10 de junho de 2026

Soft power com gás, por Felipe Bueno

Há várias maneiras de estabelecer domínio. As mais silenciosas e sutis, a História tem nos mostrado, funcionam por muito mais tempo
Sócrates

Soft power com gás

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por Felipe Bueno

Foi analisado mais de uma vez neste espaço o poder dos Estados Unidos de criar tendências e necessidades no resto do planeta.

Ações militares e econômicas são mais ostensivas, carregam a imagem do Tio Sam com o dedo apontado e produzem mais efeitos no curto prazo, além de animar noticiários e, atualmente, redes sociais.

Mas há outras maneiras de estabelecer domínio. As mais silenciosas e sutis, a História tem nos mostrado, funcionam por muito mais tempo e penetram mais fundo na vida das pessoas, a ponto de serem primeiro normalizadas e depois simplesmente esquecidas.

Se na América Latina há mais de um século somos os vizinhos do andar de baixo de um edifício no qual os pisos superiores valem mais, o Velho Continente, mesmo após 1945, e com o obrigatório dinheiro dos Estados Unidos para sua reconstrução, tentou manter a imagem de um universo cuja relevância se compara à dos vizinhos ocidentais do hemisfério norte.

Mas era tarde: já comprava jazz, cinema e coca-cola aos montes – claro que com uma resistência maior ou menor dependendo do país.

No fim do século XVIII, os pais da pátria influenciaram a Revolução Francesa. Pouco mais de cem anos depois, seus descendentes ensinaram a Europa a usar calças jeans.

Por essas e outras é de se perguntar o que significam, além de alguns likes, as ações publicitárias como as que a representante da Coca-Cola iniciou recentemente na Alemanha, estampando um “made in Germany” na testa de cidadãos locais exemplares que trabalham no braço nacional da companhia americana.

Como se engarrafar uma bebida e um estilo de vida fossem o mesmo.

Num mundo em que cada vez mais gente se submete a acreditar em qualquer coisa, pode ser saudável recorrer ao velho Sócrates, que a cada resposta supostamente definitiva de seu interlocutor devolvia outro questionamento ainda mais instigante, culminando na constatação da ensurdecedora ignorância sobre determinado tema. De ambos, aliás.

É claro, por outro lado, que alguns séculos atrás a vida em Atenas era mais simples. Sócrates, detestado por muita gente, não poderia ter sido simplesmente bloqueado nas redes sociais. Não havia também algo que o fizesse perder seguidores. Acabou sendo condenado a partir dessa para melhor.

Mudam as convenções políticas e sociais, mudam as leis, mas permanece uma impressão incômoda de que continuamos errando o alvo quando tentamos proteger os deuses da cidade.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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