Famílias de elite dominam o país desde o século XVIII, garante pesquisador

Lógica familiar explica a desigualdade: enquanto elites dominam as esferas política e judiciária, pobres encontram bloqueios para ascender socialmente

Crédito: Reprodução/ Youtube TVGGN

A meritocracia como ferramenta de ascensão social, um dos principais discursos da direita e de liberais, cai por terra quando a genealogia das famílias é estudada. Isso porque é possível concluir que as famílias tradicionais de elite sempre comandaram as esferas de poder na política e no judiciário desde o século XVIII, e esta lógica familiar explica a desigualdade social brasileira.

Esta é a conclusão de Ricardo Costa de Oliveira, doutor em sociologia, professor da Universidade Federal do Paraná, e pesquisador sobre genealogia, que participou da última edição do programa TVGGN Justiça, exibida na sexta-feira (24), no Youtube.

“O Brasil inteiro é um só, inclusive em termos genealógicos, porque as famílias mais antigas de cada região têm uma rotatividade nacional desde o período colonial, o que se aprofundou bastante no estado imperial e após a independência. No caso jurídico, as famílias eram formadas bacharéis em Direito desde Recife e Olinda, em Pernambuco, também em São Paulo para alta burocracia provincial imperial. Então, muitas famílias do Sul do Brasil têm raízes genealógicas nordestinas e vice-versa”, observa o convidado.

Oliveira observa que, de maneira geral, as famílias políticas e no sistema judicial atravessam, operam e controlam todas as instituições brasileiras de maneira decisiva e, quanto mais importante a família, mais nacional ela tende a ser na sua genealogia e no escopo de atuação política. 

“Cada grande genealogia brasileira é um manancial para entendermos quem é quem do poder político, empresarial e político”, continua o entrevistado. 

Além de documentos primários, Ricardo Oliveira comenta que a internet contribuiu exponencialmente com a sua pesquisa, fornecendo dados genealógicos em mais quantidade e qualidade. 

E, a partir de suas análises, o pesquisador constatou que a genealogia do Centro-Sul do país desemboca na grande genealogia paulistana, que são as famílias mais antigas da capitania de São Paulo e têm parentesco em comum com os demais títulos genealógicos do país. 

“As nossas conclusões são de que o núcleo duro da classe dominante tradicional brasileira é o núcleo duro do século XVIII. Todas as famílias do capital financeiro, Moreira Sales, Setúbal, já têm poder e riqueza no século XVII. É uma transmissão de hereditariedade, transmissão de capitais sociais, econômicos, culturais e políticos.”

Manutenção do poder

Para se manter na elite, é comum que as famílias dominantes se conheçam desde a escolarização dos filhos e, por conviverem, existe a tendência de que os casamentos sejam realizados entre si. Até mesmo na considerada grande intelectualidade, também chamada por Oliveira de intelectualidade de esquerda, existem as famílias dominantes, a exemplo dos Buarque. 

“É também aquela questão central: só existe grande riqueza empresarial com muita política,muita inserção no mercado, muitas conexões estatais, de modo que quem se torna muito rico é porque faz muita política, controla políticas públicas, créditos, apoios, monopólios. Basta a gente analisar quem é quem das famílias brasileiras”, continua o entrevistado.

Um exemplo citado pela importância da análise da família é o clã Bolsonaro, que recentemente conseguiu reunir um membro na presidência do país, no Senado, na Câmara dos Deputados, no Legislativo municipal do Rio de Janeiro, sem contar as aspirações do filho mais novo e a eleição de ex-mulheres de Jair Bolsonaro (PL). 

Mais um exemplo: o da família Campos. “Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central e até hoje no último governo, uma questão para que ele permanecesse mesmo em um governo de oposição, que é o governo do presidente Lula, é que ele é de uma das famílias políticas do Brasil, família Oliveira Campos. O avô dele muito foi conhecido na ditadura, também um intelectual, mas de uma família que tem fortes raízes não só no Mato Grosso, mas também em Minas Gerais desde o início do século XVIII”, comenta Ricardo Oliveira. 

Assim, enquanto membro de uma das famílias mais ricas de Minas Gerais, graças à mineração, Roberto Campos Neto exerce um cargo fundamental para a burguesia e para o capital financeiro no Banco Central, uma vez que cada 0.25 ponto na Selic resulta em ganhos para grandes empresários e financistas. 

Desigualdade

Ricardo Oliveira observa ainda que nascer em uma boa família sempre se converte em capitais sociais para seus membros, em que “as portas dos salões do poder se abrem para quem vem de uma família poderosa”. Ao mesmo tempo, pessoas que nascem em famílias pobres, negras e indígenas sempre vão encontrar bloqueios e maior dificuldade para conseguir cargos de poder. 

“É a reprodução da miséria e da pobreza. Quem está no topo, no alto da classe dominante, não vai precisar fazer muito esforço para subir nas carreiras, ganhar melhores cargos, exercer melhores profissões”, conclui o pesquisador.

Para conferir a entrevista na íntegra, visite o canal na TVGGN no Youtube ou clique no link abaixo:

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Camila Bezerra

Jornalista

4 Comentários

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  1. Creio que outros países passem por isto.

    Lula vai nomear o BC no fim do ano e seu sucessor se for da direita terá de engolir a pessoa.

    Creio que esta oligarquia perdeu muito do seu poder, embora ainda tenha muito.

  2. Esse comportamento social também está presente nos macacos e até em especies não primatas.
    Pra começar, só se gosta, só se confia em quem se conhece.
    Meu município é antigo e durante 170 anos nele houve apenas uma paróquia, que, a priori, era onde todo mundo se encontrava. Hoje foi fracionado em 16 unidades municipais, mas a paróquia central só se subdividiu depois de 1991. Ressalvas: foi dividida em duas em 1845. O atual território é formado de restos das duas, e, mesmo hoje o cenário completamente modificado, com presença de um quarto da população de protestantes, percebe-se a nítida separação entre as duas paróquias “originais”.
    Detalhe: a minha cidade há dois séculos, no mínimo é de pequenas proprietários.

  3. E, em regra, quando um pobre ascende socialmente, ele deixa de ser oprimido e se torna um opressor, tal qual o Joaquim Barbosa, entre outros.

  4. “As long as inheritance lasts, there will be hereditary economic inequality — not the natural inequality of individuals, but the artificial inequality of classes — which will necessarily continue to be expressed in hereditary inequality of the development and cultivation of intelligence and will remain the source and sanction of all political and social inequality”.

    Bakunin

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