4 de junho de 2026

A superficialidade fútil de FHC

A política é construída de simbolos e mitos. E essa construção depende, e muito, da contribuição acadêmica e, especialmente, midiática.

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Na história do Brasil, um dos mitos persistentes foi a do intelectual engajado, o político com formação acadêmica, com supostas luzes intelectuais capazes de conduzir o país a um destino melhor do que nas mãos de políticos tradicionais e/ou pessoas sem formação.

O mito Rui Barbosa foi o primeiro grande engodo na República. O mito FHC foi o último.

O ex-presidente tem inúmeras virtudes, poucas ligadas ao campo intelectual. A maior delas foi justamente a capacidade de operar a baixa política, de montar modelos de governabilidade através da cooptação seletiva de partidos políticos – lição ignorada por Lula no primeiro governo (e que lhe custo o escândalo do chamado “mensalão”) e absorvida no segundo.

Mas no plano estrito da construção nacional, o teórico FHC foi um blefe. Limitou-se a repetir bordões da moda, sem a menor capacidade de digeri-los, trabalhá-los e organizá-los em torno de uma ideia forte.

No lançamento no Instituto Fernando Henrique Cardoso, protestou quando taxei seu governo der neoliberal – em uma questão dirigida ao espanhol Manuel Castells. Era surpreendente que, abrindo mão de qualquer forma de intervenção do Estado, até as básicas – a definição de um Projeto Nacional -, anulando todos os setores do PSDB que dispunham de uma visão social-democrata, não aceitasse que seu governo fosse enquadrado na categoria neoliberal.

Na entrevista que fiz com ele – que fecha o livro “Os Cabeças de Planilha” – era patética sua incapacidade de entender o papel de setores básicos para a construção de um país moderno: gestão, inovação, políticas sociais massivas, apoio à pequena e micro empresa, diplomacia comercial. O máximo que apresentava como fórmula de desenvolvimento era o fortalecimento de grandes grupos nacionais – os banqueiros de investimento – que, crescendo, trariam o país atrás de si. Era uma simplificação grosseira, um entendimento primário dos processos de desenvolvimento, fôsse por qual ângulo se analisasse, se de mercado ou de intervenção estatal.

Acabo de receber um email de uma socióloga da USP acerca da crítica que FHC faz ao governo Dilma, de falta de um “projeto nacional”.

Confiram.

Alguns críticos acreditavam que existia um projeto de país na cabeça do intelectual, que o presidente não reve condições de implementar. Nem o presidente nem o intelectual entenderam minimamente o caminho que o país deveria percorrer.

ESQUEÇAM O QUE ESCREVI… JÁ QUE EU SEMPRE ME ESQUEÇO TUDO O QUE DEFENDI…

Hoje, tivemos mais uma prova de que Fernando Henrique Cardoso não se preocupa com a coerência. No livro “A Soma e o Resto”, ele afirma :”Tenho horror a essa ideia de que falta um projeto nacional, para o Brasil. Isso é uma visão totalitária, a famosa utopia totalitária.”( editora civilização brasileira, R. de J., 2011, p. 52).

Pois hoje, dia 30 de abril de 2012, na Folha, caderno Folhainvest, “Mercado Aberto”, p. B2, ele dá uma entrevista a Maria Cristina Frias, e, em certo momento, criticando a Presidenta Dilma, ele afirma “Nós não tivemos até agora, nenhuma discussão substancial sobre o que fazer com nosso potencial de petróleo, etanol, eletricidade(…) Não quero dizer que seja a Dilma. Podia estar eu lá e ter o mesmo problema. Precisamos de um projeto nacional. Difícil fazer com que esses temas tenham acolhida. Até no meu próprio partido…”.

Ou seja, agora ele sabe reconhecer a f alta que nos faz a existência de um projeto nacional!

Anotações de uma professora de sociologia da USP

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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