Por ricardo f godinho
Comentário ao post “O pessimismo militante da velha mídia“
Enquanto a URSS existiu, os direitos conquistados / concedidos aos trabalhadores no pós-guerra, uma espécie de cala-boca ao proletáriado e à pequena burguesia profissional liberal foram alvo apenas de críticas genéricas e pouco contundentes. Mas, extinta aquela potência socialista, o ataque ao Trabalho se tornou selvagem. Quem não lembra, dentre os que eram adultos nos anos 1990, da EMPREGABILIDADE, uma idéia que punha a culpa pelo desemprego no trabalhador: ele é que não tinha adquirido – por sua conta e risco, e às expensas de seus gastos familiares cotidianos – as qualificações que o tornariam “competitivo”. Não importava se a economia estava em recessão, depressão ou simplesmente morta. A culpa era do preguiçoso e imprevidente trabalhador, que não quis estudar, fazer cursos que custavam mais do que todo seu salário anual, etc.
Aberta essa porteira, o ataque se voltou para conquistas como o seguro desemprego e a previdência social. Havia já décadas de discurso sedimentado, sobre “rombo” da previdência. E havia também uma mudança demográfica em curso, ao menos na Europa Ocidental, Japão e alguns países médios periféricos (Brasil entre eles): a base de trabalhadores contribuintes estava cada vez menor, em relação ao número de pessoas em idade de aposentar. Com base nessa preocupação justa, e num problema real, que é o do limite do modelo de financiamento baseado no desconto em folha e contribuição patronal correspondente, abriu-se um vigoroso ataque à idéia de aposentadoria, estando clara a intenção de retornar ao século XIX. quando o trabalhador ou morria na máquina, ou morria na indigência.
Então, caro Nassif, não é tão somente um problema político nacional ou uma querela partidária – ainda que uma das partes não devesse agir como partido. É um problema de ordem mundial, e uma luta surda, embora muito pouco percebida pelo Trabalho, entre este e o Capital. Caminhamos aceleradamente para a consolidação de um Capitalismo Mundial. Na verdade, os maiores obstáculos a isso são exatamente os capitalismos nacionais consolidados mais antigos – EUA, Europa Ocidental – cujas principais lideranças ainda são fortemente influenciadas por ideais nacionalistas / colonialistas. Mas a medida que outros participantes com nível mundial vão emergindo, a medida que as burguesias locais vão crescendo em riqueza e percepção de que fazem parte da mesma classe, e portanto não há porque aceitar automaticamente americanos e europeus como líderes incontestes, nessa mesma medida se consolidará um Capitalismo Mundial. E a emergência hegemônica de uma classe, ao longo de toda história, sempre implicou na expoliação desmesurada das demais. Uma era de empobrecimento generalizado – apesar da exuberância nababesca da nova corte de Versailles – e brutalidade política sem limites está logo ali, no horizonte. Resta saber se levaremos 400 anos (como do protocapitalismo da Renascença à Revolução Francesa) para a nova explosão, ou se os meios de informação muito mais rápidos favorecerão à formação do indispensável sentimento revolucionário entre as massas oprimidas.
Rui Daher
16 de dezembro de 2013 12:10 pmK x Trabalho
Excelente a sua análise, Ricardo. A única ideia que acrescentaria à possibilidade dos 400 anos por você aludidos, é a escassez de recursos naturais à sobrevivência humana, que com o caminho para a hegemonia chinesa, não deveria tirar do horizonte uma nova Guerra Mundial, apenas tratada em modos diversos das anteriores.
alexis
16 de dezembro de 2013 12:48 pmAquela equação já não funciona
Houve uma época em que CAPITAL + TRABALHO = GERAÇÃO DE RIQUEZA. Assim, surgiram movimentos políticos de direita e de esquerda (conservadores / liberais e trabalhistas) em função de um ou de outro componente da equação, reivindicando uma maior parte daquela riqueza gerada. Aquela riqueza não existe mais, hoje é nominal, é como o Eike Batista antes e depois. Nos tempos modernos, ao criar as Sociedades Anônimas e as Bolsas de Valores, os negócios foram sublimados até esferas que saem fora dessa equação acima. Agora vale a marca, o estádio cheio não paga o “trabalho” do jogador, mas sim a nuvem onde está o pay per view, o patrocínio de anunciantes, etc. A equação política é hoje GLOBALIZAÇÃO (neoliberais) VS. ECONOMIA PLANEJADA E NACIONAL (PT)
Assis Ribeiro
16 de dezembro de 2013 1:07 pmO artigo faz uma leitura das dificuldades dos governos
frente ao que o autor denomina de “Capitalismo Mundial”. É o que se tem visto; governos reféns ou em dificuldades em promover mudanças que não sigam a cartilha.
A grande imprensa é a maior defensora deste “capitalismo mundial” contra governos, daí ela ser macartista com a esquerda que são os que tentam se afastar desta dependência das grandes corporações,é o neoliberalismo e seus mantras de “estado leviatã”, “livre mercado”, “gestão”, “disciplina de mercado”, e privatizações.
Esta é a grande luta atual, os movimentos difusos pelo mundo, cada uma com a sua especividade e tendo como pano de fundo a insatisfação com a representatividade dos seus parlamentares que se omitem quanto às mudanças pretendidas.
JB Costa
16 de dezembro de 2013 1:21 pmSinceramente, não entendi a
Sinceramente, não entendi a menção à URSS. Enquanto existia era um modelo ou espelho para os salários no resto do mundo? Uma economia centralizada e com os meios de produção de propriedade do Estado? Voei nessa.
Outra dúvida: terá sentido para os dias de hoje arguir esse embate capital versus trabalho? Nesses tempos de internet em que negócios são fechados em questões de segundos e um dos maiores detentores do capital são……….os trabalhadores!
Sim, hoje os fundos de pensão no mundo capitalista são um dos maiores operadores das bolsas de valores. Aqui no Brasil quase todo mega empreendimento tem a participação deles, em especial da PREVI.
O planeta, desde a década de noventa passa por profundas mudanças. Hoje estamos passando para uma quarta revolução industrial. A Terceira já era.
Assis Ribeiro
16 de dezembro de 2013 2:05 pmJB
Procure ver para onde tem ido o dinheiro dos fundos de pensão. A luta de Gushiken para fazer uma limpeza neles, segundo Rovai; “Ele impediu que o orelhudo (na definição de Mino Carta) influenciasse na escolha dos Fundos de Pensão.”. Dê uma lida na insuspeita Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/politica/pizzolato-uma-historia-esquecida-2632.html
jura
16 de dezembro de 2013 2:21 pmCidadania e gestão
“Quem não lembra, dentre os que eram adultos nos anos 1990, da EMPREGABILIDADE, uma idéia que punha a culpa pelo desemprego no trabalhador: ele é que não tinha adquirido – por sua conta e risco, e às expensas de seus gastos familiares cotidianos – as qualificações que o tornariam “competitivo”. Não importava se a economia estava em recessão, depressão ou simplesmente morta. A culpa era do preguiçoso e imprevidente trabalhador, que não quis estudar, fazer cursos que custavam mais do que todo seu salário anual, etc..”
Não é exatamente isso que faz o PSDB ao atribuir aos trabalhadores – servidores públicos – a culpa por todas as mazelas do setor público?
E, pior, num ato de extrema covardia e cara de pau, opor o servidor ao “cidadão” – como se os servidores não fossem cidadãos e contribuintes ao mesmo tempo – na tentativa obter apoio popular à sua campanha de desqualificação dos servidores travestida de choque de gestão.
Já repararam que o PSDB terceiriza até suas próprias respeonsabilidades e desempenho?
[video:http://youtu.be/cxUuU1jwMgM%5D