
O último refúgio dos canalhas
por Gianluca Florenzano
Pouco a pouco, mas de forma implacável, os pilares de sustentação do castelo de areia bolsonarista, erguido, ao longo dos anos, com base em discursos bélicos e narrativas distorcidas da realidade, foram desmoronando.
O primeiro deles, sem dúvida, foi a defesa da moralidade da família patriarcal supostamente perdida com o avanço dos direitos de minorias sociais. Na visão preconceituosa e arcaica da extrema direita brasileira, caracterizada na fala de Hamilton Mourão, vice do então candidato Jair Messias Bolsonaro em 2018, famílias chefiadas por mulheres seriam “fábricas de desajustados”. Recentemente, no entanto, com as conversas vazadas entre Bolsonaro e seu filho Eduardo, com trocas de xingamento e palavras de baixo calão entre os dois, ficou claro qual era a verdadeira “fábrica de desajustados”.
Se a moralidade da família defendida pelo líder da direita radical era uma farsa, o combate à corrupção também era. Apesar de passar décadas orbitando os partidos do chamado “centrão”, Bolsonaro, no contexto da campanha presidencial de 2018, conseguiu se apresentar como um candidato outsider, isto é, fora da velha ordem política e com uma bandeira anticorrupção. Prometendo, nas palavras dele, “acabar com a roubalheira do PT”, o ex-militar conquistou a simpatia de uma parcela significativa da sociedade cansada dos esquemas de desvio de dinheiro público desmascarados pela mídia.
Se nas palavras, o discurso era belo. Na prática, contudo, o que se viu foi um verdadeiro show de horrores. O então mandatário, como era de se supor, não apenas falhou em impedir que a corrupção continuasse a vigorar em seu governo como a elevou para outros patamares.
Para se ter uma ideia, buscando de qualquer maneira escapar das ameaças dos processos de impeachment, ele praticamente entregou os cofres públicos ao “centrão”. Obviamente, isso não poderia dar certo. E não deu. Sem nenhum tipo de transparência e fiscalização, políticos tinham em mãos bilhões de verbas públicas para gastarem como quiserem. Não à toa, o “orçamento secreto”, como esse arranjo ficou conhecido, ao que tudo indica, pode implicar em um dos maiores esquemas de corrupção da história do Brasil.
Isso claro, sem mencionar os escândalos que atingiram diretamente o líder da extrema direita, destacando entre eles, o caso da venda das jóias negociadas, ao que as investigações apontam, pelo seu então braço direito e ajudante de ordens Mauro Cid, comprovando que o combate à corrupção, na realidade, não passava de uma retórica.
Dessa maneira, podemos passar para o terceiro pilar de sustentação bolsonarista. Evocando um suposto passado glorioso da ditadura militar, Bolsonaro preencheu cargos estratégicos de sua administração com integrantes da caserna. Na teoria, devido a sua formação especializada, os militares seriam imunes a qualquer desvio de conduta e seriam eficientes cumpridores de tarefas.
Ministérios liderados por militares, no entanto, foram alvo de denúncias de corrupção e acumularam fracassos administrativos, sendo o mais emblemático deles o da Saúde. Sob a tutela de Eduardo Pazuello e guiado por uma política negacionista, criminosa e de incapacidade logística, milhares de brasileiros perderam a vida ou um ente querido por conta da omissão deliberada da compra e distribuição de vacinas.
Se os bolsonaristas eram negacionistas na ciência, eram também na suposta liberdade de expressão. Para eles, propostas para regulamentar as plataformas digitais eram uma tentativa clara de censurar a opinião pública, principalmente os conservadores.
Bolsonaro, todavia, saudosista do tempo de repressão da ditadura, passa longe de ser um defensor da liberdade de expressão. O ex-militar, na verdade, nunca se mostrou um adepto em aceitar opiniões contrárias às suas. Durante o seu mandato, ao menor sinal de crítica, ele instigava a sua base mais fiel e fervorosa a atacar jornalistas, especialmente mulheres, que produziam matérias questionando o seu governo.
A liberdade de expressão defendida pelo líder da extrema direita brasileira era seletiva. Ele não deseja que todos pudessem externar livremente suas opiniões políticas, mas sim que a sua milícia digital pudesse continuar a agir impunemente nas redes sociais para intimidar opositores e disseminar fake news, isto é, notícias falsas, que o ajudavam a conquistar uma parcela significativa da população.
Não por acaso, Bolsonaro repercute o mesmo discurso da “defesa da liberdade de expressão” utilizada pelas principais figuras da direita radical internacional, tais como Donald Trump e Elon Musk, que igualmente procuram mascarar a manipulação por trás dos algoritmos das mídias digitais para propagar em massa narrativas bélicas contra minorias sociais.
Falando em Trump, este é o gancho perfeito para entrarmos no que era o último pilar de sustentação do castelo de areia bolsonarista: o patriotismo. Relembrando a frase célebre do escritor inglês Samuel Johnson, “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Neste caso, é preciso dar crédito a Bolsonaro. Ele foi tão, mas tão incompetente que conseguiu a proeza de nem sequer honrar com essa frase.
O discurso de amor e defesa da pátria bolsonarista foi arruinado graças às articulações, ou melhor dizendo, às desarticulações realizadas por Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Para salvar o seu pai de uma condenação (apesar do voto de Luiz Fux, isso ele já não conseguiu) e, por conseguinte, da cadeia, o Zero Três (como Eduardo é chamado pelo próprio pai) já demonstrou claramente que fará de tudo, inclusive, sabotar o seu próprio país.
Entretanto, as sanções econômicas aplicadas por Trump na suposta tentativa de livrar Jair Bolsonaro das grades, obtiveram um efeito reverso. Elas não apenas atingiram em cheio a Faria Lima e o agronegócio, setores que, majoritariamente, apoiam o bolsonarismo, como também jogou no colo de Lula, como ficou demonstrado em seu discurso no evento da Organização das Nações Unidas (ONU), a plataforma da defesa e amor à pátria, algo que a esquerda, de modo geral, vinha falhando em emplacar nos últimos anos.
Dessa maneira, apesar das passeatas da extrema direita estarem sempre presentes a bandeira do Brasil e a camisa da seleção brasileira, Eduardo, seguindo rigorosamente o exemplo de incompetência do seu pai, escancarou para a opinião pública que o amor à pátria dos Bolsonaros, na verdade, sempre se tratou de um culto voltado a si mesmos e de submissão simbólica à potências estrangeiras, como ficou caracterizado com a enorme bandeira dos Estados Unidos erguida em pleno 07 de setembro na Avenida Paulista.
Agora, por incrível que pareça, os “canalhas” encontraram um último refúgio para chamar de seu, a saber, a anistia. Condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) e vendo escorrer pelas suas mãos a popularidade que resta, Bolsonaro, nos bastidores, articula-se com o “centrão” para livrar tanto a sua cara quanto as dos parlamentares fisiológicos.
Mas, como demonstrado nas manifestações contra a anistia e a PEC da Blindagem que tomaram conta das ruas pelo Brasil afora, as forças populares progressistas e democráticas estão prontas para resistir contra essas investidas.
A tábua de salvação almejada pelos golpistas não se concretizará. Bolsonaro e seus cúmplices terão o destino que a história os reserva: a cela de uma prisão.
Em palavras mais claras, eles não passarão. Jamais passarão.
Gianluca Florenzano – cientista social, pesquisador e jornalista. Autor do livro “O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo”.
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