No centro do debate político brasileiro às vésperas das eleições, dois temas se entrelaçam com força crescente: o uso da religiosidade como ferramenta de desinformação pela extrema-direita e a disputa de narrativas em torno do Supremo Tribunal Federal (STF). A análise é do programa Desinformação & Política, que discutiu na última sexta-feira (24) episódios recentes que ilustram esse cenário.
O ponto de partida foi um alerta sobre o que o programa chamou de “falsos profetas”, figuras que vestem o discurso religioso para disseminar desinformação e avançar agendas políticas. A referência bíblica usada foi de Mateus 7:15-20, que adverte contra aqueles que “vêm vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores”.
A tese central é que o bolsonarismo consolidou um ecossistema de desinformação que utiliza a fé legítima da população brasileira como vetor político. Igrejas, templos e terreiros, espaços de acolhida genuína para milhões de brasileiros, tornam-se, nesse processo, ambientes vulneráveis à manipulação por grupos organizados da extrema-direita.
Padre Red Pill
O exemplo mais concreto trazido pelo programa foi o do frei Gilson, padre carmelita que acumula grande audiência nas redes sociais e tem sido chamado de “padre Red Pill” por seus críticos. Com pregações que circulam amplamente no ambiente digital, ele prega abertamente que a mulher foi criada para ser “auxiliar do homem” e questiona o empoderamento feminino, tudo isso ancorado em leituras bíblicas.
Em uma de suas pregações citadas no programa, o frei afirma que “Deus fez a mulher para curar a solidão do homem” e que a missão feminina é ser auxiliar, o que, segundo seus críticos, coloca as mulheres em posição de inferioridade e alimenta um discurso misógino em um momento em que o Brasil registra uma explosão nos casos de feminicídio.
O frei Gilson não é uma figura nova, mas sua influência vem crescendo, e ganhando dimensão política. Nos últimos meses, ele estreitou laços com a campanha de Flávio Bolsonaro e estaria articulando a indicação de uma candidata a vice com apelo ao eleitorado católico.
O programa destaca que o ativista e jornalista Guga Noblat foi um dos que criticaram publicamente as falas do padre nas redes sociais.
A reação ao discurso do frei Gilson, no entanto, não é unânime nem mesmo entre mulheres religiosas. O programa aponta que há uma resistência crescente entre o público feminino, o que coloca Flávio Bolsonaro em uma posição delicada, já que as mulheres representam a maior parcela do eleitorado brasileiro.
Gilmar Mendes e Zema
O segundo tema do programa foi o embate entre o ministro do STF Gilmar Mendes e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, um episódio que escancarou os riscos da provocação política sistemática praticada pela extrema-direita.
Tudo começou quando Zema compartilhou um vídeo com fantoches representando Gilmar Mendes e o ministro Dias Toffoli, associando o STF ao escândalo do Banco Master. Gilmar reagiu pedindo ao ministro Alexandre de Moraes que Zema fosse incluído no inquérito das fake news.
Mas foi na tréplica que Gilmar escorregou: ao criticar Zema, fez uma referência homofóbica, chamando-o de “boneco homossexual”, fala que ele mesmo reconheceu como erro e pela qual se retratou publicamente. Em nota, o ministro escreveu: “Errei quando citei a homossexualidade ao me referir ao que seria uma acusação injuriosa contra o ex-governador Romeu Zema. Desculpe-me pelo erro.”
Para o programa, o episódio é um exemplo clássico da estratégia de provocação usada pela extrema-direita: cutucar adversários repetidamente até que cometam um deslize. Zema, que não ocupa o palco principal da política nacional, conseguiu exatamente o que queria — projeção e visibilidade — às custas de Gilmar Mendes. Sondagens posteriores indicaram que o ex-governador saiu do embate com sua exposição pública significativamente ampliada.
O programa ressalta que Zema conta com o suporte financeiro da mineração em Minas Gerais e com uma assessoria competente, o que lhe permite sustentar esse tipo de estratégia de forma profissional. E alerta: com as eleições se aproximando e o STF no centro da disputa política, episódios como esse tendem a se multiplicar.
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Carlos
26 de abril de 2026 1:47 pmZema é apenas um rato que ruge. Aliás como a maioria destes malucos de extrema-direita.
Religião é isso mesmo: um balcão de negociatas.
E a única coisa que explica a tal visibilidade é que, infelizmente, idiotas são quase maioria no Brasil atual..
Carlos
26 de abril de 2026 1:59 pmMas quanto ao ministro Gilmar, o caos no qual o país está mergulhado até hoje deve ser creditado para ele.
Ou o deslocamento do processo de Lula para Curitiba não foi obra dele? Globo criou um factoide com o convite absolutamente republicano de Dilma para Lula ocupar a casa civil e o ministro embarcou, como agora no papo do rato mineiro.
É aquilo: tirar o gênio da garrafa é mole, colocá-lo de volta é o problema.