21 de maio de 2026

Quando os nomes no monumento se conclavam…, por Mohammed Hadjab

Mas nenhum algoritmo, nenhum sábio, nenhum grande linguista consegue decifrar a mensagem. O sentido permanece selado, envolto em mistério.
Museu do Holocausto

Quando os nomes no monumento se conclavam…

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por Mohammed Hadjab

Dizem que, na encosta oeste do Monte Herzl, em Jerusalém, ergue-se um monumento. Um monumento de nomes. Nomes sem corpos, gravados na pedra, testemunhas silenciosas de uma terrível Nakba, de uma Shoá, de uma catástrofe nascida da barbárie nazista.

Mas, há algum tempo, um murmúrio estranho assombra as noites. Os serviços de inteligência israelenses, pouco dados ao misticismo, estão inquietos: vozes, sussurros, fragmentos de fala parecem emergir do monumento vazio. Decide-se, então, investigar — com toda a precisão da tecnologia israelense. Microfones ultrassensíveis são instalados discretamente na pedra sagrada.

No dia seguinte, os áudios são analisados. E o que revelam é de arrepiar: um burburinho multilíngue, uma Torre de Babel ressuscitada. Vozes entrelaçadas em ídiche, ladino, árabe magrebino e oriental, juhuri, bagitto — línguas que outrora serviram para esconder ou revelar, protegendo a alma dos povos perseguidos. Línguas que sussurram, debatem, deliberam — como num conclave secreto.

Mas nenhum algoritmo, nenhum sábio, nenhum grande linguista consegue decifrar a mensagem. O sentido permanece selado, envolto em mistério.

Uma semana depois, marcam um encontro diante do Yad Vashem. Mas, ao chegarem, deparam-se com uma mudança radical: o nome se alterou. Agora, o monumento chama-se apenas “Yad”, sem “Shem” — um “monumento”, sem “nome”.

Resta apenas uma inscrição, gravada num hebraico moderno, trêmulo:

> “Os massacres que vocês cometem em nosso nome, em memória de nosso sofrimento, maculam nossos nomes.

> O sangue inocente derramado na Palestina grita mais alto que nossas pedras.

> Como repousar em paz, enquanto outros tombam por nossa causa?

> Decidimos abandonar este monumento, > ceder nossos nomes aos irmãos e irmãs que vocês hoje exterminam.

> Não em nosso nome.” E assim os nomes desapareceram da pedra, levando consigo o silêncio dos justos.

Assim falaram as vítimas.

Mohammed Hadjab, analista em relações internacionais e geopolítica

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2 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    18 de julho de 2025 8:21 pm

    Sem palavras, salvo uma: comovente.

  2. Cecilia Marques

    23 de julho de 2025 6:33 am

    “ Não em nosso nome.” Excelente leitura, obrigada Mohammed Hadjab.

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