O país mais fascista do mundo, por Wilson Ramos Filho

 
O país mais fascista do mundo
 
por Wilson Ramos Filho
 
A Direita Concursada não criou o fascismo, potencializou-o. O resultado é o Coiso. 
 
A pesquisa do instituto datafolha é estarrecedora. Destaco alguns elementos. 
 
– metade da população acredita ser possível uma ditadura militar no Brasil;
– 24% acham que o governo tem o direito de proibir greves;
– 41% acham que o governo pode intervir nos sindicatos;
– 33% consideram que o governo deve ter o direito de proibir o funcionamento de alguns partidos políticos;
 
Note-se que a referência é ao “governo”. Ou seja, um governo autoritário contaria com o apoio de 1 em cada 4 brasileiros para proibir greves, afastar diretorias de sindicatos e tornar ilegais partidos de esquerda.

 
Não é pouca gente. Estamos falando de algo em torno de 50 milhões de pessoas. Mais que o número de habitantes de países como a Espanha ou a França. 
 
Percentuais semelhantes atestam a concordância caso o governo queira censurar ou fechar jornais (23%) ou o Congresso (21%). A inflexão fascista fica mais evidente quanto às garantias individuais: 1 em cada 3 brasileiros concorda com a prisão de suspeitos sem a prévia autorização judicial (!) e 16% aceitam a tortura como método de investigação. Quase metade dos brasileiros concorda com o controle pelo governo do conteúdo das redes sociais. 
 
Essas pessoas se tornaram abertamente fascistas. Muitas delas se desumanizaram definitivamente. São irrecuperáveis para qualquer projeto civilizatório. 
 
Trata-se de uma pesquisa nacional, com quase 10 mil entrevistas, seguindo as normas da estatística e da estratificação social, contemplando percentuais de grau de instrução, de renda, de idade e de região geográfica. O resultado, portanto, escancara uma média nacional. 
 
Gostaria de conhecer os dados segmentados. Apenas para confirmar a percepção empírica de quem vive em cidades mais abertamente fascistas e em alguns extratos sociais. Em Curitiba milhares de carros exibem, impudicos, adesivos de Eu Apoio a Lava-Jato. Nas ruas se sente que aqueles percentuais indicadores do fascismo certamente se encontram acima da média nacional. 
 
Analisando-se a visão de mundo em grupos específicos (os antropólogos aludem a “tribos urbanas”) a intranquilidade refulge. Penso nos grupos de motociclistas, de jipeiros, de colecionadores de carros antigos, ou mesmo nos marombados e dondocas de academias de ginástica ou nos grupos que, controlando desempenhos individuais, se vangloriam a cada segundo baixado nas corridas de rua ou nos parques públicos. Nestes segmentos o fascismo explícito se transformou em passaporte para aceitação social, pela estigmatização negativa dos que teimam em manter-se minimamente humanos. Nessas tribos os percentuais de fascistas seguramente desbordam das médias nacionais.
 
As mesmas perguntas, formuladas apenas a funcionários públicos (principalmente àqueles do aparato repressivo estatal, como Judiciário, Ministério Público, policiais civis, militares, guardas municipais, polícia federal, entre outros) trariam aos democratas um desassossego insuportável. Melhor nem fazê-las. Aqui a ignorância é condição para a manutenção de um mínimo de esperança. 
 
A Direita Concursada destruiu as possibilidades de um convívio social. Essa gente transformou o Brasil no país mais fascista do mundo, com maior número de pessoas que consideram aceitável o governo proibir greves, intervir em sindicatos, fechar o parlamento, censurar a imprensa e as redes sociais, prender pessoas sem autorização judicial, tornar ilegais partidos políticos oposicionistas ou torturar pessoas. 
 
Nem todos os eleitores do Coiso são totalmente fascistas. Muitos deles o são apenas parcialmente. E nem sabem disso. Estes, em uma hipótese otimista, talvez sejam recuperáveis para o convívio democrático. Os outros, não. Tudo depende dos resultados eleitorais no segundo turno. Caso o fascismo se transforme em política de governo, a Direita Concursada o transformará em política de Estado. Ainda dá tempo. 
 
Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em Direito, professor universitário UFPR/UFRJ.

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10 comentários

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  2. Pátria Minha, Vinícius de Moraes

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=zra_IHH6mrE%5D

    PÁTRIA MINHA

    Barcelona , 1949

    A minha pátria é como se não fosse, é íntima 
    Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo 
    É minha pátria. Por isso, no exílio 
    Assistindo dormir meu filho 
    Choro de saudades de minha pátria. 

    Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi: 
    Não sei. De fato, não sei 
    Como, por que e quando a minha pátria 
    Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água 
    Que elaboram e liquefazem a minha mágoa 
    Em longas lágrimas amargas. 

    Vontade de beijar os olhos de minha pátria 
    De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos… 
    Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias 
    De minha pátria, de minha pátria sem sapatos 
    E sem meias, pátria minha 
    Tão pobrinha! 

    Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 
    Pátria, eu semente que nasci do vento 
    Eu que não vou e não venho, eu que permaneço 
    Em contato com a dor do tempo, eu elemento 
    De ligação entre a ação e o pensamento 
    Eu fio invisível no espaço de todo adeus 
    Eu, o sem Deus! 

    Tenho-te no entanto em mim como um gemido 
    De flor; tenho-te como um amor morrido 
    A quem se jurou; tenho-te como uma fé 
    Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito 
    Nesta sala estrangeira com lareira 
    E sem pé-direito. 

    Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra 
    Quando tudo passou a ser infinito e nada terra 
    E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu 
    Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz 
    À espera de ver surgir a Cruz do Sul 
    Que eu sabia, mas amanheceu… 

    Fonte de mel, bicho triste, pátria minha 
    Amada, idolatrada, salve, salve! 
    Que mais doce esperança acorrentada 
    O não poder dizer-te: aguarda… 
    Não tardo! 

    Quero rever-te, pátria minha, e para 
    Rever-te me esqueci de tudo 
    Fui cego, estropiado, surdo, mudo 
    Vi minha humilde morte cara a cara 
    Rasguei poemas, mulheres, horizontes 
    Fiquei simples, sem fontes. 

    Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta 
    Lábaro não; a minha pátria é desolação 
    De caminhos, a minha pátria é terra sedenta 
    E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular 
    Que bebe nuvem, come terra 
    E urina mar. 

    Mais do que a mais garrida a minha pátria tem 
    Uma quentura, um querer bem, um bem 
    Um libertas quae sera tamen 
    Que um dia traduzi num exame escrito: 
    “Liberta que serás também” 
    E repito! 

    Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa 
    Que brinca em teus cabelos e te alisa 
    Pátria minha, e perfuma o teu chão… 
    Que vontade me vem de adormecer-me 
    Entre teus doces montes, pátria minha 
    Atento à fome em tuas entranhas 
    E ao batuque em teu coração. 

    Não te direi o nome, pátria minha 
    Teu nome é pátria amada, é patriazinha 
    Não rima com mãe gentil 
    Vives em mim como uma filha, que és 
    Uma ilha de ternura: a Ilha 
    Brasil, talvez. 

    Agora chamarei a amiga cotovia 
    E pedirei que peça ao rouxinol do dia 
    Que peça ao sabiá 
    Para levar-te presto este avigrama: 
    “Pátria minha, saudades de quem te ama… 
    Vinicius de Moraes.”

  3. Um monstro de novo tipo
    Tratar essa massa, incluindo o próprio coiso, como fascista é dar um imerecido upgrade a uma minoria de aproveitadores montados numa legião de imbecis. Há sim agitadores tipicamente fascistas, mas o grande grupo é tão afetado pela cegueira da imbecilidade que foge de qualquer tentativa de qualificação histórico/sociológico. Não tem como explicar o que estamos assistindo. Não tem explicação para entender um trabalhador celetista revoltado com o “excesso de direitos trabalhistas”, um negro concordando com as afirmações racistas de um “branco”, uma mulher aceitando qualquer justificativa para a violência contra outras mulheres.
    Por fim, digo que a coisa é muito pior do que já vimos.

    • Concordo contigo!
      Não é possível chamar esses Bolsominions de facistas/nazistas, eu acho que são apenas, completamente ignorantes, tapados mesmo.
      Eu, pelo menos, nunca ouvi falar de um judeu nazista, ou de um negro no partido do apartheid, ou que desse apoio ao regime segregacional lá nos EUA. Aqui é uma esculhambação!
      Olho para esse e penso: não é possível!

      • É possível sim. Existe judeu

        É possível sim. Existe judeu nazista, negro racista, professor tucano. E isto não é uma pecualiaridade do Brasil. Chamar os fascistas de ignorantes e vítimas do WhatsApp também não é completamente correto, pois, apesar de expostos à manipulação, são fascistas sim. Afinal há pessoas que também são bombardeadas com torpedos anti-PT e ainda assim defendem Lula e Dilma. Enfim, não acredito que tirar responsabilidade dos fascistas resolva, e tratá-los como manifestoches (o que de fato são) só os revoltará mais ainda. Como diz o ditado: já difícil alguém descobrir que errou, mas é ainda mais difícil fazer alguém assumir publicamente que estava errado.

  4. Pesquisa erradas, valendo pra você, parentesxevamihos também
    Todas as resspostas decretação de direitos e sobre opção de um governo autoritário imaginam coisas ruim para o outro ou outro grupo social, econômico ou racial
    Simples assim
    Se perguntassem valendo pra você seus familiares e amigos também.?
    A reação e resposta seria outra.
    “Sociedade hipócrita:
    “Todos os rigores da lei para meus inimigos. divergentes e diferente.
    “Todos os favores da lei para mim, meus parentes e amigos.”

  5. Sendo assim, a pergunta de hoje é:

    O que PT/LULA/DILMA fizeram para mudar esse quadro, nos 14 anos que estiveram no poder?

    • Tá mais pra Lamparina a querosene não?

      A pergunta não é essa.

      A pergunta é: Porque a hipocrisia é tão grande que responsabilzam o cidadão Lula e seu partido PT pelo que fizeram e pelo que não fizeram?

      Uma hora os acusam de autoritários, outra de frouxos.

      Eles não são reconhecidos pelos acertos próprios, mas são responsabilzados pelo erros e covardias de terceiros, tais como os indicados para o STF e a PGR.

      Eles são responsabilzados até por terem sidos implacavelmente perseguidos por esta mídia porca e subserviente, e pessoas que “brilham” como “lâmpadas” onde estiveram além de servirem de pedras nos estilingues da falsidade?

      Ora, que posicionamento mais fascista o teu, né não?

       

  6. fim das ilusões, é histórico não é conjuntural!

    O Brasil é um dos paises mais violentos e conservadores do mundo. A nossa história é uma história de massacres, sem guerras e revoluções. Somos sim um dos paises mais fascistas do mundo, mas isso não é apenas conjuntural, é histórico. O brasileiro cordial é um mito das classes domniantes brasilerias; quem sempre viveu nas margens da sociedade sabe disso, sentiu e sente na pele. O que não houve até foram condições propicias e um movimento fascista organizado como agora, para que o fascismo chegasse ao poder sem máscaras – ah e teve o Getúlio nos anos 1930, que era um ditador. Está havendo manipulação, mas o terreno para ela proliferar é fértil; nas eleições francesas por exemplo, a manipulação não funcionou para eleger Le Pain – que perto dos nossos fascistas é quase uma lady! Os limites civlizatórios que os europeus ocidentais tem hoje foram conquistados com uma destruição de grande parte da europa, com uma grande guerra, com muita dor e sofrimento. Temo que uma deputada portuguesa de centro, que vi em um video na internet esteja certa: ‘os brasileiros só vão acordar quando sentirem na pele as consequencias de eleger o fascismo’.

  7. LINCOLN? ONDE ESTÁS, Ó, SECCO???

    Já é política de Estado. Dúvida quanto a isto?

    A propósito, tô com uma saudade do Lincoln Secco e os revolucionários da USP… Não é só por vinte centavos, sabiam? Faltou ao autor do texto perguntar sobre o nicho dos universitários, sobretudo, dos púlbicos. Eles NÃO são marombeiros, NÃO são patricinhas e NÃO são motoqueiros, nééééé???? Será que se contentaram apenas com os espólios do impeachment da Dilma? Tiveram seus minutos de fama e brincaram de manifestantes turcos: “tencere tava Havasi”. Que lindo!!! Como é bom ser esteticamente revolucionário!!! Saudações semióticas!

    Minha esperança começa na página 2 do autoritarismo. Como de costume, os que assinam o pacto fazem leitura dinâmica, na diagonal. Pegam as palavras-chave e acham que fizeram a leitura completa do contrato. São educados pra isto. A letriha miúda só é percebida quando chega a fatura muito acima do que se achava justo. Tudo legalizado e legitimado pela assinatura de ambas as partes.

    O Brasil, apesar de preencher todos os pré-requisitos, ainda não é fascista. O toque final vem com a sublimação dos próprios erros e a síndrome de Estocolmo. Como é bom ser refém e deixar que os outros pensem por nós, mesmo que estejamos em risco. O Brasil, de tanto farrear com a malemolência legal, agora quer um paizão pra botar limite. A classe média, que sempre paga um por fora pra tudo, está com medo dos debaixo que estão pagando também e reivindicando o mesmo direito ao abuso que cometiam só os branquinhos cheirosos. Este medo do crime organizado advém de seu poder econômico e a capacidade de livrar-se da lei pelos mesmos expedientes consagrados pelos mimadinhos de sempre. O estado terá de confrontar um dos lados. O que a classe média não sabe é que seus concorrentes têm muito, mas muito mais bala na agulha – metaforicamente ou não – pra discutir os termos de um confronto. Os que já sabem disto, abarrotam o consulado português tentando sair do país antes da hecatombe que, com certeza, virá. Este é apenas um dos temores possíveis no caso de uma vitória coisista.

    Quero ver se o regime conseguir destruir as resistências ao golpe em andamento, eliminando seus desafetos políticos. Quem vai bater panela, gritar na rua ou fazer mega manifestação contra o coiso e o mourão de cercar coiso?

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