21 de maio de 2026

Soberania em tempos de tarifa: um manifesto por uma educação antropofágica, por Ana Carolina Ferrari

Na Cúpula do Brics, a Declaração tende a fortalecer uma aliança do Sul Global, como é a área da saúde, mas falha no quesito Educação.
Tarsila do Amaral - Foto de Isabella Matheus/Pinacoteca de São Paulo

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Soberania em tempos de tarifa: um manifesto por uma educação antropofágica

por Ana Carolina Ferrari

Em julho, aconteceu no Rio de Janeiro a Cúpula do Brics. A reunião, que congrega os líderes dos países que formam o Brics, apesar dos brados de que iria “flopar” por conta da ausência de Xi Jinping e Vladimir Putin, deu muito o que falar.

Além da evidente participação de um número significativo de líderes de vários países, a reunião despertou a ira do presidente dos EUA, Donald Trump, que, apesar de discursos que refutam que se trata de uma retaliação em decorrência da Cúpula, resolveu “taxar” as exportações brasileiras em um porcentual de 50%, assunto que tomou a mídia e foi tratado pelo governo brasileiro como uma afronta à soberania do Brasil.

A questão, por fim, é facilmente compreendida por meio das exigências que o presidente Trump apresentou para retirar a tarifa imposta, inclusive exigências essas apresentadas por meio de tratativas diplomáticas bastante heterodoxas. Entre as exigências, alterações de decisões judiciais e ataques ao Pix.

Por mais que vários tentem afastar, restou evidente que a Cúpula no Rio foi o estopim para o desespero do presidente estadunidense, que ficou desesperado diante do fortalecimento do Brics enquanto uma aliança do Sul Global, inclusive com declarações explícitas na Declaração deste ano acerca de um sistema monetário que se afasta do dólar, dentre outras indicações que trazem mais autonomia e força ao Sul Global, em detrimento dos países no Norte Global, classicamente tidos como, em sua maioria, imperialistas.

Em vários cenários, a tendência da Declaração foi esta: fortalecer os países do Brics em uma aliança do Sul Global, em busca de respostas, em inúmeros campos, que respondam a questões específicas do Sul Global, como é o caso da área da saúde, que contou com uma incrível indicação de fortalecimento de laços para buscar respostas às doenças socialmente determinadas.

E para a educação, o que restou nesse contexto? Nada! Dos 126 pontos apresentados na Declaração, apenas cinco falam de educação, tratando-a ou como mero meio de profissionalização (como o ponto 109) ou como jargão em lista de direitos coletivos de certo grupo ou de toda a coletividade.

O único item que tratou a educação como objeto, em si, foi o 112, que a trouxe ligada ao contexto de cultura e comunicação, ratificando declarações e iniciativas da Unesco, mas sem qualquer afirmação relevante que a considere no centro do debate, como questão essencial, que é, para a soberania das nações Brics.

E não faltaram indicações nesse sentido, tendo em vista que o documento final, elaborado pelo Conselho Popular do Brics, destacou, especificamente, a necessidade de um sistema educacional formado por estratégias não ocidentais. Porém nenhum item da Declaração tratou do tema, que é estratégico para se falar em soberania nacional.

A soberania nacional exige um sistema educacional nacional que implemente ações necessárias para o desenvolvimento da soberania daquele país. Sem um sistema educacional soberano, não há como defender a soberania nacional, que fica à mercê do “fazer de mentes” de ideias que “vêm de fora”.

Não se trata aqui de defender o expurgo de pensamentos ocidentais, mas de analisar as necessidades internas do país para a elaboração de um sistema educacional que faça sentido nesse contexto. Antes de mera transposição de ideias externas, exige-se uma antropofagia, para entender o que faz sentido e o que não faz para o país, sob pena de sucumbirmos à soberania alheia, como já aconteceu inúmeras vezes no passado.

A ausência de uma indicação sobre isso na Declaração deste ano só demonstra como o assunto é delicado e como a afirmação de um sistema educacional com estratégias não ocidentais, antropofágico, implicaria pisar mais ainda em calos dos países do Norte Global.

Mas enquanto não falarmos sobre um sistema educacional soberano, enquanto não exigirmos e efetivarmos estratégias para que tenhamos um sistema educacional antropofágico, não vai adiantar bradar que somos um país soberano. Um Brasil soberano exige um sistema educacional antropofágico.

Ana Carolina Ferrari, mestranda pela Faculdade de Educação da USP

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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