aqui), o ataque de Trump à Venezuela foi ilegal e imprudente. (Há bons motivos para suspeitar que o ataque foi facilitado pela participação de agentes locais. De resto, para fins de argumentação, não faz diferença alguma aqui saber qual dos dois países seria o menos democrático ou qual deles seria o mais corrupto.)

Particularmente triste e vergonhoso é constatar, mais uma vez, a tibieza da imprensa brasileira. Seja grande, seja pequeno, seja de direita, seja de esquerda, dificilmente veremos algum veículo da nossa imprensa fazer algo parecido com o que o canal Al Jazeera está acostumado a fazer – e, no caso de hoje, já fez. Estou a me referir a um painel com diferentes observadores – um deles residente em Caracas, outro, nos EUA, e, o terceiro, um ex-assessor do presidente venezuelano a falar desde o Uruguai (ver aqui).

3. CODA.

Não é por falta de dinheiro ou de caráter que a imprensa brasileira não promove esse tipo de conversa; é, sobretudo, pela falta de compromisso com um jornalismo sério e profissional. (Basta ver o seguinte: qual emissora de TV brasileira tem correspondente fixo em algum outro país da América do Sul? A única exceção talvez fique por conta da Argentina, e olhe lá.) Em casos como o de hoje, o que a imprensa brasileira está acostumada a fazer se resume a reproduzir os informes divulgados pela Casa Branca. O que é, convenhamos, uma tremenda vergonha e, no fim das contas, um tremendo deboche.

* * *

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. WRamos

    5 de janeiro de 2026 11:11 am

    Acho que nem o petróleo justifica a ação de Trump. Deve ser apenas jogo de cena para empurrar a situação política interna. Não acredito que esta cambada atualmnete no governo dos EUA tenha qualquer projeto geopolítico. Não passam de negociantes e vivem atrás de uma grande tacada. Paul Krugman fez hoje uma afirmação interessante: “Sabe quem não tem interesse no petróleo da Venezuela? As petrolíferas!”. Entendem que a infraestrutura está imprestável, terão que investir demais para produzir. As reservas são enormes, mas o petróleo não é bom. É extra pesado, custa caro para refinar e é excessivamente poluente. Isto talvez explique a aparente incompetência do regime bolivariano em transformar tamanha riqueza em força política. Não basta ter um estoque inesgotável de produto se ele não se transforma em mercadoria.

  2. Gaspar

    5 de janeiro de 2026 11:37 am

    Aplauso!

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