9 de junho de 2026

O século asiático, por Fernando Marcelino

Se houver uma data para o início deste "longo século asiático", seria dezembro de 1978, quando Deng Xiaoping anunciou a Reforma e Abertura
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O século asiático, por Fernando Marcelino

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Durante pelo menos dois milênios, a China e a Índia foram responsáveis pela maior parte da economia mundial e ainda, em 1820, representavam cerca de 50% do PIB global. A partir do século XVIII, a Revolução Industrial conferiu à Inglaterra uma superioridade competitiva e uma dominação mercantil que se prolongaria por um século. Ao fim do século XIX e início do século XX, o poder econômico passou de Londres a Washington. Muitos acreditam que o século XIX pertencia ao Reino Unido e no século XX para os Estados Unidos.

Na década de 1950, Ásia, lar de mais da metade da população mundial, contribuía com menos de 20% da produção global. A perspectiva de suplantar a dominação ocidental era pouco animadora. Mesmo assim, nos últimos 70 anos, centenas de milhões de pessoas na Ásia foram tiradas da pobreza e muitos países passaram a ter o status de economias avançadas ou de renda média. Atualmente, das 30 maiores cidades do planeta, 21 estão na Ásia. Segundo projeções da consultoria PwC, no relatório “The World in 2050”, o eixo da economia global vai se deslocar para a Ásia. Em 2016, medido em poder de paridade de compra (ppp), os quatro maiores países eram China, com um PIB de US$ 21,3 trilhões, EUA com US$ 18,6 trilhões, Índia com US$ 8,7 trilhões e Japão com US$ 4,9 trilhões. Esta ordem vai se manter até 2030. Porém, em 2050 a China ampliará a diferença e terá um PIB de US$ 58,5 trilhões, a Índia assumirá a segunda colocação com US$ 44,1 trilhões, os EUA cairão para o terceiro lugar com PIB de US$ 34,1 trilhões e a Indonésia ocupará a quarta colocação com US$ 10,5 trilhões. Das 25 maiores economias em 2050, 13 estarão na Ásia. Mas o que chama mais a atenção é que a economia da China e da Índia (Chíndia) será 3 vezes maior do que a economia dos EUA em 2050. A economia conjunta de Rússia, Índia e China (RIC) será pouco menor do que o conjunto das outras 29 maiores economias (que inclui os países do G7: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá).

Tudo aponta para que o século 21 esteja destinado a se tornar o “século asiático”. Se houver uma data para o início deste “longo século asiático”, seria dezembro de 1978, quando Deng Xiaoping anunciou a Reforma e Abertura, lançando as bases para ascensão chinesa até o presente. Com uma base industrial e uma força de trabalho bem-educada – além de fazer a expectativa de vida da população saltar de 35 para 67 anos entre 1949 e 1978 –, o período da reforma e abertura chinesa fez com a Ásia se torna-se o motor do crescimento econômico global. A combinação de grande indústria socialista, propriedade pública da terra, exportação de capital, empresas lideradas pelo Estado, confucionismo e integração física e comercial regional explicam o dinamismo chinês nas últimas décadas. A China montou um processo de produção de bens de consumo de massa a preços baratos que invadiu todas as fronteiras e ocupou as prateleiras do planeta, tornando-se a fábrica do mundo. Com o dinheiro que acumulou no comércio internacional, fortaleceu suas instituições financeiras e passou a ser exportadora de capital, tornando-se, também, banco do mundo. Agora, a China pretende ser líder global da 4ª Revolução Industrial. Ela já está na liderança da produção de energia renovável e da transição da indústria automobilística do motor a combustão interna para os carros elétricos. Também lidera no uso de smartphone para as compras e pretende ser a líder isolada da Inteligência Artificial. Tem o supercomputador mais rápido do mundo e o maior centro de pesquisa de computação quântica. Seu projetado sistema de navegação por satélite compete com o GPS dos EUA.

A Ásia, seja qual for o critério usado, está prestes a reocupar o centro do palco econômico mundial. Essas nações apresentam formas variadas de governo, sistemas econômicos e indicadores de desenvolvimento humano. A região engloba ruínas antigas, favelas e trens-bala, aldeias rurais de tradição agrícola e arranha-céus imensos. São diversas formações econômico-sociais, como o socialismo de mercado (China, Vietnã e Laos), os Tigres Asiáticos com experiências de capitalismo estatal (Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong), os Novos Tigres Asiáticos (Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia), experiências ex-socialistas na Ásia Central (Casaquistão, Uzbequistão, Quisguistão, Turcomenistão e Tadjiquistão), países da Ásia Ocidental (Turquia, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Catar), além de Camboja, Índia e Bangladesh. Obviamente, é difícil fazer generalizações com relação a uma parte tão vasta do mundo, que compreende uma multiplicidade formas de formas econômicas. A despeito das especificidades, fica cada vez mais clara a diferenciação entre os modelos econômico e político do Oeste e do Leste. No Ocidente, a somatória da economia de mercado e da democracia representativa, enquanto o Oriente é mais caracterizado pela presença estatal no mercado e estabilidade política.

As experiências asiáticas de desenvolvimento acelerado das últimas décadas adotam estratégias que impulsionam a intervenção do Estado como agente protetor, indutor, ordenador e alocador de recursos e definidor de alguns preços fundamentais da economia. Na dimensão econômica, China, Vietnã e até mesmo em Cingapura, o Estado mantém um controle estratégico sobre setores-chave (energia, infraestrutura, tecnologia). Cerca de 2/3 das 110 empresas chinesas incluídas no índice Fortune 500 são estatais. Japão, Coreia do Sul e China cresceram com políticas protecionistas e subsídios estatais a indústrias privadas nacionais. Porém, apesar das diferenças, as estruturas societárias, as estratégias de crescimento e os estilos de operação dos gigantes corporativos da Ásia diferem dos apresentados por multinacionais ocidentais de capital aberto. A região possui um número expressivo de grandes conglomerados. Juntos, os cinco principais chaebols controlados por grupos familiares da Coréia do Sul representam aproximadamente metade do valor do mercado de ações do país, os “seis grandes” keiretsu do Japão possui dezenas de empresas presentes em diversos setores. Todos os principais fabricantes de carros japoneses, por exemplo, estão ligados a um keiretsu. Sozinhos, os seis principais conglomerados da Índia empregam mais de dois milhões de pessoas. Uma empresa com um acionista controlador – independentemente de ser família, fundador ou estado – pode focar em expandir sua posição via crescimento de receita e é capaz de adotar uma visão de longo prazo para concretizar seu objetivo. Isso contrasta com empresas abertas de capital pulverizado, que precisam responder aos acionistas trimestralmente e estão mais focadas em maximizar seus rendimentos de forma mais imediata.

Dessa forma, as empresas asiáticas se tornaram líderes mundiais de mercado não apenas nos setores industriais e automotivo, mas também em áreas como tecnologia, finanças e logística. Nos últimos 20 anos, com o desenvolvimento dessas economias, o mix industrial das grandes empresas da região mudou qualitativamente. Atualmente, a Ásia é responsável por quase metade dos investimentos globais em inovação e está entre as principais fontes e destinos de venture capital nas áreas de realidade virtual, veículos autônomos, impressão em 3D, robótica, drones e inteligência artificial (IA). A China, o Japão, a Coréia do Sul e Cingapura estão dentre os países mais digitalmente avançados do mundo. Em termos de comércio eletrônico, por exemplo, há apenas uma década a China era responsável por menos de 1% do valor das transações mundiais; hoje, sua participação é superior a 40%. Três dos gigantes de internet da China – Baidu, Alibaba e Tencent – construíram um rico ecossistema digital que vem se expandindo para além dessas empresas. Mesmo aqueles países mais atrasados em tecnologia estão se tornando digitais rapidamente.

Nas últimas duas décadas, os níveis de pobreza mundiais caíram dramaticamente. Cerca de 1,2 bilhão de pessoas foram alçadas à classe consumidora – isso significa que chegaram a um nível de renda no qual podem começar a fazer compras substanciais. Este é um dos maiores casos de sucesso da história – e é um caso especialmente asiático. O crescimento da região não somente tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema, como conseguiu impulsionar seu desenvolvimento e entrar para o grupo de economias de nível médio, ou mesmo avançado. Já em 2019, a Ásia se tornou lar de metade da classe média mundial. Isso reflete a industrialização e a urbanização continuada da região, o aumento da demanda e o crescimento da produtividade e um setor corporativo dinâmico.

Com o aumento do consumo, uma parcela maior do que é produzido nesses países é hoje vendida localmente, em vez de ser exportada para o ocidente. Entre 2007 a 2024, a China quase quintuplicou sua produção de bens intensivos em mão de obra ao mesmo tempo em que o percentual de produtos brutos exportados sofreu uma queda dramática, passando de 15,5% para 8,3%. Da mesma forma, a Índia também tem exportado uma parcela menor de sua produção ao longo dos anos. Isso implica que um volume maior de produtos está sendo consumido internamente, em vez de ser exportado. Ainda, à medida que as economias emergentes da região desenvolvem novas habilidades industriais e começam a produzir produtos mais sofisticados, elas se tornam menos dependentes de importações de insumos e bens acabados de outros países.

O Século Asiático aponta para mudanças significativas na geopolítica global. O problema é que, num mundo onde o centro de gravidade se deslocou decisivamente para o Leste, a competição entre grandes potências aumenta o risco de conflitos, inclusive militares, gerando uma possível divisão do mundo em esferas de influência com sistemas tecnológicos e normas diferentes, pois os países são forçados a tomar partido ou a praticar um equilíbrio delicado entre os blocos em formação. Para os países do Sul Global, como o Brasil, é importante se conectar neste processo sem as antigas e persistentes ilusões liberais pregadas pelo Ocidente para manter sua hegemonia global. 

Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.

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