Por que negar o óbvio?
por Bruno Fabricio Alcebino da Silva
Israel, nos últimos 100 dias, parece empenhado em negar o óbvio: o genocídio que perdura há mais de sete décadas contra o povo palestino. A pergunta que surge é: por que o silêncio persiste? Esta não é apenas uma questão que afeta os palestinos, mas o mundo como um todo, pois a negação do evidente tem implicações humanitárias e políticas profundas.
O conflito entre Israel e Palestina remonta ao final do século XIX, mas foi nas últimas décadas que testemunhamos uma escalada de violência que resultou em inúmeras vítimas palestinas, muitas delas civis inocentes. A comunidade internacional assiste a esse cenário, por vezes, com uma passividade alarmante. O que impede uma resposta global efetiva?
Uma das razões cruciais para a negação do genocídio palestino é a complexidade política e geopolítica da região. As tensões históricas, religiosas e territoriais alimentam o conflito de forma contínua, dificultando a busca por soluções pacíficas e a aceitação do óbvio. Além disso, as potências mundiais muitas vezes hesitam em intervir devido a interesses estratégicos e alianças delicadas na região do Oriente Médio. A atuação de mecanismo multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) também deixa a desejar pois as cinco potências que possuem assento permanente no Conselho de Segurança interferem ativamente na proposição e aprovação de propostas de cessar-fogo e/ou mesmo na criação de um Estado palestino legítimo, principalmente o Reino Unido, que foi o responsável pela grande migração judaica para região nas primeiras décadas do século XX e, pelos Estados Unidos que financia e arma “até os dentes” o Estado judeu.
A mídia também desempenha um papel fundamental na perpetuação do silenciamento. A narrativa dominante muitas vezes é controlada por interesses políticos, resultando em uma visão distorcida dos eventos. O poder de influência exercido por certas nações ocidentes e grupos de pressão pode moldar a percepção pública, desviando o foco do genocídio palestino para outras questões menos cruciais. Um exemplo recente dessa dinâmica foi a suspensão da atriz e apresentadora americana Whoopi Goldberg de seu programa na ABC em 2022, sob a acusação de ter praticado anti-semitismo. Esse incidente destaca como as vozes críticas em relação a Israel podem enfrentar represálias, contribuindo para a perpetuação do silêncio em torno do genocídio palestino.
Outro obstáculo à aceitação do óbvio é o medo da retaliação. Muitas nações temem represálias econômicas, diplomáticas ou até mesmo militares caso condenem abertamente as ações de Israel. O peso da influência política e econômica de Israel, apoiada pelos Estados Unidos contribui para a manutenção do silêncio, mesmo diante de evidências incontestáveis.
No entanto, é imperativo questionar a ética e a moralidade de se permitir a continuação do genocídio palestino sob o véu do silêncio. A negação do óbvio não apenas perpetua o sofrimento do povo palestino, mas também mina os valores humanitários que a comunidade internacional supostamente defende.
O lobby sionista
O fenômeno do lobby sionista nos Estados Unidos emerge como um elemento complexo e influente no cenário político e diplomático do país, assim como o papel crucial desempenhado pela mídia na perpetuação do silenciamento.
O termo “lobby” refere-se a organizações ou grupos que buscam influenciar decisões políticas em prol de seus objetivos. No contexto sionista, o lobby refere-se às organizações que advogam em favor de Israel e suas políticas, buscando moldar as percepções, decisões e legislações nos Estados Unidos, mas não somente lá como em várias outras nações, em consonância com os interesses do Estado judeu.
O lobby sionista nos EUA é notório por sua habilidade em mobilizar recursos financeiros e políticos para influenciar membros do Congresso, funcionários do governo e a opinião pública. Essas organizações buscam fortalecer as relações entre os dois países, garantir o apoio contínuo dos EUA a Israel e influenciar a política externa relacionada ao Oriente Médio.
O AIPAC (American Israel Public Affairs Committee) é uma das organizações mais proeminentes no lobby sionista nos EUA. Com grande influência e recursos, o AIPAC busca garantir que as políticas norte-americanas estejam alinhadas com os interesses de Israel. Isso inclui questões como assistência militar, apoio diplomático e medidas que fortaleçam a segurança do Estado judeu.
Um dos episódios da série “The Lobby – USA”, produzido pela Al Jazeera, expôs táticas utilizadas por grupos pró-Israel nos EUA para garantir o apoio incondicional de parlamentares americanos a Israel.
As estratégias reveladas incluem financiamento de candidatos, viagens luxuosas com todas as despesas pagas e pressões políticas. David Ochs, fundador da Ha-Lev, mencionou que os políticos muitas vezes agem em resposta à pressão financeira, destacando a importância do dinheiro na influência política. A AIPAC, capaz de levantar centenas de milhares de dólares, concentra seus esforços em garantir o apoio militar dos EUA a Israel, mas não se limita a isso.
O lobby sionista também é associado a táticas mais controversas, como a possível destruição política de parlamentares que criticam Israel. John Mearsheimer, coautor do livro “The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy” [2007], enfatiza na série que aqueles que se tornam críticos enfrentam a ameaça de perderem seus mandatos no Congresso, pois a AIPAC pode apoiar generosamente candidatos adversários.
Além disso, o lobby sionista busca ampliar o significado de antissemitismo para englobar qualquer crítica ao estado de Israel e seu governo. No contexto da série, foi demonstrado como o lobby atua contra estudantes americanos e tenta influenciar o entendimento de antissemitismo na Universidade do Tennessee. Esse esforço para alargar o conceito reflete a complexidade das táticas empregadas, que ultrapassam as fronteiras da política internacional e adentram os âmbitos acadêmicos, moldando as percepções e restringindo o debate crítico sobre as políticas israelenses.
A força do lobby sionista reside em sua capacidade de mobilizar apoio político bipartidário, transcendendo linhas partidárias nos EUA. Isso se reflete em legisladores que, muitas vezes, manifestam forte apoio a Israel, em consonância com as posições defendidas pelo lobby.
Entretanto, o lobby sionista também é alvo de críticas. Algumas vozes argumentam que a influência desses grupos pode distorcer as políticas norte-americanas, priorizando os interesses de Israel em detrimento de uma abordagem mais imparcial na região. A crítica se estende ao argumento de que o movimento sionista pode limitar a capacidade dos EUA de adotar uma postura equilibrada em relação aos conflitos no Oriente Médio.
Biden e Netanyahu
As próximas eleições nos Estados Unidos têm exercido uma influência significativa na postura de Israel frente ao conflito com os palestinos. O presidente Joe Biden, buscando a reeleição, adotou medidas mais decididas em relação ao conflito, defendendo ativamente uma solução de dois Estados. No entanto, nos últimos meses, a popularidade do presidente tem declinado, atribuída tanto à sua posição sobre a questão quanto às críticas frequentes provenientes dos apoiadores do ex-presidente Donald Trump.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem moldado sua campanha política em torno da narrativa de ser o único líder capaz de resistir às pressões dos Estados Unidos e dos países árabes para a criação de um Estado palestino. No entanto, as consequências dessa abordagem destacam que, ao focar na defesa de sua liderança, o premiê pode comprometer as relações com aliados estratégicos.
Uma análise minuciosa dos desafios enfrentados por Israel destaca três frentes críticas que demandam atenção: a guerra narrativa nas redes sociais, a indefinição de um desfecho político para Gaza e os ataques provenientes de agentes não estatais pró-iranianos. Essas áreas representam elementos-chave que moldam a complexidade do cenário regional.
No tocante à guerra narrativa nas redes sociais, observa-se uma batalha constante pela influência da opinião pública, onde as narrativas divergentes competem pela adesão e simpatia global. A disseminação de informações e o papel das plataformas digitais desempenham um papel crucial na formação de percepções e na condução da opinião internacional sobre o conflito.
A falta de definição de um resultado político para Gaza destaca a necessidade premente de uma abordagem estratégica para resolver as questões territoriais e governamentais na região. A proposta de Antony Blinken, Secretário de Estado dos EUA, de um cessar-fogo em Gaza e a subsequente formação de uma autoridade governamental palestina transitória revela uma tentativa de criar uma base sólida para a resolução do conflito.
A sugestão apresentada por Blinken não apenas visa estabelecer um período de trégua, mas também propõe a criação de uma autoridade governamental palestina transitória. Essa entidade seria apoiada por países árabes e ocidentais, indicando a necessidade de uma coalizão internacional para respaldar o processo de pacificação. A visão é que esse arranjo poderia criar as condições necessárias para uma resolução mais abrangente do conflito, envolvendo diversos atores e interesses regionais.
Já em relação aos agentes estatais pró-iranianos, estes representam um componente significativo e desafiador no cenário geopolítico relacionado ao conflito entre Israel e Palestina. Esses atores, muitas vezes vinculados a grupos militantes e movimentos paramilitares apoiados pelo Irã, desempenham um papel crucial na instabilidade da região.
Suas atividades incluem fornecer apoio militar, treinamento e recursos para grupos aliados que compartilham uma agenda comum em relação a Israel e questões relacionadas aos territórios palestinos.
Entretanto, Netanyahu adota uma postura desafiadora, buscando a vitória total sobre o Hamas e rejeitando a perspectiva de um Estado palestino. Essa abordagem pode agradar a uma parte do eleitorado israelense, especialmente os colonos de direita, mas representa um obstáculo para a construção de uma paz duradoura na região.
Enfim, negar o óbvio não é apenas uma afronta à verdade, mas também uma traição aos valores humanos fundamentais. O genocídio palestino não pode mais ser ignorado. É hora de enfrentar essa realidade de frente, questionar o silêncio cúmplice e trabalhar juntos para construir um futuro onde a paz e a justiça prevaleçam sobre a negação.
Bruno Fabricio Alcebino da Silva – Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC. Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).
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