5 de junho de 2026

A distinção básica entre o essencial e o acessório, por Marcos Nobre

 
Do Valor
 
 
por Marcos Nobre
 
Na última semana, a irresponsabilidade política se alastrou até onde a vista alcança. Tomou por completo os dois partidos que se revezaram nos últimos 20 anos no cargo de síndico do condomínio pemedebista, PSDB e PT. Tomou conta mesmo daquele que pretendia até então ocupar a posição de baluarte da serenidade e do equilíbrio, o vice­presidente Michel Temer. 
 
Jogaram gasolina no incêndio para ver a crise queimar mais rápido. Tudo devidamente secundado por diferentes vozes, que, no debate público, bateram palma para o fogaréu. Dão-­se todos o luxo de ignorar que a crise suspendeu temporariamente qualquer disputa política real e organizada, incluída aí a disputa em torno da política econômica, por exemplo. 

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Pouco importa se os atores são movidos pela sandice, por interesse próprio, ou pelas duas coisas. O fato é que não existe nenhuma força social e política em condições de fazer o rescaldo e dirigir a reconstrução depois do incêndio. Em uma situação como essa, a primeira atitude de quem legitimamente teme pelo futuro do país tem de ser a de manter a cabeça fria. Exige que se distinga na confusão o que é essencial e o que é acessório. Exige agir segundo o imperativo de fazer todos os esforços para preservar o essencial.
 
A causa maior da desorganização atual é a Operação Lava­ Jato. O efeito manada provocado pelo pânico de ser alcançado pela operação desfez partidos, bancadas e grupos. Impera o salve­-se quem puder, especialmente na forma de movimentos de autodefesa contra os braços da Justiça. Ao mesmo tempo, o que causa a desordem é também uma das mais importantes conquistas da redemocratização.
 
Pela primeira vez, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário tiveram liberdade de ação para atingir a cúpula do Legislativo e do Executivo. Tudo isso tem muito que ver com Junho de 2013 e com a fragilidade do segundo governo Dilma. Mas o fato é que, pela primeira vez, os famosos três Poderes se encontraram, face a face, na mesma praça, em igualdade efetiva de condições para negociar seu legítimo espaço de atuação constitucional. 
 
A crise não cansa de produzir paradoxos. A causa da desorganização política é também o mais importante desenvolvimento a ser preservado. O que pode servir de plataforma para um aprofundamento da democracia funciona hoje como desestabilizador do sistema político. Mas o paradoxo não deve impedir de ver o essencial: é imperativo resistir a qualquer proposta de acordo e arranjo que pretenda bloquear politicamente a Lava­ Jato.
 
Uma consequência imediata desse limite absoluto: é imperativo lutar contra qualquer linha de ação que possa ter como resultado a posse do deputado Eduardo Cunha na Presidência da República. Isso acontecerá com o afastamento de Dilma Rousseff e de Michel Temer, seja com uma dupla renúncia, com a impugnação da chapa ou com o impeachment sucessivo de ambos. Em todos esses casos, o presidente da Câmara dos Deputados assume a Presidência da República por 90 dias, até a realização de novas eleições. 
 
Se isso acontecer, o essencial estará em risco. Um deputado investigado em um esquema bilionário de corrupção não tem condições políticas de ocupar a Presidência da República. A mesma Presidência que, constitucionalmente, tem sob seu comando a Polícia Federal e o Ministério Público, que indica juízes de três graus diferentes de jurisdição. A mesma Presidência que tem sob seu comando o serviço de inteligência do país, que tem acesso direto a informações privilegiadas das mais diversas ordens. 
 
Pode­-se querer o impeachment de Dilma, pode­-se desejar novas eleições. O que politicamente não se tem o direito de ignorar é que ações nessa direção podem resultar em regressão democrática gravíssima. Manter a cabeça fria em momento de crise significa também reconhecer que, quando se olha para o essencial, não se vê até hoje indício de que Dilma tenha tomado qualquer atitude que pudesse significar uma tentativa de bloquear a Lava­ Jato. Pelo contrário, seu ato mais recente foi propor a recondução de Rodrigo Janot para o cargo de procurador-­geral da República. 
 
Quem sonha com um impedimento apenas de Dilma, com a posse de Temer na Presidência, está aceitando riscos que vão muito além da troca de uma situação de razoável garantia do bom prosseguimento da Lava ­Jato por um cenário de incerteza. Nesse cenário, não só Eduardo Cunha andaria mais uma casa no jogo da linha sucessória, tornando­-se o substituto imediato de Temer. Cunha e Temer pertencem ao mesmo partido, o PMDB. O eventual Presidente da República estaria colocado em uma situação de dependência ainda mais estreita em relação ao presidente da Câmara dos Deputados do que Dilma Rousseff. 
 
A atuação de Eduardo Cunha não demonstra apreço pela institucionalidade quando esta contraria seus objetivos e interesses. Sua gestão na Câmara dos Deputados vem sendo marcada pelo autoritarismo e pelo arbítrio de medidas nunca antes tomadas por qualquer outro presidente. Rasgou o regimento da Casa ao dissolver a comissão responsável pela elaboração do projeto de reforma política e nomear relator de sua confiança para apresentar proposta de seu interesse diretamente em plenário. Ao ser derrotado na emenda do financiamento privado de campanhas, Cunha afrontou a Constituição ao recolocar o mesmo tema em votação no dia seguinte. Repetiu idêntica manobra no caso da votação da redução da maioridade penal. Sendo presidente da Câmara, nada fez para impedir que deputados utilizassem uma CPI para constranger no livre exercício de sua profissão a advogada cujo cliente citou o próprio Eduardo Cunha em sua delação premiada na Lava Jato. 
 
Esses são apenas alguns elementos mais recentes do preocupante histórico de atuação do político que pode ser colocado no cargo de Presidente da República, ou na posição de seu substituto imediato. É uma perspectiva sombria para um país que produziu a duras penas a sua ordem democrática. É um preço alto demais a pagar por perder a cabeça no meio do incêndio, por desprezar a distinção política básica entre o essencial e o acessório. 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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9 Comentários
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  1. emerson..57

    10 de agosto de 2015 12:49 pm

    Desgosto

    Abro o blog, como sempre faço para me informar e, com desgosto, me deparo com a foto desse cidadão.

    Uma pergunta:

    Ainda não foi preso?

  2. emerson..57

    10 de agosto de 2015 12:51 pm

    login

    O nome que você usou pertence a um outro usuário já registrado neste site.

    ………..que sou eu mesmo, mas que não conigo logar de jeito nenhum, a partir desse comp. que estou agora usando.

  3. Joselan Alvaro

    10 de agosto de 2015 1:12 pm

    O essencial

    Nassif,

     

    Já falaram (e poeticamente) que “O essencial é invisivel aos olhos”. Disto fico me perguntando o por que deste giro de 180 graus do grupo Globo? 

    O que aconteceu?  O que vai acontecer?

    Nesse meio não tem amador, e fico pensando se não é cortina de fumaça ou se estão, como esta matéria acima quer dizer, tentanto evitar um “Mal ainda pior”, que seria o Eduardo Cunha na Presidência.

    Talvez não apenas o essencial seja invisivel aos olhos, mas também as manobras jornalisticas da Vênus Platinada.

     

    1. joao

      10 de agosto de 2015 3:42 pm

      Eh!
      Ai vem mais este texto do PIG

  4. Malú

    10 de agosto de 2015 1:21 pm

    Isso é um recado para os

    Isso é um recado para os petistas incendiários, tanto da Câmara como do Senado, aqueles que numa conjuntura dessa não somam com o partido só dividem: vocês estão colocando em risco o legado do Lula. Não pensem que se acabarem com o Lula o PT vai sobreviver, pode sim sobreviver, mas igual ao PDT do Brizola, que virou uma vergonha sem ele. O Brizola se foi e com ele toda a ideologia que sustentava o partido restando apenas fisiologistas desmoralizados. Tomem tento, não joguem lenha na fogueira porque vocês queimarão juntos.

    1. EFH

      10 de agosto de 2015 5:10 pm

      Malú, concordo plenamente com

      Malú, concordo plenamente com você. Em outro post usei o mesmo termo: incendiários. Eles estão sufocando a Dilma…Temo que o sonho do Lula seja ser oposição o quanto antes para tentar faturar em 2018. Pensamento egoista como a dupla C/A.

  5. joao

    10 de agosto de 2015 3:39 pm

    Este braco do valor irrita muito!
    Olha que analise!
    Primeiro louva a justica e com liberdade.
    Mentira! Se fosse como explica o MPF na eleicao e o Moro com suporte dos mesmo. Vazamentos seletivos e a capa da veja?
    Ai diz na cara de pau:
    Poderes se encontram, face a face, na mesma praca em igualdade efetiva….
    Sabe senhor o essencial eh o Brasil e o acessorio e o PIG e este show da justica.
    Cara a cara, como se este e outros congressos passados nunca representou os brasileiros, trabalhadores e sim seus interresses e das elites minorias.
    Como a o poder da justica meteu a cara se a propria lei da aposenradoria foi um negocio do Cunha e os politicos para provocar. O aumento do judiciario e a renovacao do STF.
    Bla bla bla de calunias e mentiras.
    Acessorio esta sua analise rasteira com mando do PIG.
    Pau mandado

  6. EFH

    10 de agosto de 2015 4:46 pm

    Muito bom o texto, mas falta um detalhe: o partido da Dilma

    Concordo com o professor, a Lava Jato valoriza nossa democracia enquanto o Cunha/ Aécio a destroi. Muitas palmas para a Dilma. Mas fica uma dúvida no ar, e o PT? O PT é mais um incendiário como a dupla Cunha/ Aécio; e este fato é que gera a maior instabilidade do governo Dilma.  Cadê a valorização da LJ na propaganda do partido? Dilma faz história e o partido fica mudo? Estranho…muito estranho…

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