
Soft power com gás
por Felipe Bueno
Foi analisado mais de uma vez neste espaço o poder dos Estados Unidos de criar tendências e necessidades no resto do planeta.
Ações militares e econômicas são mais ostensivas, carregam a imagem do Tio Sam com o dedo apontado e produzem mais efeitos no curto prazo, além de animar noticiários e, atualmente, redes sociais.
Mas há outras maneiras de estabelecer domínio. As mais silenciosas e sutis, a História tem nos mostrado, funcionam por muito mais tempo e penetram mais fundo na vida das pessoas, a ponto de serem primeiro normalizadas e depois simplesmente esquecidas.
Se na América Latina há mais de um século somos os vizinhos do andar de baixo de um edifício no qual os pisos superiores valem mais, o Velho Continente, mesmo após 1945, e com o obrigatório dinheiro dos Estados Unidos para sua reconstrução, tentou manter a imagem de um universo cuja relevância se compara à dos vizinhos ocidentais do hemisfério norte.
Mas era tarde: já comprava jazz, cinema e coca-cola aos montes – claro que com uma resistência maior ou menor dependendo do país.
No fim do século XVIII, os pais da pátria influenciaram a Revolução Francesa. Pouco mais de cem anos depois, seus descendentes ensinaram a Europa a usar calças jeans.
Por essas e outras é de se perguntar o que significam, além de alguns likes, as ações publicitárias como as que a representante da Coca-Cola iniciou recentemente na Alemanha, estampando um “made in Germany” na testa de cidadãos locais exemplares que trabalham no braço nacional da companhia americana.
Como se engarrafar uma bebida e um estilo de vida fossem o mesmo.
Num mundo em que cada vez mais gente se submete a acreditar em qualquer coisa, pode ser saudável recorrer ao velho Sócrates, que a cada resposta supostamente definitiva de seu interlocutor devolvia outro questionamento ainda mais instigante, culminando na constatação da ensurdecedora ignorância sobre determinado tema. De ambos, aliás.
É claro, por outro lado, que alguns séculos atrás a vida em Atenas era mais simples. Sócrates, detestado por muita gente, não poderia ter sido simplesmente bloqueado nas redes sociais. Não havia também algo que o fizesse perder seguidores. Acabou sendo condenado a partir dessa para melhor.
Mudam as convenções políticas e sociais, mudam as leis, mas permanece uma impressão incômoda de que continuamos errando o alvo quando tentamos proteger os deuses da cidade.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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