Em uma análise profunda sobre as transformações no sistema de justiça brasileiro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, discutiu os desdobramentos e as lições deixadas pela Operação Lava Jato durante entrevista exclusiva concedida ao jornalista Luís Nassif em 2025, por ocasião da produção do documentário “A Caixa-Preta da Lava Jato”, uma obra original do canal TV GGN lançada no Youtube em janeiro de 2026 [assista abaixo].
Para o decano do STF, o período da Lava Jato foi marcado por uma tentativa de protagonismo do Judiciário e do Ministério Público que, aproveitando-se de um cenário de fragilidade política e crise econômica, conseguiu “emparedar” o sistema político e o próprio establishment. O ministro destacou que instrumentos jurídicos criados durante o governo Dilma Rousseff acabaram sendo instrumentalizados para consolidar um domínio que extrapolou o combate à corrupção, culminando em uma “confusão” deliberada entre atos ilícitos e práticas políticas regulares, como o caixa dois e doações de campanha.
O ministro relembrou que a operação criou uma espécie de “ideologia dominante” que “engolfou tribunais” e contou com um apoio midiático massivo, o que tornava quase impossível a tramitação de representações contra abusos de autoridade na época. Ele citou casos específicos, como as decisões sobre a prisão em segunda instância, que inicialmente visavam combater a impunidade, mas foram convertidas em ferramentas de pressão para obter delações premiadas.
“Houve uma concentração de poder nesse grupo. Quase que um consórcio, como depois a Vaza Jato e a Spoofing iam revelar. Um jogo todo combinado entre promotores, juízes, procuradores, todos atuavam juntos e separados. As denúncias sobre corrupção espantavam. Depois você começa a ver que estavam instrumentalizando o combate à corrupção para um domínio do sistema político como um todo”, comentou.
Gilmar Mendes enfatizou que órgãos de controle, como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), falharam em momentos cruciais por estarem sob o efeito do “clamor das ruas” e da manipulação das redes sociais, e deixaram de punir transgressões de figuras como o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador e ex-coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol.

Ao discutir a estrutura atual do Estado, Gilmar Mendes manifestou preocupação com o desequilíbrio de forças entre os poderes e a falta de base parlamentar, que torna o impeachment um risco constante no presidencialismo brasileiro. Ele defendeu reformas institucionais, mencionando o semipresidencialismo como uma alternativa para evitar crises futuras, e ressaltou que a implementação da figura do “juiz de garantias” e a nova Lei de Abuso de Autoridade são respostas fundamentais para garantir que o poder de investigação não se concentre nas mesmas mãos que julgam, evitando a repetição de um modelo de “força-tarefa totalitária”.
O magistrado também recordou episódios de perseguição pessoal e institucional sofridos por ele e seus pares, mencionando o uso de órgãos como a Receita Federal para fiscalizações viciadas e vazamentos seletivos. Ele elogiou o trabalho “heróico” do atual ministro Cristiano Zanin enquanto advogado, que enfrentou um aparato estatal que incluía até escutas em escritórios de advocacia. Para Mendes, o país vive hoje um processo de depuração e recuperação do papel da política, embora reconheça que o Supremo Tribunal Federal ainda carrega um peso excessivo na manutenção da estabilidade democrática brasileira.
A entrevista foi concedida em 2025 ao jornalista Luis Nassif, em Brasília, por ocasião da produção do documentário “A caixa-preta da Lava Jato”, uma obra original do canal TV GGN que está disponível na plataforma YouTube. A íntegra da entrevista é disponibilizada apenas para os leitores que ajudaram a financiar o documentário via Catarse ou PIX.
Assista ao documentário abaixo:
José de Almeida Bispo
20 de janeiro de 2026 8:17 pmDelenda est Lula, é o que fica por trás de todo esse projeto escandaloso, que abriu mão até do resto de soberania e vergonha na cara, então existente no Brasil, levando à loucura em que estamos metidos, porque não cessou; apenas parte está em estado de hibernação, possivelmente devido à ponderável parcela dos entusiastas do “Lula fora a qualquer custo”, terem descoberto que esse custo seria muitas vezes maior do que o pensado. Exemplo, perder o controle para o frotismo-bolsonarismo. Como perderam completamente.
Roberto
20 de janeiro de 2026 8:47 pmMe envergonho de ser brasileiro quando leio essas coisas que foram feitas contra a lava jato, aumentando a corrupção.
Aristóteles Cardona
21 de janeiro de 2026 7:35 amA elegância do jornalista Luis Nassif, o impediu de perguntar ao Sr ministro, quem chocou o ovo da serpente?!